personalidade

Com 28 anos de tevê, André Luiz Miranda vivencia o primeiro protagonismo

Com "Dona Beja" e "A nobreza do amor", o ator André Luiz Miranda, de 38 anos, celebra um ano marcado por maior representatividade na tevê e no streaming. Ele também pode ser visto na reprise de "Avenida Brasil" e na série "Galera FC"

André Luiz Miranda, ator -  (crédito: Marcio Farias)
André Luiz Miranda, ator - (crédito: Marcio Farias)

O ator André Luiz Miranda, que começou sua trajetória ainda criança como garoto propaganda da Prefeitura do Rio, vive em 2026 um dos momentos mais férteis de sua carreira. Ele está em dose dupla na televisão com papel de destaque em A nobreza do amor, na TV Globo, e um dos protagonistas na nova versão de Dona Beja, da HBO Max (exibida pela Band). Além disso, tem dois projetos no streaming e um filme em competição no 28º Festival Internacional de Cinema de Xangai.

André analisou sua trajetória, o peso de ter sido uma das primeiras crianças negras no horário nobre, em 1999, com Terra Nostra e o papel de Tiziu, que abriu portas para toda uma geração. "Acho que grande parte das crianças pretas naquela época se enxergavam no Tiziu e enxergaram a possibilidade de poder estar naquele lugar", relembrou.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

A versatilidade de André Luiz Miranda em 2026 é um dos pontos altos do ano. Ele vive o humilde Akin em A nobreza do amor e o idealista João em Dona Beja, além de reaparecer na reprise de Avenida Brasil como o garçom Valentim. Sobre como consegue dar conta de personagens tão distintos ao mesmo tempo, o ator atribui o mérito ao estudo e à vontade de sempre se desafiar. "Talvez a vontade de nunca repetir uma fórmula seja o que me faz transitar por universos tão diferentes", refletiu. 

Sobre a novela das seis, Miranda não esconde o entusiasmo. Ele conta que, desde os primeiros anúncios do projeto, sentiu uma conexão energética e uma grande vontade de fazer parte da história, que se passa no reino fictício de Batanga. "Percebi que seria uma produção muito importante e corri atrás, corri muito atrás pra estar nele independente do personagem, porque eu sabia que seria um marco na teledramaturgia falar de África", disse.

Para ele, o processo de construção de Akin, um minerador, foi coletivo e recheado de pesquisas sobre um recorte de África que foge do imaginário comum. "A gente construiu esse reino de Batanga junto, cada um plantando um pouquinho", completou, revelando que o personagem está sendo um dos mais marcantes de sua vida.

Outro destaque na carreira do ator é o papel de João Carneiro em Dona Beja. Como protagonista, ele vive um advogado dividido entre o amor e a amizade. No entanto, Miranda faz questão de sublinhar que o grande conflito do personagem vai além da disputa amorosa. "Mais do que a disputa, que eu acho que nem seria uma disputa pelo coração da Beja, eu acho que o grande conflito dele é, na real, a disputa política", explicou.

A trama coloca em cena dois homens negros e poderosos com o mesmo objetivo — a libertação de cativos —, mas com pensamentos e métodos totalmente diferentes. "Nós, pessoas pretas, sempre fomos colocados na mesma caixinha e 'Dona Beja' veio com esse outro olhar", celebrou, valorizando a complexidade dos personagens.

Avanços

Olhando para trás, o ator reconhece o avanço na representatividade, mas afirma que ainda há um espaço enorme a ser preenchido. Ele acredita que a diversidade deve ir além das câmeras, abrangendo roteiristas, diretores e produtores, para que as histórias sejam mais verdadeiras. Nesse sentido, ele cita a Oficina de Afrobrasilidade com Lázaro Ramos como um "divisor de águas" que o fortaleceu como artista e o levou ao espetáculo O jornal.

