Cinema

Rafael Lobo recoloca Brasília no mapa com cinco prêmios em Pernambuco

Mapas, filme do diretor brasiliense que usa o terror para refletir sobre o horror político, ganha cinco prêmios no Cine Pernambuco — Festival Audiovisual

O multipremiado longa Mapas explora veios de horror -  (crédito:  Machado Filmes/Divulgação)
O multipremiado longa Mapas explora veios de horror - (crédito: Machado Filmes/Divulgação)

Na cinematográfica terra que deu base para os filmes do pernambucano Kleber Mendonça Filho (à frente do indicado a quatro prêmios Oscar, O agente secreto), coube ao cineasta brasiliense Rafael Lobo, diretor do longa Mapas, consolidar a carreira, logo no filme de estreia, vencedor de cinco prêmios, no recentemente encerrado Cine PE — Festival Audiovisual. Numa lapada só, a produção conquistou o prêmio especial do público, além de melhor edição de som (Olivia Hernandez), melhor montagem (Rafael Lobo e Tainá Menezes), melhor fotografia (Emília Silberstein) e melhor ator (Caíque Copque).

O cineasta brasiliense Rafael Lobo, aos 41 anos, que por 35 anos viveu na capital (e hoje mora em São Paulo), celebra as conquistas, como morador que tanto circulou pela cidade, vivendo no Plano Piloto, no Park Way, no Guará e, por que, não? na UnB, reduto que explorou, sufocado por livros e estudos. Um "aspecto universitário" paira em Mapas, que tem ponte com o meio acadêmico. "Eu me graduei, depois de apenas iniciar o curso de história, na verdade, em comunicação, e fiz o meu mestrado também na área", conta ao Correio.

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Foi por meio de R$ 1.750.000, levantado a partir do Fundo de Apoio à Cultura (FAC-DF), em edital de 2018 pago em 2022, que Rafael Lobo pode investir na paixão pelo registro no gênero do horror. "O longa não é daqueles que alguém falaria: 'Ah, acho que esse é um filme de terror'. Mas eu trago o terror para refletir o próprio horror e para refletir Brasília dentro do filme, num dado metalinguístico. Por mais que eu faça esse movimento de tratar o horror, Mapas é um filme que mais fala sobre o horror do que talvez se revele um filme reconhecido pelo senso comum como um filme de gênero. Trago uma série de convenções, conceitos, assombração, fantasmagoria e horror corpóreo", avisa.

Na trama de Mapas, pesa um desaparecimento de personagem cuja busca mobiliza outros. Tudo num registro que acolhe imagens potentes como as das ruínas da UnB e ainda alcançam obras de personalidades locais como o cineasta Vladimir Carvalho. O meio da UnB traz à tona as imagens das ruínas. "Foi algo da era do governo de Ernesto Geisel: começaram uma construção arquitetada pelo Sérgio Bernardes, um expoente modernista. Era algo megalomaníaco, feito ao final da ditadura, com o Brasil caminhando para uma redemocratização. Com a pausa no repasse de verbas, restou a ruína gigante. É realmente algo impactante", pontua.

Sem data de lançamento prevista, Mapas tem como foco os festivais de cinema, com pretensões, inclusive, internacionais. "A gente acredita que essa boa estreia no Cine PE pode movimentar um circuito interessante", diz. Estudioso da carreira de David Cronenberg (de A mosca, Crash, Videodrome, Marcas da violência, Crimes do futuro e Gêmeos, mórbida semelhança), Rafael, encantado por esses filmes, arrisca a tese da ampliação do interesse pelo horror: "Acho que vem do momento social em que vivemos, com a crise do capitalismo. Vivemos um momento desde de 2018 para cá de pós-horror. O horror tem a ver com as experiências e as vivências que a gente vai tendo: a ascensão do fascismo, a extrema-direita, todos esses elementos alimentam, culturalmente, a produção do gênero".

 

Entrevista // Rafael Lobo, cineasta

Como foi quebrar a cerca de um terreno tão dominado pelos criadores pernambucanos e projetar o audiovisual do DF no 30º Cine/PE?

Realmente, para nós foi uma surpresa ter sido o filme mais premiado. A edição do evento foi histórica, marcada, infelizmente, pelo falecimento do criador do festival (Alfredo Bertini). Na disputa, rompemos muitas expectativas. O filme fala muito sobre a nossa cidade, com um olhar muito singular e distinto daquele que imprime nos filmes de Brasília. Na curadoria do evento havia o desejo de mostrar um Brasil diverso, em termos de linguagem. Levamos para a tela uma Brasília muito singular. Mapas impactou realmente e ainda pelos quesitos técnicos.

Na leitura do filme há mais traços de qual David? Cronenberg ou Lynch?

Para esse filme, seria o Lynch. Do ponto de vista estético, não vejo tanta real influência de cineasta brasileiro. Acho que ter visto o filme Pageú, do Pedro Diógenes, foi importante, na hora em que concebemos o roteiro de Mapas. Pensando no entrelaçamento de história social do Brasil com o fantástico. Já o David Cronenberg foi objeto do meu mestrado; nisso, aprofundei a pesquisa do gênero de horror. Cronenberg tem obra coesa sobre o corpo humano e o horror com traçado filosófico. Quanto ao estilo narrativo, David Lynch me afeta, pelo registro do onírico e do estranhamento.

