
Autor de novelas como Pantanal e O rei do gado, Terra nostra, Cabocla, Sinhá moça, O feijão e o sonho e Meu pedacinho de chão, Benedito Ruy Barbosa morreu, nessa terça-feira (7/7), aos 95 anos, em São Paulo. O dramaturgo estava internado no Hospital do Coração devido a complicações de insuficiência renal crônica. O velório foi realizado no Funeral Home, no centro da capital paulista. Benedito havia ficado por 19 dias no mesmo hospital para o tratamento de uma infecção urinária em janeiro deste ano.
Benedito Ruy Barbosa é autor de algumas das mais importantes telenovelas do Brasil. Sua última novela foi em 2016. Velho Chico contou com um elenco marcante, que teve Domingos Montagner, Rodrigo Santoro, Camila Pitanga, Gabriel Leone, Rodrigo Lombardi, Ernesto Rosa, Selma Egrei, Carol Castro, Antônio Fagundes e Christiane Torloni.
A morte de Benedito Ruy Barbosa encerra um ciclo fundamental na teledramaturgia brasileira, deixando um legado que ressoa tanto na memória afetiva do público quanto na reverência de quem deu vida às suas criações. Mais do que um novelista, ele foi um cronista que, como definiu a atriz Cristiana Oliveira ao Correio, "sempre foi no âmago do ser humano, e do ser humano mais simples, do ser humano mais verdadeiro, sem nunca se distanciar das tramas vibrantes que definem um folhetim".
Para a atriz que viveu Juma Marruá em Pantanal (1990), "o autor possuía a rara habilidade de equilibrar o amor e os embates entre o bem e o mal com a crônica cultural do Brasil rural". Ao recordar sua trajetória, ela destaca que o dramaturgo era um mestre em costurar a realidade do campo com a alma de seus personagens. "Benedito foi um grande autor que vai deixar um legado lindo com as novelas dele", concluiu.
Paixão pelo Brasil
Assim como Cristiana, foi pelas mãos de Benedito Ruy Barbosa que Vanessa Giácomo recebeu a primeira grande personagem na televisão, a Zuca, do remake de Cabocla, de 2004. Além de grata, a atriz destaca o talento, a sensibilidade e a paixão do novelista pelo Brasil: "O Benedito tinha um dom raro de criar histórias e personagens verdadeiros, humanos e inesquecíveis. Seu texto emocionava, aproximava as pessoas e valorizava a nossa cultura como poucos. O legado do Benedito Ruy Barbosa permanecerá vivo para sempre na dramaturgia brasileira e no coração de todos nós".
Um dos pilares para as cenas construídas na mente de Benedito Ruy Barbosa, Marcos Palmeira viveu um leque de personagens do escritor: foi Tadeu e José Leôncio em Pantanal, nas versões feitas com 32 anos de diferença, além de João Pedro e José Inocêncio, nas versões de 1993 e de 2024 para a novela Renascer; isso sem contar papéis em Esperança (2002) e também em Velho Chico (2016), essa feita a partir de argumento do autor. Com humildade e emoção, Marcos pontua, ao Correio: "Benedito é muito importante na minha carreira. Eu devo muito a ele, sou muito grato por toda a confiança que ele teve em mim. Considero Benedito um poeta da dramaturgia, que levou o Brasil profundo para o horário nobre. Hoje é dia de celebrar Benedito e o legado tão rico que ele deixou".
Esse impacto geracional é confirmado por Renan Monteiro, que pôde vivenciar a força dessa obra ao interpretar José Augusto no remake de Renascer (2024). Para o ator, a importância de Benedito transcende a tela. "Benedito transformou o Brasil em novela. Trouxe um Brasil para dentro. Seus personagens humanizados, com conflitos internos e sua obra com temas brasileiros sendo levados para dentro das casas das pessoas com muita poesia. Um contador de histórias não morre, jamais!", destacou ao Correio.
DNA no teatro
"Benedito começou, no Teatro de Arena, com a peça Fogo frio, que falava da geada e trazia questões agrárias", relembra o ator Paulo Betti, um dos intérpretes de personagem do mestre. Os temas presentes na montagem de Augusto Boal, de 1960, com núcleo e problemática localizada no impacto do clima para produtores de café foram perpetuados nas novelas de televisão. "Dele, fiz a novela Os imigrantes. Foi a segunda temporada. Depois de uma primeira etapa, de 30 capítulos, a Band resolveu fazer uma continuação que ficou quase dois anos em exibição. O ponto original foi do Benedito", enfatiza Betti, que também participou da novela De quina pra lua, escrita por Alcides Nogueira a partir de um argumento de Benedito.
O ator e diretor João Antônio também relembra o início de Benedito nos palcos. "Um início de alto nível. O Teatro de Arena está no DNA do teatro brasileiro. Depois, se tornou um dos mais impressionantes autores de novelas para televisão. Mas o teatro ficou e ajudou a estruturar sua versão televisiva", lembra. As posições do dramaturgo eram polêmicas, especialmente quando se tratava de declarações sobre a comunidade LGBT, lembra João Antônio, mas a contribuição para a teledramaturgia foi enorme. "Ele mostrou-se grande conhecedor da sociedade e da alma brasileira. Suas novelas, vistas também em inúmeros países, exibiram nossa cara. Mostrou também aos brasileiros o interior do seu país. Perdemos um grande observador da nossa alma", garante.
A profundidade técnica e sociológica dessa trajetória é sintetizada por Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela USP. Segundo o especialista, Benedito não apenas adaptou a literatura — como fez ao elevar O feijão e o sonho e Sinhá Moça ao patamar de épicos da televisão —, mas também atuou como um observador perspicaz das tensões nacionais. "Ele contou com paixão as riquezas e mazelas do Brasil profundo", afirmou. Alencar cita, ainda, Os imigrantes, exibida em 459 capítulos pela Band, como o trabalho mais completo sobre o tema em nossa teledramaturgia. "É um verdadeiro tratado sociológico sobre a imigração no Brasil", frisa.

Diversão e Arte
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