Cinema

'Muito prazer': comédia de Jorge Furtado aborda temas como sexualidade e algoritmos

'Muito prazer', novo filme de Jorge Furtado, tematiza a sexualidade, a exposição às redes sociais e a vida íntima

Jorge Furtado estava com a cabeça no mundo dos algoritmos quando escreveu Muito prazer. Em cartaz nos cinemas, o novo filme do cineasta gaúcho explora temas, como sexualidade, exposição na internet e privacidade a partir da história de Rubem (Daniel de Oliveira), jovem que herda do tio um motel antigo e cheio de dívidas. No estabelecimento, à primeira vista abandonado, ele encontra Grace (Luisa Arraes), uma ex-funcionária que mora no local. Juntos, e com a ajuda de Nalva (Samantha Jones), eles decidem retomar o negócio e, para sair do vermelho, instalam câmeras escondidas nos quartos e vendem vídeos íntimos dos hóspedes na internet.

A ideia do longa surgiu de uma inquietação do cineasta: "Como o algoritmo tenta classificar os seres humanos?". "Quando começou no streaming essa história de sugestão — se você gostou deste filme, também vai gostar desse —, eu pensava: "Gente, uma coisa não tem nada a ver com a outra". E como isso se encaixaria nas relações, por exemplo? Se você gostou dessa pessoa, vai gostar dessa também? Como funcionaria?", indaga Jorge.

Foi daí que o gaúcho percebeu que, se aplicado ao mundo da pornografia, a "algoritmização" poderia render um roteiro divertido. "A sexualidade é algo tão particular e pessoal. Como você vai categorizar?", pondera o diretor. No filme, Rubem e Grace inventam hashtags e classificam os vídeos íntimos dos hóspedes para chamar a atenção do público. "Ao mesmo tempo que saber o que as pessoas gostam quando estão em silêncio, anonimamente, é um valioso instrumento de conhecimento humano, também é um bom material para fazer piada", avalia o cineasta.

Apesar de o motel ser o personagem central de Muito prazer, Jorge reitera que, ironicamente, o longa é uma comédia romântica para assistir com toda a família. "Estou falando para todo mundo levar a avó para ver o filme, porque é leve. As pessoas saem rindo da sala de cinema", garante o diretor. "É uma história sobre jovens sem dinheiro, batalhando pelo sustento", resume.

Na ficção, os protagonistas acabam sendo uma representação da juventude de hoje em dia. "Eu acho que tem muito jovem com dificuldade de entender a própria sexualidade, que sente que não pode falar com ninguém, solitário... Eu ouço falar muito nisso, que eles não transam, não namoram, não se encontram. Só ficam trancados no quarto, no celular", relata o diretor. "O personagem da Luisa Arraes mesmo diz que acha sexo uma coisa estranha, que é esquisito e ridículo", conta Jorge.

"E o Rubem, que também é tímido, fica travado com isso. Ele meio que se interessa por ela, quase que uma paixão à primeira vista, mas dá espaço", continua. "E quando vai dizer que ama ela, diz: "Eu também acho que te amo". Quer dizer, nem para conseguir dizer um eu te amo sem se atrapalhar. E isso é muito humano", defende o gaúcho.

A comédia, para Jorge, serve justamente como ferramenta para apontar os defeitos do ser humano. "Eu não acredito em heróis. Meus filmes não têm heróis nem vilões. As pessoas são falíveis, cometem erros e fazem bobagens nas melhores das intenções. E isso gera muito humor", afirma o cineasta. "E a comédia romântica é a melhor representação da vida, porque ela não é só engraçada, também é sofrida e dolorida. Momentos de tristeza e felicidade se alternam — nem choro demais, nem riso demais. O equilíbrio entre os dois é o mais saudável", declara o diretor.

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