"Foi um espaço de troca, de aprendizado, de fortalecimento, mesmo, da nossa identidade como artista", relembrou. Atualmente, com projetos como O deserto de Luiza — que estreou mundialmente no festival de Xangai e está na disputa pelo cobiçado Golden Goblet — e a segunda temporada de Galera FC, na HBO Max, ele vê o mercado finalmente entendendo que o público quer se ver nas telas.

Aos 38 anos, o artista que começou como modelo infantil segue sonhando alto e planejando o futuro com a mesma fome de aprendizado de quando era criança. E, no meio de tantos personagens desafiadores, como o próprio Akin, seu coração continua guardado para Tiziu, o menino que mostrou a ele e a tantas outras crianças o caminho das artes.

André Luiz Miranda, ator
André Luiz Miranda, ator (foto: Marcio Farias)

Entrevista | André Luiz Miranda 

André, 2026 está sendo um ano realmente especial para você. Com estreias em Avenida Brasil, A nobreza do amor, a série Veronika e a segunda temporada de Galera FC, como você está conseguindo dar conta de tantos personagens tão distintos ao mesmo tempo? Qual é o seu segredo para essa versatilidade?

Realmente é um momento muito bonito da minha carreira. Eu acho que todo ator sonha em ver personagens assim, tão diferentes um do outro. Mostra um pouco também da versatilidade, porque eu posso transitar por vários gêneros, e eu acho que é o resultado de muito estudo, dedicação e respeito a cada história. Eu vou entendendo quem é aquele personagem, o que ele sente, o que move aquele ser humano e, a partir daí, eu vou construindo tudo que o público vê. Talvez a vontade de nunca repetir uma fórmula seja o que me faz transitar por universos tão diferentes, e soma-se a esta vontade de sempre me desafiar como ator.

Na novela das seis, seu personagem Akin é um minerador em Batanga. O que te atraiu nesse papel e como foi o processo de construir um personagem em um universo de época tão diferente do nosso?

Toda vez que alguém me pergunta sobre A nobreza do amor eu falo sempre a mesma coisa: eu já estava envolvido com esse projeto energeticamente. Desde que eu soube lá no início, nos primeiros passos de divulgação do projeto, eu nem sabia ainda como seria a história, mas sabia mais ou menos o pano de fundo, eu fiquei encantado! Eu quis muito fazer parte, eu nem sabia qual seria o personagem, mas eu queria estar dentro deste projeto que tem uma proposta grandiosa. Percebi que seria uma produção muito importante e corri atrás, corri muito atrás pra estar nele independente do personagem, porque eu sabia que seria um marco na teledramaturgia falar de África, e falar de África nessa perspectiva, nessa ótica, né, mexendo com o imaginário de muita gente. Acho que a gente precisa, como ator, entender aquele universo, os costumes, a forma como as pessoas viviam - inclusive é o recorte que a gente tem, um recorte de África, e não é uma África que todo mundo conhece. Então tivemos bastante pesquisa, é um projeto muito coletivo, porque a gente construiu esse reino de Batanga junto, cada um plantando um pouquinho. Está sendo delicioso, pra mim vai ficar marcado na minha vida pra sempre, eu estou apaixonado por este projeto.

Além das novelas e séries, você tem um papel de destaque na nova versão de Dona Beja como o advogado João Carneiro. Como é viver esse protagonista e disputar o amor de Beja com um amigo de infância, numa trama tão repleta de paixão e rivalidade?

O João é um personagem muito, muito rico. Ele vive aí dividido, né, entre o amor, a amizade, os princípios, os próprios sentimentos... Mas eu acho que, mais do que a disputa, que eu acho que nem seria uma disputa pelo coração da Beja, eu acho que o grande conflito dele é, na real, a disputa política, e essa diferença de pensamentos desses dois amigos, porque eles têm o mesmo objetivo, querem a mesma coisa, só que de formas diferentes. Então é complexo a gente retratar isso, né, porque nós, pessoas pretas, sempre fomos colocados na mesma caixinha e Dona Beja veio com esse outro olhar, né, de que esses dois personagens pretos de poder têm um olhar culto, são estudados, mas têm pensamentos diferentes. Mesmo querendo o mesmo objetivo, que é libertar os cativos. Então é mais complexo do que só uma disputa do amor dessa mulher. Óbvio que existe essa pequena rivalidade, mas acho que isso fica muito pequeno tendo em vista toda a situação política que envolve esses dois personagens.

