Crítica

Longe de casa, há mais de uma década: dureza para Odisseu na telona

O retrato de fabuloso mundo de 'A Odisseia' no grandioso cinema de Christopher Nolan entorpece ao tratar da Lei de Zeus e da lacunar jornada de Odisseu, o famoso rei grego de Ítaca

Matt Damon, Odisseu, na trama, ao lado de Zendaya -  (crédito: Universal Pictures/Divulgação)
Matt Damon, Odisseu, na trama, ao lado de Zendaya - (crédito: Universal Pictures/Divulgação)

Crítica // A Odisseia ★★★★

As proporções de A Odisseia são épicas, até pelo enunciado expresso. O anúncio vem de um dos personagens: "Não busquem deuses em homens". Sendo assim, o curso do filme se encarrega de completar: não busque literatura crua numa obra de cinema. Quando o diretor Christopher Nolan incorre nisso, seu roteiro beira o risível (no detestável final, absolutamente explicativo e desnecessário). Feita a ressalva, a narrativa de sacrifícios, de honra a mortos e do retrato de uma civilização à beira "do colapso" vem com intensidade na tela do cinema.

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Muito da riqueza a ser desvendada na jornada de Odisseu vem da embaralhada e ousada montagem assinada por Jennifer Lame (Manchester à beira-mar), composta de fragmentos e lembranças. Junto com testes e desafios cobrados pelos ventos e mares, a tripulação que acompanha o protagonista (um exemplar e desmemoriado Matt Damon, entre a bravura e a fragilidade), o veterano da Guerra de Troia, pouco a pouco se dilui nas vastas composições visuais que fazem lembrar da excelência de David Lean (Lawrence da Arábia).

Elementos surpresas salpicam no enredo que versa sobre peso de escolhas e mesmo da responsabilização. Sorrateiros, desde a visão do encalhado cavalo embalado como presente e ruína para Troia, os guerreiros mais do que completam a dúvida de pertencimento (ou não) de Odisseu, assombrado pelas trevas inseridas na Ítaca que outrora governou. Mesmo quando impedidos de reagirem, sob limites-extremos ante a criaturas imbatíveis, os combatentes quase não esmorecem, no cenário de "anarquia e dor".

A distância, Odisseu se move numa realidade delineada para uma emboscada para o filho (quase desconhecido), Telêmaco (Tom Holland que emana a inoperância do inexperiente personagem), e que ainda desejos de paz e vingança, na saudosa esposa Penélope (Anne Hathaway, potente e nada volúvel), uma rainha virtualmente lânguida, dado o "abandono". No elenco de apoio, destaques para Himesh Patel (o insurgente Euríloco), John Leguizamo (o fiel e cego Eumeu), Mia Goth (a traiçoeira Melantho) e Lupita Nyong´o (perfeita como Helena, mas indecifrável como Clytemnestra), além de Elliot Page (o sacrificado Sinon).

Perdido entre dilemas do querer e do poder, além de saldos pesados envolvendo perdas, Odisseu confirma a esperteza, na primorosa cena com a feiticeira interpretada por Samantha Morton. Nolan, ao tratar do sagrado de indivíduos e povos, a inviolabilidade do lar, é hospitaleiro com o desejo dos cinéfilos na trama que preza a "magia aparente" e o dom da oralidade (sendo possível perdoar a atualidade do linguajar). Se peca no episódio das sereias, entrega arte pura com as cenas do ciclope Polifemo, com a fuga de todos frente aos sentinelas de uma ilha desconhecida e com os instigantes e lacunares insights do heroico Odisseu.

 

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postado em 17/07/2026 10:37 / atualizado em 17/07/2026 10:38
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