Crítica

No rumo contra o vento: Carolina Dieckmmann vive intenso drama em Brasília

Algo niilista e sem harmonia, o destino da protagonista do drama 'Pequenas criaturas', rodado em Brasília, rende bons momentos para o talento da atriz Carolina Dieckmmann

Anne Pinheiro Guimarães comandou o filme estrelado por Carolina Dieckmmann -  (crédito: Fotos: Pablo Baiao/Divulgação)
Anne Pinheiro Guimarães comandou o filme estrelado por Carolina Dieckmmann - (crédito: Fotos: Pablo Baiao/Divulgação)

Crítica // Pequenas criaturas ★★★

Com festinhas sem muito tempero, vizinhos desconectados e vastidão de espaços livres, nem tão fiéis à realidade, mas alinhados ao estado de espírito da protagonista de Pequenas criaturas: assim Brasília se encontra retratada no longa Pequenas criaturas, de Anne Pinheiro Guimarães. Coincidências à parte, a cronologia de Quando papai saiu em viagem de negócios (fita iugulsava de Emir Kusturica, premiado com o Oscar), meados dos anos de 1980, acena alguma ligação com Pequenas criaturas, e se efetiva.

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Envoltos por uma direção de arte empolgante (assinada por Claudia Andrade), os jovens Dudu (Lorenzo Mello) e André (Théo Mendon) sentem o pai sair, sem muito a ser discutido, no âmbito materno. Isolado, o núcleo familiar acusa uma incompletude, e, com expressões mais maduras, e sem estar condenada à estampa de carência de afeto, recorrente no passado, Carolina Dieckmmann explora o campo de uma burguesia desnorteada, coerente com a personagem Helena.

Pode-se perdoar algumas frases ininteligíveis dos jovens atores que, sem muito esforço, repassam suas emoções e tédio diante da grandeza de Brasília, e que impulsiona maiores reflexões, algumas acres como a da dureza de não pertencer a nenhuma patota, debaixo do bloco.

Os impasses se cristalizam para Dudu, que incorpora brincadeiras como a do permanente uso de máscara (numa falta de identidade), e para André, que transita entre a realidade de ter a bicicleta roubada e aspereza que englobou um novo amigo (outro que teve importante perda dentro de casa).

Situações que apenas ameçam se desenvolver incrementam a realização, que traz ameaças constantes como envolvimento com crime e assustador prenúncio de pedofilia. Helena, que se manteve por muito tempo alheia aos desejos, começa por tateá-los. Nisso, despontam os personagens Ângela (Letícia Sabatella, que vive a determinada vizinha) e Carlos (Caco Ciocler), um candidato a amante.

Exasperada e sem muito norte, Helena desenha, em atitudes de pouco pulso (como o episódio da cachorra atropelada), o ciclo de uma existência sem estreitos vínculos. Ponto para Dieckmmann, numa bela interpretação. Inofensivo no percurso, o drama ganha com presenças como a de Fernando Eiras (no mundo da lua) e com a bela maneira como é encerrado, numa conexão de rara comunhão para os ínfimos seres administrados pela serena visão de Anne Pinheiro Guimarães.

 

  • O congelador vira espaço lúdico 
para um dos personagens do filme
    O congelador vira espaço lúdico para um dos personagens do filme Foto: Pablo Baiao/Divulgacao
  • Letícia Sabatella é a coadjuvante 
Ângela na trama
    Letícia Sabatella é a coadjuvante Ângela na trama Foto: Pablo Baiao/Divulgacao
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postado em 24/07/2026 17:25 / atualizado em 24/07/2026 17:25
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