Crítica

Tratado feito cão: Bill Skarsgard encabeça personagem liquidado pelo sistema

Baseado num episódio real de 1977, o novo filme de Gus Van Sant, 'Refém por um fio', examina os desdobramentos do sequestro de um magnata que fica na mira de enfurecido algoz

Bill Skarsgard vive o atormentado Tony, que encurrala a milionária família Hall, representada por Richard (Dacre Montgomery), uma inesperada vítima  -  (crédito: Pandora/ Divulgação)
Bill Skarsgard vive o atormentado Tony, que encurrala a milionária família Hall, representada por Richard (Dacre Montgomery), uma inesperada vítima - (crédito: Pandora/ Divulgação)

Crítica // Refém por um fio ★★★★

Há 30 anos, o diretor Gus Van Sant retratou uma repórter que perde a medida da realidade, em Um sonho sem limites, quando está obstinada por um reconhecimento na carreira televisiva. Dentro de uma existência similar, Tony Kiritsis (Bill Skarsgard, visto em It: a coisa e Nosferatu), do novo filme de Sant, Refém por um fio, tem visão aguda e objetiva: quer um pedido público de desculpas e retorno de investimentos, ao pretender aplainar a incontida raiva de se ver injustiçado pela empresa Meridian Mortgage Company do ramo hipotecário comandada, respectivamente, por Richard Hall e o pai dele, M.L. Hall, na tela, personagens de Dacre Montgomery (de Stranger things e Elvis) e Al Pacino.

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Simpático, na causa defendida (de excessiva exploração na dívida contraída, junto a uma empresa gigante), além de austero, Tony se enredou por quatro anos num joguinho da família Hall, e, para usar a expressão de Rede de intrigas (popular no ano de 1977, em que o filme de Van Sant é ambientado), "está ensandecido como o diabo, e não tolerará". De posse de uma espingarda e de um fio, no melhor estilo à la John Wayne, de quem é admirador, montará um circo em Indianápolis, estendido para a imprensa de relevância nacional nos Estados Unidos. O curioso neste dramático suspense policial está em tudo vir amparado pela realidade.

O caso verídico rende um intenso desafio para o roteirista Austin Kolodney, e ele é capaz de entender os fundamentos e maquinações do protagonista, sem julgamentos prévios. Um assentamento lento de traumas está a meio-caminho, e o espectador tende a reavaliar o ponto de vista do sequestrador, como um homem raivoso frente às contrariedades de um sistema radicalmente injusto e instituído. Tony fala do "fedor" comuns aos homens, independentemente de suas classes, algo que o nivelaria a Richard Hall, e se mostra um anfitrião algo compassivo, quando oferece até mesmo leite com gelo para o "oponente".

Relutantes em escolher um lado da história, que traz a idiossincrasia do tratamento reservado ao pai do refém, um Al Pacino inflexível na arrogância e orgulhoso da frieza do filho ante ao risco de morte, os coadjuvantes completam o quadro de acertos do filme de Van Sant. "Amigo" ocasional de mesas de bar ao lado de Tony, Michael Grable traz limitada empatia na interpretação de Cary Elwis. Myha'la dá vida à sedenta repórter Linda Page, vidrada na possibilidade de cobrir uma "notícia de verdade", como seria o crime em curso. Baseado no radialista Fred Heckman, Fred Temple (papel de Colman Domingo) convence como o real ser humano ligado na responsabilidade de ver o aperto (ou não) de gatilho por parte de Tony.

Impassíveis, na maioria, os coadjuvantes se destacam em relação ao público envolvido pelo televisionamento do chocante caso. Despojado de grandes efeitos, o filme de Van Sant traz uma cadência sensata, à medida em que o exaltado protagonista perde estribeiras, exigindo a presença de câmeras de tevê e uma coletiva de imprensa. Para coroar a boa narrativa, há uso de músicas potentes de Donna Summer e de Roberta Flack, isso além de Cannock chase e a música do brasileiro Eumir Deodato (Also Sprach Zarathustra).

 

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postado em 21/08/2026 06:44
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