
Tudo surgiu de uma carta que Denise Stoklos escreveu para Dalton Trevisan em 2012 com o pedido de autorização para levar ao palco um dos textos do autor de A Polaquinha. A coreógrafa nunca teve resposta, mas o escritor, que morreu em 2024, guardou o pedido. Agora, quase 15 anos depois, com autorização da curadora da obra do vampiro de Curitiba, Fabiana Faversani, e em uma parceria afinada com a diretora Alessandra Maestrini, Denise sobe ao palco para encenar um texto do autor em Dalton Trevisan, que tinha um cachorro, em cartaz neste sábado em apresentação única no Teatro Nacional.
O espetáculo é inspirado no conto Tiau, Topinho, texto publicado no livro Dinorá (1994) e no qual Trevisan narra o vazio deixado pela partida do cão de estimação. Conhecido por ser inacessível, recluso, de pouca conversa, sobretudo com a imprensa, o escritor cultivava uma aura de mistério e sisudez, mas se revela extremamente afetuoso nesse texto, cuja intimidade cativou Denise Stoklos. "Escolhi justamente por este texto por trazer outros lados de Dalton Trevisan, não tão conhecidos, que demonstram seu lado mais afetivo, emocional", diz a atriz e dramaturga. No texto, o autor reflete, em primeira pessoa e em tom terno nada familiar à crueza de sua escrita, sobre o envelhecimento e a morte de Topinho.
Montada em três camadas e estruturada sobre os pilares do Teatro Essencial que Denise criou com foco na potência corporal, o espetáculo traz três abordagens sobrepostas. A primeira parte coloca a voz em evidência e reverencia a literatura e o poder das palavras, enquanto a segunda foca no movimento corporal para traduzir o texto. Na última parte, a emoção guia a cena. O texto, portanto, é encenado três vezes e, em cada uma delas, Denise e Alessandra destacam um aspecto da narrativa e das possibilidades de interpretação. Em entrevista, Denise conta como um encontro de linguagens permitiu a dinâmica de Dalton Trevisan, que tinha um cachorro.
Entrevista Denise Stoklos
Como a escrita de Dalton Trevisan dialoga com o Teatro Essencial? A escrita dele é bastante concisa e o Teatro Essencial tem essa ideia do corpo/mente/ voz como a única tríade indispensável no palco. Como é a conexão entre os dois?
Foi praticamente um encontro de linguagens, a dele na literatura e minha busca no teatro da síntese, do palco nú. Dalton chegou a um patamar em que contava uma história só com uma frase. Isso me entusiasmou muito e a dramaturga e diretora Alessandra Maestrini conseguiu fazer de um espetáculo de 50 minutos uma revelação completa do escritor e seu mundo.
O que o espetáculo revela sobre o texto que uma leitura não revela? O que você quis revelar, em termos de corporalidade, sobre esse texto?
A peça usa da linguagem do teatro essencial para teatralizar o universo de Dalton Trevisan o máximo possível. O corpo entrou com sua expressividade tradutora das nuances que estão presentes na obra e no autor. Quisemos trazer as faces que não aparecem de imediato na identificação do autor conhecido como recluso. Com as informações pessoais de sua curadora, Fabiana Faversani, que o acompanhou intimamente por muitos anos, pudemos ter acesso a lados não divulgados e surpreendentes do premiado escritor.
Como fazer com que a perda de um animal, uma experiência que Trevisan transforma em algo profundamente humano e particular, ganhe uma dimensão tão grande no palco?
Para isso, em especial, contei com a rigorosa direção de Alessandra Maestrini que fez uma verdadeira partitura do texto, regendo pausas e ritmos da interpretação, com toda sua sensibilidade e noção musical.
Qual o papel dos silêncios no espetáculo? O que a experiência trouxe de mais precioso para você? E o que esse espetáculo diz sobre a solidão?
Talvez mais uma reafirmação dos mistérios da existência em que fatores, como afeto e perda impactam em profundidade nossa vida, muitas vezes de forma sutil e total.
Há algo simbólico em você levar o espetáculo ao palco agora, com um texto que fala sobre perda, amor e memória, 14 anos depois de ter pedido a autorização naquela carta enviada ao autor?
Sim, claro que não deixa de tocar na questão da resiliência, e dos mistérios que a vida oferece permanentemente. Um otimismo sobre todas as coisas.
Pode contar um pouquinho como foi o processo com Alessandra Maestrini e como o olhar dela ajudou a moldar o espetáculo?
Ela foi fundamental no processo. Além de ter escolhido texto a texto, cortes e junções, ela entendeu em profundidade de quem iríamos falar, e ainda trouxe seu conhecimento do que se constitui um olhar que teatraliza tudo na sua essência, nas suas várias expressividades, no teor do humano e no senso do que vale a pena transformar em ato, no palco. Aprendi muito com ela, posso dizer que me renovei, sob a direção de alguém tão mais jovem que eu, mas com uma capacidade ilimitada no teatro.
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