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Artigo: Laura Cardoso seguirá para sempre em cena

Entre o drama e o riso, uma galeria de personagens que ajudam a contar a nossa história, e não somente da televisão brasileira.

Laura Cardoso viveu dona de bordel na última novela, aos 90 anos -  (crédito: Memória Globo)
Laura Cardoso viveu dona de bordel na última novela, aos 90 anos - (crédito: Memória Globo)

Ao longo de uma vida quase centenária que atravessa a história da arte brasileira, Laura Cardoso (1927-2026) não apenas interpretou tipos memoráveis, mas ajudou a construir a linguagem, o imaginário e até mesmo a memória afetiva da dramaturgia nacional. Por décadas, ela emprestou talento e humanidade a personagens dramáticas que atravessam gerações, em especial nos anos 1990, quando emendou as memoráveis Isaura (mãe das gêmeas Ruthe e Raquel de Mulheres de areia), Guiomar (a sogra obsediada pelo espírito maligno de Alexandre em A viagem), a matriarca de Irmãos Coragem, e a cigana Soraya, de Explode coração.

Em cada uma delas, há uma marca que acompanha toda a sua carreira: Laura nunca parece simplesmente interpretar um papel. Ela dá vida, passado e verdade a personagens que, mesmo décadas depois, continuam vivos na memória do público. Essa presença em cena é capaz de transformar uma figura coadjuvante em personagem inesquecível.

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Mas sua grandeza também está na comédia — e é nessa gargalhada gostosa que eu quero focar. No remake de Gabriela, em 2012, de Walcyr Carrasco, por exemplo, a cruel beata Dorotéia nos rendeu um momento antológico ao assumir em público que já foi “quenga” em uma revelação que desmonta a imagem da mulher moralista que passa a vida julgando os costumes alheios. Com o talento de Dona Laura, o momento ganha uma dimensão tão irresistivelmente engraçada que virou meme.

Mas nada supera a surpresa trazida, novamente por Carrasco, com Caetana, a dona de bordel de O outro lado do paraíso, em 2018. Em uma das cenas mais emocionantes do final da novela — marcada pela despedida da veterana atriz em papéis fixos —, a personagem faz sua luminosa passagem dançando K.O., hit queer de Pabllo Vittar, durante um funeral festivo no estabelecimento onde era a rainha. Era Laura Cardoso, já aos 90 anos, debilitada, mas provando que talento não envelhece, e que uma grande atriz sabe se divertir mesmo nos momentos mais dramáticos.

Entre o drama e o riso, Laura construiu uma galeria de personagens que ajudam a contar a nossa história, e não somente da televisão brasileira. Ao morrer, a mulher de 98 anos encerra uma vida extraordinária, mas não afeta a presença da lenda na memória e no coração do público.

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postado em 18/08/2026 18:57
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