Sua carreira começou muito cedo, como modelo infantil. Olhando para trás, o que você acha que aquela experiência como garoto propaganda da Prefeitura do Rio te ensinou que ainda leva com você até hoje, aos 38 anos?

Olha que bacana, você resgatou a Prefeitura do Rio, que acho que foi meu primeiro grande trabalho no audiovisual, embora com um recorte mais regional, né, aqui no Rio de Janeiro. Eu comecei muito cedo, com uns 10 anos, e isso me ensinou muita coisa. Eu tive disciplina, aprendi a respeitar o trabalho de cada pessoa da equipe, comecei a entender que atuar é sempre um trabalho coletivo. E pude aproveitar cada oportunidade, acho que essa vontade de aprender da criança nunca foi embora - e continua sendo uma das coisas que mais me movem.

O público te conheceu e se apaixonou pelo menino Tiziu, de Terra nostra. Quase 30 anos depois, o que esse papel representa na sua memória afetiva e como você enxerga a importância daquele momento para a abertura de portas na sua carreira?

O Tiziu foi um dos personagens mais importantes da minha vida e que vai ficar na minha história para sempre. Ele me apresentou para o mundo, abriu portas importantes na minha carreira, mas não só para mim. Eu acho que grande parte das crianças pretas naquela época se enxergavam no Tiziu e enxergaram a possibilidade de poder estar naquele lugar. Então, a reprise que rolou esse ano foi muito importante porque eu recebi tanto carinho de pessoas de fora, mas também os meus colegas do meio, os colegas atores, de como foi importante esse personagem para as crianças pretas, sabe? Eu tenho um enorme carinho por esse personagem e, ao mesmo tempo, eu gosto de olhar para ele como um começo da minha caminhada, que continua até hoje. É emocionante perceber que tantas pessoas ainda lembram dele com tanto carinho, e também olho pra trás e vejo que essa minha trajetória é muito bonita e eu permaneço nela até hoje.

Você tem um currículo invejável, com passagens por novelas icônicas como Terra nostra, onde foi uma das primeiras crianças negras no horário nobre. Como você avalia a evolução dos papéis oferecidos a atores negros desde o início da sua carreira até hoje?

Eu acredito que a gente avançou bastante, é muito importante a gente reconhecer isso. Hoje temos personagens negros mais complexos, protagonistas, com histórias que vão além do estereótipo. Mas eu acho que existe um espaço enorme que ainda precisa ser preenchido. Acredito que a diversidade não precisa acontecer só na frente das câmeras, mas acho que também quem escreve, dirige, produz... Porque, quando isso acontece, as histórias ficam mais verdadeiras e representam melhor a nossa sociedade.

Você é um artista que transitou por diferentes mídias e personagens. Em 2017, você participou da Oficina Afrobrasilidade com Lázaro Ramos. Como essa experiência te impactou profissionalmente e qual a importância de iniciativas como essa para fomentar novos talentos negros?

Eu confesso que a oficina foi um divisor de águas na minha carreira. Me mostrou tanta coisa, foi muito importante, uma experiência muito marcante. Foi um espaço de troca, de aprendizado, de fortalecimento, mesmo, da nossa identidade como artista. Estar ao lado de vários profissionais que compartilham suas experiências, e são experiências parecidas. Acho que uma iniciativa como essa ajuda a formar talentos, a criar oportunidades e a fortalecer novas narrativas. É algo que faz muito bem para o audiovisual e para o teatro brasileiro. Eu digo que foi um divisor de águas porque dali surgiu o espetáculo O Jornal, que o Lázaro Ramos dirigiu, e fomos indicados a vários prêmios. Me mostrou um outro lado de ser artista, sabe? Foi uma experiência muito incrível, eu guardo no meu coração porque foi muito importante não só para mim, mas para todo mundo que participou.

