
Anna Toledo vive um momento na carreira em que diferentes caminhos parecem se encontrar. Em apenas dois dias, a autora viu estrearem duas produções de naturezas distintas, em cidades diferentes, mas igualmente importantes em sua trajetória: a turnê nacional de Tarsila, a brasileira, musical inspirado na vida e na obra de Tarsila do Amaral, e 7 mulheres e um mistério, uma comédia musical imersiva que reúne sete grandes intérpretes.
“Realmente é um momento significativo”, reconhece Anna. Para ela, a dimensão de Tarsila está também na própria raridade de uma produção brasileira de grande porte, com música original, percorrer diferentes regiões do país. “Um musical brasileiro, com música original, então, é raríssimo”, observa.
A resposta do público ao espetáculo estrelado e produzido por Claudia Raia no papel de Tarsila do Amaral tem sido especialmente significativa. Segundo Anna, a recepção calorosa da turnê revela uma demanda por histórias capazes de provocar identificação e reconexão. “Só mostra como existe demanda por obras que nos reconectam como brasileiros”, afirma.
O projeto ocupa um lugar especial em sua trajetória não apenas pela dimensão da produção, mas pela possibilidade de participar criativamente da construção de uma personagem histórica tão complexa. Ao escrever sobre Tarsila do Amaral, Anna conta que nunca teve como objetivo condensar uma vida inteira em duas horas de espetáculo. “A ideia nunca foi definir ou reduzir Tarsila a duas horas de espetáculo, mas de abrir muitas janelas para a arte e para a vida desta mulher extraordinária”, explica.
Entre as descobertas feitas durante o processo, algumas das mais emocionantes vieram das correspondências deixadas pela artista. Anna se debruçou especialmente sobre as cartas trocadas entre Tarsila e Luis Martins, seu último companheiro, com quem ela viveu durante 18 anos. Uma frase recorrente nas cartas acabou atravessando a pesquisa e chegando ao palco: “aí vai meu coração”. “Uma frase tão linda e poética, que coloquei no dueto que mostra o casal, na peça”, conta.
Se em Tarsila Anna parte de uma personagem real e de uma trajetória histórica, em 7 mulheres, o desafio foi outro. Inspirado na obra francesa 8 femmes, de Robert Thomas, o espetáculo conta com grandes nomes do teatro musical brasileiro — como Bruna Guerin, Laura Castro, Letícia Soares, Malu Rodrigues, Paula Capovilla, Stella Miranda e Verónica Valenttino — e preserva a estrutura central da história, mas ganha novos contextos e subtramas para funcionar em um formato imersivo.
A questão era mais do que simplesmente colocar o público dentro da cena, mas fazer com que essa presença tivesse uma razão dramatúrgica. “Sabendo que seria um espetáculo imersivo, eu precisava justificar a presença da plateia ‘dentro’ da ação”, explica.
A solução foi criar novas motivações e situações para que, ao final, a presença do público se tornasse parte da própria narrativa — e também da surpresa. O resultado reúne sete intérpretes de grande experiência no musical brasileiro. Para Anna, escrever para artistas desse calibre é tanto um privilégio quanto uma responsabilidade. “São sete intérpretes extraordinárias que elevam qualquer material. Para uma autora, isso é um presentão. Eu preciso estar à altura.”
E se...
A mesma lógica aparece em sua parceria com Claudia Raia e Jarbas Homem de Mello (como Oswald de Andrade), com quem Anna já trabalhou em projetos como Conserto para dois, Cenas da menopausa e, agora, Tarsila. A presença de artistas com recursos cênicos tão amplos, segundo ela, permite que a escrita percorra diferentes linguagens e gêneros. “Isso me permite explorar uma gama rica de linguagens e gêneros, sabendo que eles vão se sentir desafiados a dar o seu melhor em cena”, diz.
Mas talvez uma das características mais interessantes de Anna Toledo esteja justamente na maneira como ela começa suas histórias. Não existe, necessariamente, uma fórmula rígida. “Geralmente é uma ideia, uma premissa: ‘e se…’”, conta.
A partir daí, tudo pode virar matéria-prima. Conversas, histórias ouvidas na rua, fotografias, situações cotidianas. Durante um processo criativo, Anna se define como uma “esponja”. Anota o que ouve, grava ideias e acumula referências até chegar o momento de separar aquilo que pode, de fato, entrar em uma obra.
Essa disponibilidade para absorver o mundo parece acompanhar também uma nova fase de sua carreira. Depois de uma trajetória marcada por trabalhos de destaque no teatro musical, Anna lançou Risco, álbum de canções inéditas que pode ganhar também uma versão cênica. O projeto revela uma autora interessada em sair de territórios conhecidos. “Acho essencial explorar coisas que ainda não sei se sei fazer”, afirma.
O próprio nome do álbum parece sintetizar essa disposição. Risco mergulha nas relações amorosas e em suas obsessões, mas a criação do espetáculo a partir das músicas está levando Anna para uma pesquisa de linguagem cujo destino ainda não está completamente definido. “Não sei muito pra onde vai me levar — e tudo bem”, diz.
Para ela, o risco faz parte da própria natureza de criar. Todo projeto carrega alguma possibilidade de fracasso, mas experimentar em produções menores permite lidar com essa possibilidade com menos pressão: “É importante se arriscar em terreno desconhecido pra continuar se interessando pela jornada”.
A frase também ajuda a compreender a autora que está por trás dos grandes musicais. Em vez de enxergar a carreira apenas como uma sucessão de sucessos, Anna parece interessada em preservar a curiosidade — inclusive diante daquilo que ainda não domina.
E as histórias não param de surgir. Ela conta que mantém cadernos cheios de premissas, personagens e ideias esperando encontrar uma narrativa. Algumas provavelmente permanecerão no papel. Outras podem chegar aos palcos. “Depende muito de sorte — a ideia encontrar a ocasião”, resume.
Enquanto isso, há projetos já prontos aguardando a oportunidade certa. Entre eles, um musical infantojuvenil inspirado em Mark Twain, composto em parceria com Thiago Gimenes, e uma comédia de prosa escrita para três atores, que Anna pretende também dirigir.

Diversão e Arte
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