
Crítica // Pequenas criaturas ★★★
Com festinhas sem muito tempero, vizinhos desconectados e vastidão de espaços livres, nem tão fiéis à realidade, mas alinhados ao estado de espírito da protagonista de Pequenas criaturas: assim Brasília se encontra retratada no longa Pequenas criaturas, de Anne Pinheiro Guimarães. Coincidências à parte, a cronologia de Quando papai saiu em viagem de negócios (fita iugulsava de Emir Kusturica, premiado com o Oscar), meados dos anos de 1980, acena alguma ligação com Pequenas criaturas, e se efetiva.
Envoltos por uma direção de arte empolgante (assinada por Claudia Andrade), os jovens Dudu (Lorenzo Mello) e André (Théo Mendon) sentem o pai sair, sem muito a ser discutido, no âmbito materno. Isolado, o núcleo familiar acusa uma incompletude, e, com expressões mais maduras, e sem estar condenada à estampa de carência de afeto, recorrente no passado, Carolina Dieckmmann explora o campo de uma burguesia desnorteada, coerente com a personagem Helena.
Pode-se perdoar algumas frases ininteligíveis dos jovens atores que, sem muito esforço, repassam suas emoções e tédio diante da grandeza de Brasília, e que impulsiona maiores reflexões, algumas acres como a da dureza de não pertencer a nenhuma patota, debaixo do bloco.
Os impasses se cristalizam para Dudu, que incorpora brincadeiras como a do permanente uso de máscara (numa falta de identidade), e para André, que transita entre a realidade de ter a bicicleta roubada e aspereza que englobou um novo amigo (outro que teve importante perda dentro de casa).
Situações que apenas ameçam se desenvolver incrementam a realização, que traz ameaças constantes como envolvimento com crime e assustador prenúncio de pedofilia. Helena, que se manteve por muito tempo alheia aos desejos, começa por tateá-los. Nisso, despontam os personagens Ângela (Letícia Sabatella, que vive a determinada vizinha) e Carlos (Caco Ciocler), um candidato a amante.
Exasperada e sem muito norte, Helena desenha, em atitudes de pouco pulso (como o episódio da cachorra atropelada), o ciclo de uma existência sem estreitos vínculos. Ponto para Dieckmmann, numa bela interpretação. Inofensivo no percurso, o drama ganha com presenças como a de Fernando Eiras (no mundo da lua) e com a bela maneira como é encerrado, numa conexão de rara comunhão para os ínfimos seres administrados pela serena visão de Anne Pinheiro Guimarães.
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