
Em um futuro distópico, a cidade do Rio de Janeiro está destruída após uma catástrofe ambiental. O que antes era conhecido como a "Cidade Maravilhosa" agora é centro de uma competição violenta, baseada na lógica dos jogos de azar e comandada por um grupo de milionários. Em Corrida dos bichos, cada competidor deve percorrer diferentes áreas da cidade em busca de um prêmio que pode mudar vidas, especialmente em meio à realidade de desigualdade social em que a capital se encontra. Os participantes, porém, precisam oferecer uma pessoa próxima como garantia do próprio desempenho, transformando a competição por dinheiro em uma questão de sobrevivência.
À primeira vista, o novo longa do Prime Video pode remeter a outras produções internacionais de sucesso, como Jogos vorazes ou Round 6. Porém, a ideia por trás da produção brasileira, idealizada por Ernesto Solis, surgiu há duas décadas. "Ele demorou 14 anos para ter o projeto aprovado", revela Rodrigo Santoro, que interpreta Abu na trama. "Algumas comparações têm sido feitas com outros filmes que também tratam dessa coisa do game, mas Corrida dos bichos é muito anterior a tudo isso", garante o protagonista.
Para Santoro, porém, a distopia funciona apenas como ponto de partida. "Não é uma realidade tão distante, nas devidas proporções, ao que a gente está vivendo nos dias de hoje". É nesse cenário em que Mano, personagem de Matheus Abreu, vê o pai afundado em dívidas por conta da corrida e se torna líder de um grupo rebelde que tem como objetivo sabotar o jogo. O jovem, no entanto, acaba entrando na disputa para salvar a vida da irmã, que foi colocada como garantia pelo namorado em uma aposta. Em determinada cena, a influenciadora Divina, interpretada por Anitta, resume a dinâmica: "É ilegal, é cruel, mas é assim que o povo gosta".
"Uma das coisas que mais me chamou atenção no roteiro foi justamente a ideia de, por meio de uma alegoria, utilizar elementos da cultura brasileira para fazer também uma crítica social a temas que são completamente contemporâneos, como a desigualdade social. Eu acho que esse assunto é uma espécie de pilar da história. A própria crise climática também, que a gente já vive há alguns anos e que seria um ponto de partida do porquê o Rio teria ficado dessa forma", explica o ator.
Outro tema abordado pelo filme é a cultura do espetáculo, simbolizada pelo personagem de Santoro. "Abu representa muito essa realidade que a gente já está vivendo, em que a aparência domina a essência de qualquer coisa. E isso não tem nada de futuro, é absolutamente presente", declara o ator. Marido de três esposas na ficção, ele é um dos chefes do jogo e se torna uma espécie de celebridade por ter criado o universo da corrida dos bichos. "Ele é esse cara que adora ser idolatrado e adorado. É alguém que só se reconhece pelo olhar do outro", descreve o protagonista.
Encontro aguardado
Em Corrida dos bichos, Rodrigo Santoro faz parte de um elenco estelar composto por nomes como Grazi Massafera, Isis Valverde, Seu Jorge e Bruno Gagliasso, todos comandados pelo olhar de Fernando Meirelles, diretor de Cidade de Deus, Dois Papas e Ensaio sobre a cegueira. O filme marca o primeiro trabalho conjunto dos dois brasileiros que conquistaram Hollywood. "A gente teve um encontro há muitos anos, bem no início da minha carreira, quando a Rede Globo comprou os direitos de Mar Morto, de Jorge Amado, para fazer uma minissérie", lembra o ator.
No projeto, Santoro faria o papel de Guma, enquanto Meirelles seria o diretor. "Era o meu segundo trabalho na televisão, eu era superjovem, mas, por alguma razão, acharam que eu deveria ser o protagonista", continua. "Comecei a treinar, fazer capoeira e fiquei dois meses me preparando. Aí, a Globo decidiu que o orçamento estava muito alto e transformou a minissérie em uma novela, que foi Porto dos milagres", narra o ator.
Meirelles, portanto, saiu do projeto e Santoro, desde então, se perguntava quando teria outra oportunidade de trabalhar com o cineasta. "E olha que estamos falando de 1993", ressalta o carioca. "Fiquei admirando a carreira do Fernando ao longo dos anos e a gente sempre falava: "Um dia tem que dar certo". E, finalmente, saiu esse encontro, que foi na Corrida dos bichos", celebra o ator.
A experiência, segundo ele, foi "maravilhosa". "Apesar do talento, reconhecimento e toda a experiência que o Fernando tem, ele é extremamente curioso, presente, generoso e muito aberto", elogia Santoro. "Pelo menos metade do Abu que aparece no filme é improviso. Ele é um personagem complexo e rico, que tem uma personalidade que me permitia exercitar a improvisação. E ele (Meirelles) me incentivava muito. Eu falava: "Será que vai ficar legal?", e ele respondia: "Se não ficar, a gente não usa". No final das contas, tudo entrou no filme", diz o ator.
"Eu fui muito feliz trabalhando com ele, em todos os dias e em cada pequena construção. Acho que ele não só criou uma atmosfera de trabalho propícia à criação, como é alguém que está investido no que está acontecendo no momento. Ele vê uma coisa que gosta e fala: "Vamos aproximar aqui, vamos fazer isso". É um processo de feitura artesanal nesse sentido que incentiva muito o ator", detalha.
A expectativa de Santoro é que Corrida dos bichos tenha sido apenas a primeira de muitas parcerias com Meirelles. "Eu não quero esperar mais 20 anos. Eu quero trabalhar com ele de novo, em breve", finaliza o carioca.

Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte