
Natascha Stransky passou a maior parte da vida certa de que não queria ser mãe. Dizia isso com convicção, batia no peito, encerrava o assunto. Até que a morte dos pais, os irmãos seguindo com suas próprias famílias e a chegada dos 39 anos transformaram uma certeza inabalável em uma pergunta incômoda. Foi dessa inquietação que nasceu Herança, o primeiro curta-metragem como roteirista, produtora e protagonista, um suspense que usa a imagem do cativeiro para falar sobre o tempo, a pressão social e a violência silenciosa de sentir que a decisão sobre a maternidade está escapando das próprias mãos.
"Desde muito nova, eu já dizia, com a maior convicção, que não queria ter filhos", conta Natascha. A mudança veio com o luto, quando a atriz começou a se perguntar o que significava, para ela, construir uma família. "Foi aí que uma certeza que eu tinha desde muito jovem virou uma pergunta. Eu não passei a querer necessariamente ter um filho. Passei a me perguntar se eu queria. E são coisas bem diferentes", reflete a artista, que, em breve poderá ser vista na série bíblica Ben-Hur, da Record.
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O que poderia parecer um simples adiamento, um "ainda tenho tempo para decidir", foi se tornando, com o passar dos anos, uma escolha que o tempo começava a fazer por ela. "Eu posso continuar não sabendo, mas o tempo continua passando. E, quando a gente não escolhe, de alguma maneira, estamos fazendo uma escolha", avalia.
A atriz ressalta que foi justamente essa transição, do "eu nunca quero ser mãe" para o "será que eu quero?", que a fez perceber que havia uma história ali. Uma história que, em vez de receber um desfecho, merecia ser contada em toda a sua ambiguidade.
Relógio como algoz
Para materializar essa sensação de aprisionamento, Natascha recorreu ao gênero do suspense. "Acho que nada faz mais jus a uma história sobre o tempo e a maternidade do que um cativeiro", diz, aos risos. "Pelo menos para mim, é assim que essa decisão às vezes pode parecer: você se sente presa, correndo contra o tempo e sem saber muito bem como sair dali. E sabendo que a decisão não está 100% nas suas mãos."
No cativeiro, a personagem não pode simplesmente fugir ou adiar, explica: "Ela precisa olhar praquilo que talvez estivesse tentando não olhar". A violência, no filme, não vem de um algoz explícito. "E existe uma violência silenciosa quando sentimos que o tempo está decidindo por nós, principalmente pra uma mulher, porque existe uma série de expectativas sobre o que você deveria querer em determinada idade. Não tô falando só de relógio biológico. Existe também uma questão muito concreta de energia, de disponibilidade, de imaginar o que significa cuidar de uma criança hoje, aos 39 anos", pondera.
O curta poderia ter virado um manifesto. Poderia ter defendido a maternidade ou a recusa a ela. Mas Natascha escolheu outro caminho e admite que foi difícil segurar a tentação de dar uma resposta: "Foi, porque seria muito mais fácil fazer um filme que defendesse uma ideia. Mas não era isso que eu queria".
Para ela, o que serve para uma pessoa pode não servir para outra, e o desejo pode mudar dentro da mesma mulher ao longo da vida. O que a interessava, de fato, era a dúvida. "Eu queria que a personagem pudesse estar confusa, ter medo e desejo ao mesmo tempo. Eu não queria fazer um filme que dissesse se é certo ou errado ter filhos, ou se é melhor ser mãe ou não ser mãe. Acho que qualquer uma dessas respostas seria pequena demais pra questão", explica.
A arte de não julgar
Recém-formada em psicologia, Natascha conta que a nova formação foi decisiva para a construção da protagonista de Herança. "Acho que aprofundou uma coisa que já fazia parte do meu trabalho como atriz: tentar entender antes de julgar". Ela não queria olhar para Laura, sua personagem, e pensar se ela está certa ou errada. Queria entender de onde vinham seus medos, o que era desejo genuíno e o que era expectativa imposta. "A gente é muito mais contraditório do que gosta de admitir. Podemos amar uma pessoa e, ao mesmo tempo, fazer mal a ela. Podemos querer uma coisa e ter medo dela", explica.
Ao falar sobre a energia necessária para cuidar de uma criança, Natascha é cuidadosa. Ela não quer transformar sua experiência pessoal em regra: "Eu não sei se eu chamaria de culpa. Eu acho que é uma cobrança. Existe uma expectativa muito grande de que a mulher queira ser mãe e, mais do que isso, de que ela saiba quando quer ser mãe".
Aos 39 anos, ela começou a pensar no tempo, na energia e na disponibilidade, mas enfatiza que essa é uma questão pessoal, não uma verdade universal: "Não acho que exista uma idade certa para uma mulher ter energia ou desejo de maternar". O que a incomoda, de fato, é a ideia de que a mulher deveria ter uma resposta pronta. "Talvez ela possa simplesmente não saber. E talvez essa dúvida também mereça ser respeitada", conclui.
