Zuca Sardan, nome artístico de Carlos Felipe Alves Saldanha, estudou arquitetura, fez carreira na diplomacia e se dedicou ao desenho e à poesia. É considerado o precursor da poesia marginal, movimento que renovou a literatura na década de 1970, com poemas que exploravam a linguagem coloquial e o humor. Mas Zuca ocupou sempre uma posição singular, pela originalidade de sua poesia, povoada de personagens que parecem ter saído de um circo, em inquietação frenética, anárquica, teatralizada e performática.
Zuca decidiu, na década de 1950, fazer folhetos mimeografados, sempre com uma ilustração, para publicar de forma independente as poesias que escrevia. Era o início de um movimento que traria o devido reconhecimento ao artista apenas 20 anos depois, na década de 1970, com o surgimento da geração marginal, conjunto de poetas que buscavam publicar os trabalhos autorais de forma similar a Sardan. O poeta e amigo Francisco Alvim, entusiasta da arte do colega diplomata, apresentou Zuca para as novas gerações que despontavam na década de 1970.
Natural do Rio de Janeiro, Sardan nasceu em 18 de agosto de 1933, na capital carioca, filho do poeta e arquiteto Firmino Saldanha, parceiro de Oscar Niemeyer e Lucio Costa nos primeiros esboços da arquitetura moderna no Brasil . Na vida adulta, escolheu Hamburgo, na Alemanha, como casa. Foi na cidade alemã que Zuca Sardan morreu, na quinta-feira (6/8), aos 93 anos, em decorrência de complicações de saúde depois de uma queda.
Sardan publicou o primeiro livro da carreira depois de cinco anos trabalhando com folhetos mimeografados: Cadeira de bronze, coletânea de poesias, em 1957. Quase 20 anos depois, em 1979 e 1980, passou a preparar a publicação mimeografada e independente de outros três projetos: Os mystérios (contos), Ás de colete (poesia) e Visões do bardo (grafite).
Mais de uma década depois, em 1993, publicou Osso do coração e, no ano seguinte, reeditou Ás de colete — dessa vez, com o apoio da Editora Unicamp. Nos anos 2000, publicou Babylon (Companhia das Letras, 2004) e Ximerix (pela editora Cosac Naify, em 2013). Os últimos trabalhos do autor foram publicados na coleção Peixe-elétrico, em 2016 e 2018. Zuca ilustrava a poesia com desenhos que estabeleciam um diálogo inventivo e irreverente com a palavra.
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A publicação independente de Sardan não era uma vontade própria, e sim necessidade. No início da carreira, não despertou o interesse das editoras; foi só com a ascensão da geração marginal em 1970 que passou a ter o trabalho considerado pelas empresas. “Eu preparava folhetos de poesia em mimeógrafo desde 1952, fora dos circuitos de editoras e livrarias… E distribuía, em remessa postal. No início dos anos 1970, surgiu a máquina xerox de fotocópia na loja da esquina, o que permitiu que a produção de minha Gráfica Gralha obtivesse uma extraordinária melhora técnica na sua produção, aumentando aceleradamente seu círculo de leitores, do Camelódromo da Rua Senhor dos Passos até Tóquio”, disse em entrevista de 2015 a Severino Francisco, no Correio Braziliense.
A geração marginal, influenciada por Zuca Sardan, chegou a Brasília. Sóter, Nicolas Behr, Noélia Ribeiro e outros nomes levaram o trabalho do mimeógrafo às ruas da capital. Para o escritor, a linguagem despojada e irreverente que usava é a mesma dos demais poetas marginais. A diferença está na impessoalidade: o “eu” foi trocado por personagens recorrentes em diálogos teatralizados.
Poemas de Zuca Sardan
Calote Mepaphysico
A vida é curta
e a salvação difícil...
Além de que a salvação pessoal
parece um negócio
dos mais duvidosos...
conviria primeiro saber
se a salvação em si
existe.
E se não existe...
então aquela força
e os sacrifícios
só pra no fim levar
o calote metafísico!...
Mal comparando
Se poesia fosse táxi
já arrancava
com o leitor pagando
bandeira dois
Zum e a metafísica
"Porque ó Venerável, existe o mal?"
indaga o ressentido Bacamarte.
"Eu é que sei?", brada Malaquias
"Porque não é o mundo
em forma de livro,
com ilustrações sem sépia,
ou hachurado grosso,
ou escrito em papel de arroz?
Enfim, vamos parar
com perguntas tolas
e vá me buscar uma cerveja".
*Estagiária sob a supervisão de Severino Francisco
