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Vida breve, vida louca: estreia cinebiografia do escritor Franz Kafka

'Franz', dirigido pela premiada Agnieszka Holland, acompanha a trajetória de um dos escritores mais influentes do século 20

A premiada Agnieszka Holland responde pela inventiva cinebiografia 
e de Kafka -  (crédito: A2 Filmes)
A premiada Agnieszka Holland responde pela inventiva cinebiografia e de Kafka - (crédito: A2 Filmes)

Crítica // Franz ★★★★

Um gigante da literatura, de origem judaica, anônimo em vida e reconhecido depois da morte prematura (aos 40 anos, por uma tuberculose específica), antes de iniciada a Segunda Guerra, mas que antecipou perseguições intelectuais,  burocracia e má-fé advindas das ditaduras. Mesmo que fosse planificada a narrativa conduzida por Agnieszka Holland, apoiada pelo roteiro de Marek Epstein, o filme sobre Franz Kafka já refletiria a inclinação da diretora polonesa pelos relatos que tocam a guerra, vide títulos que ela assinou entre os quais Zona de exclusão, A sombra de Stalin, Colheita amarga, Filhos da guerra e Na escuridão.

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Desconsiderado por familiares (especialmente pelo pai), mas reconhecido nos círculos literários, Kafka reluz na telona concentrando um embate, mas que se comprova íntimo: célebre tcheco, nascido na Praga do século 19 e morto em Viena, finda a Primeira Guerra Mundial. Numa interpretação contida e dono de ares misteriosos, o ator Idan Weiss da vida à obscura mente de Kafka. Pela qualidade do retrato de Weiss (de 29 anos), o ator competiu ao European Film Awards junto com medalhões como Sergi López, Toni Servillo e Stelan Skarsgard (esse, vencedor, por Valor sentimental). Um painel desgovernado do crescimento de Kafka como artista desponta no longa que recebe um encadeamento único, na montagem a cargo de Pavel Hrdlicka. Aos 76 anos de idade, a cineasta Agnieszka comprova o vigor do seu olhar em cima da obra do autor de O veredicto, A metamorfose, O castelo, Amerika e Um artista da fome.

Um mundo desordenado se assenta no filme, que inclui cenas de depoentes, testemunhas da vida de Kafka, que encaram a câmera, e complementam a narrativa repleta de anedotas e observações sobre comportamentos (nem todos louváveis) do escritor. Até a realidade de estar extremamente debilitado, num mundo em que tratamentos de saúde eram incipientes, Kafka encara um mundo despreparado para sua honestidade.

Com o domínio de narrativas acerca de literatura, Holland reafirma a capacidade vista em obras anteriores como Eclipse de uma paixão, com o jovem Leonardo DiCaprio encarando o papel do Arthur Rimbaud, na conturbada relação com Verlaine. O Kafka que ela encoraja na tela é capaz de reservar tratamento especial à prostituta, num ambiente chocante de bordel. E o mesmo personagem-título que mantém uma extrema cumplicidade com a irmã Ottla, reserva a si o direito de graves irresponsabilidades, como o desdém com o qual se aparta da pretendente Felice (Carol Schuler), as infidelidades registradas em cartas e seduções mais do que producentes como a da tradutora e ativista Milena Josenská (Jenovéfa Boková). O caso rendeu um clássico das letras publicado em 1952.

Noutro campo pessoal, o filme abarca a amizade com Max Brod (Sebastian Schwarz), a quem confiou a queima de todos os inéditos (algo não cumprido), dada a proximidade de sua morte. Representante da Polônia, em possível vaga para o Oscar 2026 (não efetivada), Franz, para além das cenas desagradáveis de tortura (baseadas na imaginação do escritor), mostra a medicina com a brutalidade de um mundo distante dos aparatos tecnológicos e a falência iminente da família de Kafka por causa da guerra, com uma cena em que especulam (ironicamente) se comem um rata ou um coelho.

Comerciante, o pai de Kafka, Hermann ganha um retrato perfeito, pelo ator Peter Kurth. O pai, impertinente e ríspido, sempre foi entrave na batalha do autor pela defesa das criações. Adepto de alguma libertinagem, Kafka tem sublinhada a nudez em um sanatório naturista e ainda luta (poeticamente), num cabo de guerra demarcado por inspirações para os textos. Inconformado com o destino no dia a dia em gabinetes burocráticos, o escritor tem o legado escrutinado pela crítica Holland: ela mostra a exploração de bugigangas, a venda de quinquilharias, o comércio em museus e até a negociação por centímetros do resguardado local em que ele se deitava na relva.

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postado em 03/07/2026 07:02
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