Tom Zé acata a definição da crítica francesa de que é um "animal do palco". "Biológica e artisticamente, as duas qualificações são verdadeiras", brinca o compositor. Aos 89 anos, ele encabeça a lista de atrações do DF Instrumental FEST, que ocupa o Sesc de Taguatinga Sul neste sábado, a partir das 16h16. A entrada é gratuita, mediante retirada de ingressos no Sympla.
Edgard Scandurra Trio, Metá Metá, Calango Careta, Choro no Eixo com Márcio Marinho, Alberto Salgado e Victor Angeleas, Maísa Arantes e Roberto Corrêa completam a programação do evento que, em quatro anos de existência, acumula participações de grandes nomes da música brasileira.
Mestre arqueiro como Apolo, figura mitológica associada à música, Tom Zé faz questão de deixar as fronteiras do estúdio sempre que possível para atingir as pessoas de maneira direta. "É no palco que publico músicas e letras que preparo dia e noite. São minhas duas flechas", diz ao Correio, no intervalo da gravação de projeto que sai em setembro.
Para o show em Brasília, Tom Zé antecipa parte do repertório. "Tem Jimi, renda-se, que está em Ainda estou aqui, escolhida como música do trailer internacional de divulgação do filme, e 2001, parceria com minha amada Rita Lee", diz. "Como me oriento pela sensibilidade do público, talvez encerremos com Não tenha ódio no verão, que compus há anos, bem antes de se falar nessa emoção escura de frequentar o noticiário político ou policial."
O ambiente que permite trocas e promove a ideia da música como arte, não como negócio, é o que motiva a participação de Edgard Scandurra em festivais. O guitarrista e fundador do Ira! se apresenta em Brasília há quarenta anos. Por ocasião do Instrumental Fest, ele vem acompanhado de Daniel Scandurra, no baixo, e Rodrigo Saldanha, na bateria.
"O trio tem que preencher não só o espaço físico, que às vezes cabe uma banda gigante, mas também os espaços sonoros. É uma diversão e uma responsabilidade ao mesmo tempo", diz Scandurra. "Acabo sendo o guitarrista base, o guitarrista solo e também o cantor." Faixas de discos solos e do Ira! se misturam na apresentação. Para ele, os músicos brasileiros reúnem virtuosismo e riqueza rítmica no cenário instrumental. "Isso amplia as possibilidades das pessoas ouvirem as sensações."
Amálgama de estímulos sensoriais é o que define a sonoridade do Metá Metá, composto por Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França. "A mistura de gêneros está no DNA da música brasileira desde sempre. Temos muitos exemplos de junções especiais e inesquecíveis, que vão do samba canção ao mangue beat", diz Juçara Marçal, cuja aposta está na junção de jazz, rock e tradições afro-brasileiras.
Segundo a cantora, é uma "alegria estar junto de artistas tão importantes da música brasileira. Tom Zé, um compositor, cantor e showman único. Scandurra com sua guitarra especialíssima. Ambos com trajetórias longevas e consistentes."
"Dividir um festival com Tom Zé e com Metá Metá, além dos grupos de Brasília que vão se apresentar, é muito interessante. O astral, o backstage, os camarins, as trocas, os contatos, é tudo muito bom", comenta Scandurra, que considera Tom Zé representante da rebeldia que a arte e a música precisam. "Ele nunca trabalha com o óbvio. Todas as gerações que ele frequentou ficaram com essa marca de transgressão e surpresa."
Música brasiliense na festa
Um dos objetivos do Instrumental FEST é criar espaço para a música instrumental a partir da formação de plateia. Para tanto, foram convidados também músicos da cidade, como o compositor Roberto Corrêa. "O Distrito Federal tem uma cena instrumental vibrante e acredito que festivais como este aproximam o público desta cena", diz o violeiro. O encontro de estilos é uma marca apreciada por Corrêa nesse tipo de evento.
Alberto Salgado preparou coletânea de canções de três álbuns em apresentação inédita. "O grande lance especial será apresentar essas músicas em formato instrumental ao lado do meu grande parceiro, amigo e super músico Victor Angeleas no bandolim", diz o instrumentista ganhador do melhor álbum do Brasil, na categoria regional pelo 28º Prêmio da Música Brasileira, em 2017.
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Realizado desde 2023, o Instrumental FEST recebeu nomes como Hermeto Pascoal, Bianca Gismonti, a banda Black Rio e Hamilton de Holanda. Para R. C. Ballerini, idealizador do festival, "a música instrumental encontra muito menos espaço comercial que a música cantada, de forma que torna-se imprescindível reforçar sua difusão".
O DF Instrumental FEST 2026 é financiado com recursos da Lei de Incentivo à Cultura do Distrito Federal (LIC-DF), tem realização da Ilimitada Criação e Box Cultural, com apoio do Sesc e patrocínio da Neoenergia Brasília e Instituto Neoenergia. O projeto tem parceria do Correio Braziliense, Ilha Design e La Pauta Comunicação. "Espero que o festival de Brasília seja muito bem-sucedido, é um propósito que foge ao lugar comum. Cumprimento Brasília por isso", deseja Tom Zé.
*Estagiário sob supervisão
de Nahima Maciel