Você mencionou a importância de quebrar estereótipos e o racismo estrutural. Com o sucesso de projetos como Dona Beja e a expectativa para o filme O deserto de Luiza, você sente que o mercado finalmente está entendendo que a receita é contar histórias diversas, feitas por nós e para os nossos?

Eu acho que não é receita, na real a gente está quase que tomando o lugar que nos é de direito - e o mercado está entendendo isso, porque o público quer se ver, quer se reconhecer nas histórias. Quanto mais diversidade a gente tiver nas telas, nos bastidores, mais rica fica a dramaturgia. Eu sei que a gente ainda tem desafio, mas eu vejo esse movimento com bastante esperança. São histórias diversas que não interessam apenas a uma parcela específica, elas interessam todo mundo, porque falam sobre pessoas. Então eu acho que o grande segredo está aí, contar as histórias de pessoas para pessoas, sabe? Por isso que temos histórias tão ricas, porque estamos enxergando que esse é o processo, devolver aquilo que nos foi tomado, que é a nossa própria história.

Com todos esses lançamentos, qual o seu maior sonho ou objetivo para o futuro da sua carreira? Há algum tipo de personagem, gênero ou diretor com quem você ainda sonha em trabalhar?

Ah, eu tenho tantos, tantos sonhos... Quero continuar fazendo personagens diferentes, que me tirem da zona de conforto, fazer mais cinema e teatro, seguir contando histórias que emocionem e façam as pessoas refletir. Aprender mais, evoluir, acho que sempre existem novos caminhos pra percorrer. E é isso que torna essa profissão tão bonita, porque ela não tem prazo. É só seguir em frente e buscar por novos desafios.

Para finalizar, vamos a um raio-x rápido: qual foi o personagem mais desafiador da sua carreira e por quê? E qual deles você guarda no coração com mais carinho?

Eu tive vários desafios na minha carreira, sim. Para a maioria dos personagens que interpretei eu tive que aprender muita coisa, porque era de um outro universo, uma outra coisa que não fazia parte do meu cotidiano. O Akin está sendo um desafio, porque a gente fala de um recorte de África. O João Carneiro foi um personagem desafiador, porque foi meu primeiro protagonista, um volume enorme de cenas, também com um recorte de um tempo diferente do nosso. São vários, mas eu falo que foi o mais desafiador porque eu tive muito pouco tempo pra me preparar. Foi de um dia pro outro, praticamente, e era um universo completamente diferente daquilo que eu vivia, né? É um universo policial, um universo real, que é o do inspetor Cristiano Olegário, meu personagem na série Veronika, que vai estrear agora em setembro, protagonizado pela incrível Roberta Rodrigues, produção do AfroReggae Audiovisual. Para entrar nesse universo policial, eu tive um intensivão, mesmo, de um mês praticamente, entre preparação e gravação. E era diferente dos demais personagens, este tem um tom de vilania. Então, esse rapaz tranquilo, bom moço, transformado em um vilão, foi um desafio. Mas foi incrível, eu sou super apaixonado por este personagem, sou apaixonado pela série. E, óbvio, o personagem pelo qual eu tenho mais carinho é o Tiziu, porque ele tem um lugar muito especial no meu coração. Foi ele que me abriu portas. Não só pra mim, mas pra várias crianças pretas, e foi ali que muita gente conheceu o meu trabalho, ali que a minha caminhada começou. Então eu tenho ele guardado em um lugar muito especial aqui no meu coração.

 


  • Google Discover Icon
postado em 07/07/2026 07:00
x