Festival de Cinema

Representantes do audiovisual reforçam a importância do Fesitval de Brasília

Passada turbulência, Festival de Brasília do Cinema Brasileiro chega à 59ª edição com vigor e avaliação irretocável no coração dos produtores e realizadores

Troféu Candango -  (crédito:  Edílson Rodrigues/CB/D.A Press)
Troféu Candango - (crédito: Edílson Rodrigues/CB/D.A Press)

A incerteza sobre a realização da 59ª edição Festival de Brasília do Cinema Brasileiro despertou nos artistas do audiovisual a consciência de que é preciso fortalecer o evento. Na definição do premiado cineasta André Luiz Oliveira, do clássico Meteorango Kid (1969), o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro seria como "uma entidade de estabelecido ponto ético e cultural na sociedade brasileira". Às vésperas de ser realizada, a 59ª edição do festival foi brindada com reconhecimento em recente nota publicada pelo Ministério da Cultura que contemplou a relevância histórica e cultural do festival abrigado no Cine Brasília. "A trajetória (do evento) se confunde com a própria história do cinema brasileiro e faz do Festival um espaço fundamental de liberdade de criação, formação de público, revelação de talentos e reconhecimento da produção audiovisual brasileira", pontuou o documento.

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Há pouco tempo envolvida no lançamento de seu primeiro longa (Mil luas), a cineasta Carina Bini destaca a importância cultural e econômica do festival, que, em 2026, trará entre os dias 11 e 19 de setembro mais de 70 filmes projetados na cidade. "O festival não pode ser visto apenas como um evento: é ímpar na grandiosidade para o setor cultural industrial que é o audiovisual. Algo que movimenta todo um mercado de trabalho, uma cadeia produtiva, traz pessoas para a cidade, gera empregos e recursos para o GDF. Além disso é um símbolo do cinema brasileiro, e extrapola a condição propiciar mero entretenimento", defende.

Democrática, a formatação do festival congrega vertentes geracionais amplas, como observa João Batista de Andrade, diretor de filmes exibidos no evento, ao longo de décadas, como O homem que virou suco (1980), O cego que gritava luz (1997) e O tronco (1999). "O festival é uma tradição, uma espécie de marco do cinema brasileiro. Certamente, cineastas tendem a reservar o filme (inédito) para tentar passar no festival, uma vez que sinaliza prestígio para a carreira. E, ao mesmo tempo, o Festival de Brasília é um marco de potência do cinema brasileiro — mesmo com todas as dificuldades —, e ele serve de exposição do que há de melhor na produção cinematográfica do Brasil", avalia, em entrevista ao Correio.

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Missões estão diretamente atreladas ao festival, sob a ótica do diretor artístico do evento, o curador e crítico Eduardo Valente. "Por estar no centro político do país, o festival embute a capacidade do cinema de repercutir, para além dos elementos cinematográficos, questões que podem ser sociais, culturais, políticas e econômicas", aponta. Na composição dos selecionados, Valente vê filmes como "faróis" — "a gente (de cada comissão de seleção) vai em busca de que todos os tipos de programação — com títulos diversificados e que estimulem continuidade de discussão, passada cada uma das sessões. A marca que o Festival impõe é a de, tradicionalmente, apresentar questões que extrapolam o lado cinematográfico".

Central do cinema

Colocado em xeque, o festival se viu na corda bamba, neste ano, por momentâneo desamparo financeiro do GDF. Uma das responsáveis da gestão do Cine Brasília, que abriga o evento e foi prestigiado por 160 mil pessoas no ano passado, Sara Rocha, da Organização da Sociedade Civil Box Cultural, avalia: "Nesta ameaça de descontinuidade, a mobilização da sociedade trouxe força e ainda potência para a nova edição". Em universo de mais de 1600 inscrições de filmes para o festival, um bloco de 70 produções comporá o evento do qual Sara Rocha é diretora-geral. " Teremos, no festival, a 6ª Conferência Nacional do Audiovisual, iniciativa em que a gente fortalece o ponto do diálogo da construção do audiovisual brasileiro, com espaço de construção de políticas públicas e interação com entidades de mercado", comenta a diretora. Em 2026, o tema será Audiovisual brasileiro: uma agenda para o próximo ciclo.

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Pesquisador da história do Festival de Brasília, há anos, o produtor Marcos Ligocki, de filmes como Rock Brasília — Era de ouro, ressalta que o evento traz representatividade da cinematografia de todo o país. "O festival vem sempre acompanhado de uma crítica extremamente qualificada, pelo prestígio que tem, o evento costuma receber, ao longo da história, os principais e mais sofisticados filmes", pontua.

Ligocki conta que interagiu intensamente nos bastidores do festival, até mesmo pela coordenação na criação, há anos, do curso de cinema no Iesb. "A gente estabeleceu uma parceria e realizávamos muitos eventos de mercado, seminários — o festival traz uma plataforma de suporte para formação de muitos alunos e de público", ele mesmo herdeiro da festa do cinema. "Foi o meu primeiro contato com o cinema independente. O festival abarcou um dos grandes estímulos que tive para iniciar minha carreira como produtor e diretor. Como Brasília é central, traz papel fundamental, politicamente falando. Aqui há todas as articulações importantes, desde a criação da Ancine, da reconstrução do mercado brasileiro, passada a era Collor, que acabou com a Embrafilme. Nisso, houve ação direta com o Festival de Brasília que criou bases fundamentais para o mercado se fortalecer", demarca.

Patrimônio imaterial do DF e bem cultural da maior importância para o país, o Festival chacoalha reflexões de amplo escopo, especialmente em 2026. "Às vésperas das eleições, faz sentido o Brasil celebrar o seu festival mais politizado onde se discutem as grandes pautas da nação através do audiovisual. A realização do festival evita um novo trauma justo quando nossa filmografia mais se destaca no contexto internacional", conclui o diretor Joel Pizzini, de premiados filmes do Festival, entre os quais 500 almas, sobre condições indígenas no país.

 


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postado em 23/08/2026 06:00
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