Essa semana, a releitura de um hino do rock nacional viralizou entre os internautas mais novos graças à cantora Anitta. A versão de Bichos escrotos, dos Titãs, na voz da funkeira faz parte da trilha sonora do filme Corrida dos Bichos, lançado em agosto, e chamou a atenção pela nova roupagem do hit dos anos 1980.
“Bichos, saiam dos lixos / baratas, me deixem ver suas patas / ratos, entrem nos sapatos do cidadão civilizado”, diz a letra eternizada pelos paulistas dos Titãs, no álbum Cabeça dinossauro, de 1986.
Famosa pelo palavrão berrado por Paulo Miklos (Oncinha pintada, coelhinho peludo / Vão se f…) em um Brasil recém saído da Ditadura Militar, a faixa se tornou um dos maiores sucessos do grupo e ajudou a alavancar o disco que marcou o rock feito no Brasil.
Acontece, que antes de Cabeça dinossauro ser lançado, a carreira do octeto formado por Miklos, Nando Reis, Arnaldo Antunes, Branco Mello, Sérgio Britto, Tony Belotto, Charles Gavin e Marcelo Fromer não andava tão bem assim. Em diversas entrevistas, eles já afirmaram que a banda estava prestes a se separar antes do lançamento.
Em 1986, os Titãs já contavam com dois discos na carreira e quase nenhum hit nas rádios. Com exceção de Sonífera ilha, de 1984, e Televisão, de 1985, o grupo parecia destinado a ficar no rodapé de uma década que apresentaria ao país bandas como Blitz, Barão Vermelho e Legião Urbana.
Rock de cadeia
Para piorar a situação dos Titãs no início de carreira, o grupo foi parar nas páginas policiais quando o vocalista Arnaldo Antunes foi preso por porte de heroína no final de 1985. O período de um mês atrás das grandes rendeu protestos entre artistas da época e abalou a imagem pública da banda.
Revoltados com a situação, o octeto decidiu deixar de lado a imagem new wave engraçadinha dos primeiros discos e fazer músicas que expressam a raiva de uma juventude que se sentia sufocada pela repressão que ainda assombrava o país naqueles anos.
Para produzir o novo trabalho da banda, o ex-Mutantes Liminha foi convidado. Com uma nova visão de som pesado inspirada em grupos punks como as Mercenárias, os Titãs entraram no estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro, para gravar Cabeça Dinossauro.
‘Saiam dos esgotos’
O álbum contava com as letras mais fortes feitas pela banda até então, atacando diretamente as principais instituições sociais brasileiras. Em Igreja, Nando Reis não poupou nem o Papa; já Polícia nasceu da prisão de Arnaldo Antunes; Família ironiza tensões da família brasileira; e Homem primata fala sobre as condições materiais e existenciais do capitalismo.
Já Bichos escrotos nasceu de uma piada do grupo com insetos e chegou a ser censurada devido a representação de diversos elementos “fofos” misturados com imagens grotescas que fazem alusão à vida urbana do país. O palavrão cantado não impediu a faixa de se tornar hit obrigatórios em shows e ir parar nas rádios e programas de auditório.
A arte da capa do álbum é uma reprodução de esboços de Leonardo Da Vinci e mostra o retrato de um homem com características brutas urrando. Ou seja, Homem primata.
Os vocalistas também não economizaram nos gritos. Em AA UU e Polícia, Sérgio Britto apresenta os vocais rasgados que ficariam marcados na música brasileira, quase como gritos primais.
Não deu outra, o álbum caiu como uma luva para o público brasileiro da época e rendeu o primeiro disco de ouro da banda. Após Cabeça dinossauro, os Titãs entrariam em uma fase ainda mais pesada e ácida, que duraria até o fim dos anos 1990, quando o grupo voltou a se render às baladas românticas.
Do punk ao funk
Quatro décadas após o lançamento do disco que mudou a carreira dos Titãs, o público voltou a redescobrir o clássico Bichos escrotos na voz da funkeira Anitta. Acompanhada por um beat de funk carioca assinado por Tropkillaz, a cantora deu uma nova cara ao som, que faz parte do novo longa estrelado por Rodrigo Santoro, Corrida dos bichos.
A releitura chamou a atenção do público e viralizou rapidamente, gerando elogios até dos autores originais. Ao G1, Sérgio Britto parabenizou a versão de Anitta. “É bacana que a música ganhe o mundo, tenha versões diferentes. E pessoas que não conheciam nosso trabalho possam conhecer”, declara. “Fora a parte técnica dela como cantora. Uma pessoa também extremamente carismática, articulada e tudo mais".
Assim, o exemplo de Anitta mostra que o funk brasileiro tem muito mais semelhanças do que diferenças do punk rock, se tratando de contestação ao status quo, e ajuda a apresentar à uma nova geração sons que fizeram muita gente bater cabeça décadas atrás.
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