Multitarefas
Assinar roteiro, produção e protagonizar o próprio filme é um desafio e tanto. Mas Natascha revela que, graças a Deus, não foi ela quem comandou o set. "Eu pude chamar pessoas em quem confio muito pra fazer isso, como a Gabi DiMello, que é uma das minhas melhores amigas e uma grande diretora e roteirista, e o Lucas Campioli, que foi meu assistente de direção", relata.
O que ela fez, de fato, foi produzir ao lado de Victor Grimoni, que também contracena com ela no curta, e roteirizar. E, para ela, era fundamental estar 100% em cena num projeto que era seu. Para isso, ter uma equipe de confiança foi essencial: "Existe uma diferença enorme entre ter uma ideia e conseguir fazer essa ideia existir de verdade. Quando você começa a produzir, aparecem orçamento, equipe, locação, cronograma, problemas que você não tinha imaginado".
Se a jovem Natascha, cheia de certezas, assistisse a Herança, o que pensaria? "Eu acho que ela não acreditaria que eu estaria fazendo um filme sobre maternidade", diz, entre risos. "A Natascha de 25 anos tinha muita certeza de que nunca seria mãe. Eu era aquela pessoa que, quando alguém perguntava sobre filhos, batia no peito e dizia: 'Eu não quero ter filhos'", completa.
Ela ficaria surpresa, claro. Mas talvez houvesse outra surpresa ainda maior: "Ela também ficaria surpresa com outra coisa: eu estou maternando um curta. Porque, pensando bem, Herança também foi uma forma de maternar pra mim. Eu tive uma ideia, criei uma história, cuidei dela, coloquei energia, tempo e afeto naquele projeto, acompanhei seu crescimento e agora tô colocando essa história no mundo".
Natascha faz questão de marcar a diferença: não é o mesmo que ter um filho. Mas existe algo de muito parecido no gesto de criar, cuidar e se responsabilizar por aquilo que se coloca no mundo. "Eu ainda não sei se quero ser mãe de uma criança, mas descobri que tenho vontade de criar, cuidar e colocar coisas no mundo de outras formas", avalia. E conclui, com um sorriso: "Acho que a Natascha de 25 anos jamais imaginaria que a de 39 estaria fazendo essas perguntas e, muito menos, que estaria tentando respondê-las através de um filme".
Entre Laura e Joana
A pergunta que une a Joana de Ben-Hur, personagem que Natascha viverá na superprodução da Record, e a Laura de Herança não é óbvia, mas a atriz enxerga um fio condutor: "São mulheres muito diferentes, vivendo histórias completamente diferentes, mas as duas estão tentando entender o lugar que ocupam e se esse lugar realmente corresponde ao que desejam".
Joana começa dentro de uma estrutura de poder, é mulher de Cusa, ligada ao círculo de Herodes, e, aos poucos, passa a questionar aquilo que sempre pareceu natural. Já Laura está presa em um cativeiro com um homem que ama, e a possibilidade de não sair viva dali a obriga a encarar, com urgência, uma pergunta que já estava em sua cabeça: que futuro ela quer construir? "O cativeiro cria uma urgência pra uma questão que já existia dentro dela", pondera.
Para Natascha, o ponto em comum é este: ambas precisam olhar para o que foi dado como certo e perguntar se é isso que realmente querem. "E essa é uma pergunta que me interessa muito como atriz", afirma.
Joana não foi escrita para ser uma vilã. E Natascha nunca quis interpretá-la como uma mulher fútil ou simplesmente má. "Para mim, seria muito mais interessante entender que ela é uma mulher cheia de contradições, como qualquer ser humano", reflete. Nas conversas com o diretor geral, Vicente Guerra, o lado humano da personagem sempre foi priorizado. Quando Joana se transforma ao encontrar Jesus, ela não apaga quem era.
"O encontro com João Batista e Jesus provoca uma transformação profunda, mas não apaga quem ela era. Ela passa a usar os recursos e o lugar de poder que tem pra defender aquilo em que acredita", adianta. E completa: "Eu gosto de pensar que ela não deixa de ser humana pra se tornar boa. Ela continua humana e, justamente por isso, pode mudar".
Com passagens por novelas como Duas caras e Terra e paixão, na TV Globo, além de filmes como Somos tão jovens e Faroeste caboclo, gravados e ambientados em Brasília, Natascha agora se prepara para um universo completamente diferente. "Ben-Hur tem uma dimensão muito grande. É uma produção de época, com uma pesquisa histórica e visual muito forte, figurinos, cenários e uma preparação diferente. Você entra num mundo que não existe mais e precisa acreditar completamente nele", observa. Mas, apesar das diferenças de escala e gênero, o que ela busca permanece o mesmo: "No fim, seja em uma novela contemporânea ou em uma história bíblica, o que me interessa é entender quem é aquela pessoa, o que ela deseja, do que ela tem medo e o que está disposta a fazer pra conseguir o que quer".
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