Qual é a Brasília presente no filme?

No Mapas, embalado pelo intuito de entender a história da cidade, numa alegoria originária, os personagens começam no centro e vão saindo para fora da cidade. Eles vão tentando entender, por intermédio de uma pessoa desaparecida, e que tem uma relação com o construtor da cidade, situações de desaparecimento associado à própria construção da cidade. O filme tem um pouco o aspecto de road movie, com várias locações. Temos as ruínas da UnB, um lugar que poucas pessoas conhecem, às margens do Lago. Falamos da Vila Amaury, uma área submersa do Lago Paranoá. Com personagens associados à UnB, a universidade desponta. Não quisemos trazer superquadras ou a Esplanada dos Ministérios, cenários muito vistos e vendidos da cidade. Filmamos o Noroeste, mas de jeito muito específico. Eventos traumáticos estão associados a espaços: as ruínas da UnB quase foram a sede da Escola Superior de Guerra, durante a época da ditadura, e há a própria história do Noroeste, recheada de contradições relacionadas ao mercado imobiliário, junto à território de povos originários. Mas apontamos ainda o Cerrado no filme.

A política é uma coisa presente no teu cinema ou não?

O tema da política tem me interessado bastante, mas não pelo viés institucional: não tenho intenção de trazer a política como um discurso direto. Mas ele está imbuído da narrativa, na escolha dos personagens. Não busco jeito didático ou explícito, mas há dramas colocados. Meus personagens centrais têm suas contradições de classe, gênero e raça. São elementos pensados, mas nunca diretamente pronunciados. A política entra no subtexto.

O mestre Vladimir Carvalho está no teu cinema?

Vladimir está presente, inclusive, com material de arquivo no filme. Usamos algo do Brasília segundo Feldman e temos ainda Conterrâneos velhos de guerra. Como o personagem é um arquiteto, investigador da história de Brasília; ele vai atrás de uma série de materiais de arquivo. Há esta homenagem ao Vladimir Carvalho. Ao falar, das origens da cidade, é impossível deixarmos de trazer o Vladimir para o filme. Não chegou a ser meu professor, mas tive contatos com ele, chegamos, inclusive, com um documentário sobre o fotógrafo Luis Humberto (O olhar possível, de 2019), a ser premiados pelo Vladimir, que nos atribuiu o prêmio Cinememória. Vladimir faleceu, enquanto montávamos Mapas. Infelizmente, não consegui levar o filme pronto para ele assistir. Foi um pouco trágico isso. Acho que seria um filme que faria muito sentido para ele.

O premiado ator de vocês, Caíque Copque, veio de onde?

Ele é de Salvador. O pessoal do casting apostou nele porque o personagem que faz é alguém que vem da Bahia para estudar arquitetura. Daí há esse aspecto de um personagem que está conhecendo o local. Na investigação, vem a trajetória dele e da personagem Beta Rangel, na exploração de Brasília. Pedimos aos atores, no processo de casting, que enviassem um vídeo de teste. Gostamos do teste dele, e fizemos uma entrevista on-line. Tomei a decisão: "Acho que é ele; vai funcionar". No processo criativo, houve espaço aberto para que ele pudesse trazer experiências, vivências dele.

Há uma real onda de interesse da juventude pelo horror. Como nota que o cinema nacional tem se relacionado com isso?

O próprio Brasil, tirando a comédia, não tem, um cinema de gênero muito bem estabelecido ainda. O cinema comercial está tradicionalmente muito associado à comédia. Acho que o próprio streaming, nas produções tem tratado de produtos mais diversos, e nisso explorou entretenimento e aumento da procura pelo quesito gênero. O foco e a ampliação do horror vem também do momento social em que vivemos, com a crise do capitalismo. Vivemos um momento desde de 2018 para cá de pós-horror. Nisso veio a associação a temas políticos. O horror tem a ver com as experiências e as vivências que a gente vai tendo: a ascensão do fascismo, a extrema direita, todos esses elementos alimentam, culturalmente, a produção do gênero.

 


  • O multipremiado longa Mapas explora veios de horror
    O multipremiado longa Mapas explora veios de horror Foto: Machado Filmes/Divulgação
  • Bartleby (2016)
    Bartleby (2016) Foto: Levante Filmes/Divulgação
  • Confinados (2010)
    Confinados (2010) Foto: Levante Filmes/Divulgação
  • Xarpi (2024)
    Xarpi (2024) Foto: Levante Filmes/Divulgação
  • O cineasta Rafael Lobo
    O cineasta Rafael Lobo Foto: Levante Filmes/Divulgação
  • Mapas traz o horror de uma sociedade em crise
    Mapas traz o horror de uma sociedade em crise Foto: Machado Filmes/Divulgação
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postado em 13/06/2026 00:01 / atualizado em 13/06/2026 01:06
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