MÚSICA

Plebe Rude celebra quatro décadas de 'O concreto já rachou'

Quarenta anos após o lançamento de O concreto já rachou, a Plebe Rude revisita o disco que transformou a inquietação de uma geração em um dos principais capítulos do rock brasileiro

Se, no Brasil, julho é considerado o mês do rock, a Plebe Rude deu, em 1981, motivo para tal. Formada naquele ano, a banda brasiliense rapidamente passou a chamar atenção pela capacidade de transformar inquietação em música. Com o álbum de estreia O concreto já rachou, lançado em 1985, o grupo conquistou o público com um trabalho repleto de críticas sociais e políticas, em um período ainda sensível do pós-ditadura. Mostrando que há discos que atravessam o tempo sem perder a força, o grupo celebra quatro décadas do projeto com o relançamento das sete faixas.

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Para o baixista André "X" Mueller, é incrível que a Plebe esteja comemorando um marco tão grande, como o de 45 anos em atividade. "Nós não somos de fazer propagandas, nem temos grandes hits, mas acabamos de fazer um show para 50 mil pessoas", conta o fundador do grupo. "É incrível o quanto o Brasil mudou e, mesmo assim, nós conseguimos ficar. E não só a gente, como todas as bandas de rock daquela época que não faziam parte do mainstream", destaca o músico.

Naquela época, não só o Brasil era diferente — o vocalista Philippe Seabra, por exemplo, tinha 18 anos de idade. "Eu completei 19 durante a gravação", lembra o também fundador do grupo. "Eu não sei exatamente o que se passava na nossa cabeça, mas tudo aquilo parecia uma coisa meio natural. A gente começou nos primórdios de Brasília, tocando e nos aprimorando. Aí, o repertório foi aumentando, e o público também. De repente, estávamos tocando em São Paulo, depois no Rio…", narra o cantor.

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Entre a fundação do grupo e a gravação do primeiro disco, houve um intervalo de cinco anos "fundamentais", segundo André. "Conseguimos estabelecer nossa linguagem, o que queríamos ser, o nosso jeito de tocar e o nosso motivo de ser. Começamos tocando em Brasília durante uma época muito difícil para o Brasil, no finalzinho da ditadura e início da abertura democrática", ressalta o baixista.

"E a gente sabia muito bem o contexto em que estávamos", continua o instrumentista. "A gente sabia que nos diferenciávamos de outros tipos de música feitas para jovens. A gente sabia que estava registrando uma época", afirma André. "Éramos fruto daquele tempo. Nascemos e crescemos com a ditadura e isso reflete tanto nas nossas composições, quanto na nossa postura", declara o artista.

A Plebe de Brasília

Não à toa intitulada Capital do Rock, Brasília foi essencial na história da Plebe. "Eu falava para o nosso querido amigo Renato Manfredini (Renato Russo) que se não fosse por essa cidade, tudo teria sido muito diferente. Se você tem um ímpeto artístico, ele vai se manifestar de um jeito ou de outro, eventualmente. Mas por ter sido aqui, naquele espaço-tempo, saiu daquele jeito, com essa verve e essa lucidez", opina Seabra.

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O disco, para ele, acabou captando o sentimento da juventude brasiliense. "Essas músicas não vêm de um vácuo. Em Brasília, nós tínhamos acesso aos malotes diplomáticos. Então a gente estava antenado com o que acontecia lá fora", afirma o vocalista. "A gente se inspirava no punk, que era, basicamente, um movimento contra a Margaret Thatcher, o conservadorismo e o achatamento da classe média lá na Inglaterra. A diferença é que nós tínhamos uma fonte local de inspiração que ninguém mais tinha no Brasil", avalia o artista.

Do Planalto Central, a Plebe via o país de um ângulo diferente, defende Seabra. "Ou a gente ficava alheio a isso ou éramos influenciados por isso. Não tínhamos escolha", explica o músico. "Era nossa válvula de escape", complementa. "Tinham shows em Brasília que a gente fazia até meio tenso, esperando a polícia chegar. Eu lembro que eu montava minha pedaleira de uma maneira que eu conseguisse sair correndo com ela", relata o instrumentista.

Quando começou a tocar na cidade, o grupo precisava enviar as músicas que seriam apresentadas para liberação da censura. "Olhando para trás, é até meio bobo achar que um censor, no final da tarde do domingo, iria acompanhar um show nosso e, se a gente errasse uma vírgula, iríamos presos. Mas a repressão é isso, né? Funciona psicologicamente", define Seabra.

Integrante da banda desde 2011, o baterista Marcelo Capucci lembra de estar entre o público em algumas das apresentações da Plebe daquela época. "Quando o Concreto chegou, e também o Legião 1, no ano anterior, foi motivo de extrema alegria, de muito orgulho. Nós vimos essas bandas crescendo", comemora o instrumentista.

A cena atual

Em atividade há quase meio século, a Plebe chegou a se separar em 1994, quando Seabra se mudou para Nova Iorque, nos Estados Unidos. O fim definitivo, no entanto, transformou-se em um hiato de apenas seis anos. "Quando eu voltei, fiquei um pouco estarrecido com a geração da década de 1990, porque a temática realmente mudou muito", recorda o vocalista. "Primeiro achei que era positivo, de repente, que as coisas tinham mudado no Brasil. Muito pelo contrário, né? Temática era o que não faltava", diz o cantor.

Hoje em dia, o sentimento é o mesmo: "Eu ainda sinto muita falta de letras mais profundas no mainstream". "A gente até regravou, em 2020, P da vida, do Dominó, para mostrar que, se a banda mais armação da história, criada pelo Gugu, conseguiu fazer uma música com uma temática forte, por que essa geração inteira não consegue?", indaga Seabra.

O vocalista, porém, reconhece que, hoje em dia, a indústria musical não funciona da mesma forma. "Todo artista compete com algo que a gente não tinha na época, que era o sofá. Eu digo isso no sentido de que, do sofá da pessoa, ela pode jogar videogame, assistir a filmes 3D ou ver vídeos de qualquer show de qualquer artista do planeta. Então o que tira essa pessoa de casa? O rock já não está com essa força toda", lamenta o músico.

"E não dá para forçar", continua. "Se um artista pop aparece com uma letra mais forte, o público dele, que gosta do pop sem-vergonha, não vai entender. E quem leva música a sério, não vai aceitar. Tem que vir de dentro", afirma Seabra. "Se até hoje falam do Concreto e do rock dos anos 1980, é porque veio de um lugar muito puro, que ressoa com as pessoas. E isso não tem como fabricar", assegura.

 


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