Crítica

Futuro cheio de medo: Ridley Scott traz Jacob Elordi para incerta jornada

O mestre Ridley Scott, aos 88 anos, apresenta 'Ponto sem retorno', um filme distópico com semi-zumbis e a presença de Jacob Elordi e Margaret Qualley

Ponto sem retorno: novo filme de 
Ridley Scott é dramático
 -  (crédito: 20th Century Fox/ Divulgação)
Ponto sem retorno: novo filme de Ridley Scott é dramático - (crédito: 20th Century Fox/ Divulgação)

Crítica // Ponto sem retorno ★★★

É de uma adaptação da obra de Peter Heller, na literatura, entregue a enredo de crise apocalíptica, uma década antes da covid-19, que o cineasta Ridley Scott embarca em ação cinematográfica na qual armas são tão preciosas quanto a rara comida. "Você está tão morto quanto os outros" é uma das afirmações ouvidas pelo protagonista Hig (Jacob Elordi), o companheiro do ex-fuzileiro naval Bangley (Josh Brolin), no roteiro do filme, assinado de Mark L. Smith (de O regresso) e Christopher Wilkinson (de Nixon).

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Serão poucas as centelhas de esperança de Hig, entregue a uma rotina niilista, em que preza o aeroplano e a companhia do cão Jasper. Sempre numa pegada melancólica, o cotidiano de Hig é interrompido pela ameaça daquilo que sobrou da civilização: o grupo de chamados ceifadores que promovem saques e perpetuam violência e desolação. O longa de Ridley Scott traz algo de tempero de Danny Boyle (Extermínio) e de John Krasinski (Um lugar silencioso), entre outros diretores.

Autor de filmes complexos como Todo o dinheiro do mundo, Gladiador, Napoleão, Alien e Blade runner, Scott inova no novo filme em que o chamado sonho americano dá as caras, mas no qual personagens têm poucos com quem compartilhar. Sem entregar spoiler, vale dizer que, sem traquejo social, uma tosca personagem de Alisson Janney puxará um momento muito deslocado do filme, com pontuação à la David Cronenberg, dentro de uma esfera, com alternância, entre futurismo e lado retrô. No recado embutido no filme, há críticas aos imperialistas que recolhem corpos (no campo de batalha, e que são queimados), a rodo, e apostam em bizarra convivência com uma conservadora fé (de gosto altamente discutível).

O tom de terror fica nas cenas das cabeças no frigorífico e da hélice de avião, afiada para degolar. A representação da natureza, por outro lado, vai propiciar cenas como a do encantamento com as estrelas e na exuberância de alguns planos do filme. Um clima de cooperação e resquícios de civilização virão no convívio do personagem de Elordi com Benedict Wong, Guy Pearce e, especialmente, Margaret Qualley, na pele de Cima, uma viúva ex-estudante de medicina.

Um passado bastante chocante para Hig é, aos poucos, descortinado. Tratando de solidão, Ridley mostra um equilíbrio invejável, aos 88 anos, entre ação, violência e a rotina de corações bastante machucados. Num retrospecto, a jornada de Hig rumo à pretendida localidade de Grand Junction (vista como uma El Dorado), e na qual personagens têm saudades do trânsito cheio de outrora e da música (na catástrofe vivida) inacessível, traz a impressionante cena da passagem dos touros e do ataque de zumbis.

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postado em 28/08/2026 07:11
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