obituário

Laura Cardoso, a matriarca do teatro se despede, aos 98 anos 

Veterana da dramaturgia nacional, Laura Cardoso, que morreu, em casa, aos 98 anos, deixa um legado de inúmeras personagens que se tornaram referência para colegas de ofício e espectadores

Laura Cardoso passou por praticamente todos os palcos da história do teatro, da televisão e do cinema brasileiros. Em oito décadas de carreira e com um talento manifestado desde a tenra idade, não houve como o rosto e a voz da atriz não se tornarem uma presença familiar para boa parte dos brasileiros, que lamentam sua partida, aos 98 anos. Morreu em casa, segundo informou o bisneto Fernando Faria, pelas redes sociais da atriz. 

Filha de camponeses portugueses de Trás-os-Montes que imigraram para o Brasil, Laurinda de Jesus Cardoso nasceu em São Paulo em 1927 e passou parte da infância em um cortiço no bairro do Bixiga. Em entrevista ao Projeto Memória, da Globo, ela contou que, já aos 7 anos, costumava brincar de teatrinho nas ruas do tradicional bairro paulistano. Foi aos 16 anos que começou a aparecer em programas de auditório e a participar de radionovelas.

Laurinda passou a adotar o nome de Laura e, em 1946, ainda adolescente, começou a trabalhar na Rádio Tupi, onde conheceu o marido e também ator Fernando Balleroni. Nos anos seguintes, Laura integraria o elenco de atores da TV Tupi e participaria dos lendários programas de teleteatro, que levava à telinha, em gravações ao vivo, os clássicos da dramaturgia internacional. A estreia nas telenovelas se deu em 1958: Laura Cardoso fez a inocente Cosette, de Os miseráveis, em uma produção da TV Tupi. 


Em 1981, Daniel Filho levou a atriz definitivamente para a TV Globo, na qual atuou mais de 20 novelas. Mas foi nos anos 1990 que Laura se tornou figura familiar nos lares brasileiros, quando participou de uma série de projetos na emissora encarnando a persona materna que marcaria sua trajetória, começando por Felicidade, como a chique e bondosa Cândida, em contraponto à simplória mãezona nordestina Donana de Pão pão beijo beijo, da década anterior.

Em Mulheres de areia, como Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel, e A viagem, no papel de Guiomar, a sogra obsediada, viveu, em sequência, dois dos papéis mais marcantes da carreira. Logo após, alternou entre duas matriarcas sábias: a rural dos Irmãos coragem e a exótica dos ciganos de Explode coração

“A Laura para mim é uma referência muito importante. Ela é imensa, e vai viver sempre como um farol para gente”, declarou ao Correio a atriz Tereza Seiblitz. “Quando eu fiz Dara, eu me lembro sempre de uma cena linda que tivemos juntas, quando uma avó e uma neta falam sobre a descoberta da sexualidade dentro daquela cultura. Toda vez que eu revejo essa cena, me emociono no mesmo lugar”, completa.

A versatilidade e a fidelidade ao papel eram as ferramentas mais importantes de Laura Cardoso quando se dispunha a encenar um personagem. Ela era capaz de viver a mais cândida das garotas, a mais vil das senhoras e a mais resiliente das mulheres. 

A atriz manteve o ritmo de trabalho na década seguinte. Veio uma série de avós, como a caipira de Chocolate com pimenta (2003), a indiana de Caminho das Índias (2009) e a beata de Gabriela (2012) — produção na qual a veterana conquistou o público da internet com a moralista Dorotéia. “Um amor de pessoa, gentilíssima com todos, bem humorada, sábia, uma atriz sem igual… Laura é eterna”, reforçou Mateus Solano, parceiro de elenco.


Foi apenas a partir de Flor do Caribe, novela de 2013, quando já tinha 86 anos, que diminuiu a frequência de aparições na televisão. Ela gravou uma participação especial em Império (2014).

Laura ainda fez uma avó golpista em Sol nascente (2016), antes de encarar o último papel fixo em O outro lado do paraíso (2017), de Walcyr Carrasco, onde viveu a memorável Caetana, dona do bordel da região de garimpeiros da novela. O ator brasiliense Anderson Tomazini guarda com gratidão a generosidade, a entrega e a espontaneidade da atriz em cena.

“Lembro de uma vez em que, já no final de uma cena, ela pegou um pedaço de bolo e, gentilmente, enfiou na minha boca para que meu personagem parasse de falar besteira. Ninguém esperava aquilo, o set inteiro caiu na gargalhada”, conta o intérprete do Xodó, frequentador assíduo do estabelecimento. “Era exatamente esse tipo de espontaneidade que fazia dela uma atriz tão especial. E vê-la se entregar daquela forma, mesmo com tantos anos de carreira, foi uma verdadeira aula de presença, generosidade e amor pelo ofício”, conclui. 

Depoimentos

Miguel Falabella


Ary Fontoura


Zezé Motta

Kiko Mascarenhas

Natallia Rodrigues

Tony Ramos

“Dona Laura Cardoso, minha querida Laura, ou Laureta, ou Laurinha, como eu a chamava, aos berros no corredor. Gritava o nome dela, ela adorava essa minha brincadeira. Foi com quem eu comecei. Meus primeiros passos, menor de idade, trabalhando na televisão Tupi, olhando essa mulher trabalhar. Ela era nossa rainha. Ela era a rainha da TV. Quantos momentos nós privamos trabalhando. Acho que o último trabalho inesquecível que tive com ela foi  Caminho das Índias, onde eu fazia o filho dela. O último capítulo, onde há uma revelação entre ela, Lima Duarte e eu, é uma das cenas mais lindas e emocionantes que eu já participei em toda a minha vida, em toda a minha carreira. E lá estava a nossa rainha da televisão, a nossa Laura Cardoso. Havia brincadeiras positivas ao chegar pela manhã ao trabalho. E sempre com aquele positivismo. Quero me lembrar dela assim: com esse talento, com esse vigor, com essa determinação”

Bárbara Bruno

Solange Couto

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