Crítica

Unidos pelas taças: presente de filho para pai está em longa holandês

'Champagne', estreia da semana, é um filme com raízes dramáticas, mas tratamento agridoce, que injeta visibilidade ao cinema holandês

Champagne, uma viagem de pai e filho: consumo desmedido para nutrir uma relação transparente de amor incondicional -  (crédito: Autoral Filmes/ Divulgação)
Champagne, uma viagem de pai e filho: consumo desmedido para nutrir uma relação transparente de amor incondicional - (crédito: Autoral Filmes/ Divulgação)

Crítica // Champagne — Uma viagem de pai e filho ★★★

Num misto pouco convencional, no filme há raízes do longa Sideways — Ente umas e outras, sobre uma dupla de ébrios pelos vinhedos norte-americanos, e de Nebraska (uma jornada agridoce criada a partir do particular delírio de um personagem pouco paternal). Com paisagens diferenciadas, que passam pela Bélgica e pelos Países Baixos até a chegada aos arredores das caves francesas de Épernay, um ajuste entre o filho Maarten (Leo Alkemade, também corroteirista do longa) e Hans (Huub Stape, na pele de um adoecido, mas vibrante idoso) promete ser efetivo.

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"Café da manhã na cama é um retrato da vida. Você tenta fazer tudo direito, mas no fim vira uma bagunça", define o personagem Hans, neste filme holandês assinado por Tim Kamps. O culto pelo champagne se confirma em muitas das paradas da viagem com rota desenhada para "subir o nível (de exigências de consumo) de pai e filho. Os breves ruídos de comunicação entre ambos vão se dissolvendo. A ideia da viagem vem de origem direta: com naturalidade absurda, e sem dramas, ao falar da compra de duas caixas de champagne (ainda ao lado da esposa, a "pequena Sophie", papel de Beppie Melissen), Hans avisa o filho que está em fase terminal de câncer. A empresa em que Maarten trabalha não vê como "boa hora" o período de licença reclamado pelo empregado sob pretexto de cuidar do pai.

Junto com episódios na estrada de entusiasmo e animação, pai e filho abraçam a reconstrução de uma dose de intimidade perdida. A quantidade de remédios demandada pelo pai chega a assustar Maarten, que não dá tanta pelota para os comentários irônicos do pai. Tido como sábio, o pai até discute temas amenos como a composição do vinho, mas guarda ações e falas cortantes, desde o discreto abaixar do volume do áudio do aparelho de surdez até observações bem objetivas, como quando dispara: "Não existe mais sossego, hoje em dia" (ao tratar da velocidade impressa pelo dia a dia digital). Com discrição, ele é capaz de conversar com Jesus e buscar uma interação primária com o "pacotinho de alegrias", como ele se dirige ao filho.

Numa conjuntura em que, no ano passado, houve a exibição do documentário sueco A última viagem (baseado na experiência do jornalista Filip Hammar), no qual um pai doente segue, num Renault 4 laranja, com o filho para uma jornada por Nice e áreas da Riviera Francesa, para confirmar que "vale a pena viver a vida, fica difícil ter maior entusiasmo por Champagne. No comparativo com filmes recentes sobre paternidade do quilate de A viagem de meu pai, de Philippe Le Guay, com o astro Jean Rochefort, e ainda com Meu pai (com Anthony Hopkins), sob direção de Florian Zeller, Champagne traz uma serena comicidade, nas paradas em bares e restaurantes da dupla central, além de apostar em situações autênticas (como a da cena da expulsão de visitantes de Hans). Com roteiro também assinado  por Rik van den Bos, o filme agrupa momentos bizarros como o da intervenção nonsense do tio Theo (prolixo, ao relatar a finitude de amigos) e conceitos estapafúrdios como o do chamado "vinagre vaginal" adquirido por Hans para a esposa. Numa cena tocante, pesa o close do natural abraço entre pai e filho.

 

 

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postado em 07/08/2026 06:44
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