Durante décadas, a Amazônia foi o cenário de uma história que parecia saída de um livro de aventuras: uma suposta cidade perdida, escondida no coração da floresta, onde uma antiga civilização teria sobrevivido longe dos olhos do mundo. O lugar se chamaria Akakor, e o homem que dizia conhecer seus segredos, Tatunca Nara, apresentava-se como líder de um povo indígena e herdeiro daquela civilização.
A história ganhou fama internacional nos anos 1970, quando o jornalista alemão Karl Brugger transformou os relatos de Tatunca no livro A crônica de Akakor. A lenda da antiga civilização, porém, não ficou restrita apenas aos livros. Nas décadas seguintes, aventureiros estrangeiros viajaram para a Amazônia em busca da suposta cidade, e alguns deles nunca voltaram.
John Reed desapareceu em 1980; Herbert Wanner, em 1983, teve os restos mortais encontrados na floresta; e Christine Heuser sumiu em 1987. Tatunca, que havia os guiado por expedições pela região, passou a ser associado aos casos. Cinquenta anos depois, a existência de Akakor nunca foi comprovada e o desaparecimento dos estrangeiros nunca teve um desfecho jurídico.
A fronteira entre mito e crime que envolve a história é revisitada em Morte e mistério na Amazônia, nova série documental da HBO Max. Dirigida e produzida por Tatiana Issa e Guto Barra, a produção investiga a história da cidade lendária e a trajetória de Tatunca, que dá a própria versão dos fatos. "Em documentários de true crime, a gente sempre debate para quem devemos ou não dar voz. No caso dele, achamos que era importante questioná-lo de certa forma", conta a diretora.
Tatiana explica que, após Tatunca perpetuar por anos as histórias de Akakor "da forma que queria", era importante que ele fosse confrontado em frente às câmeras. O embate entre o suposto descendente do povo indígena e a produção do documentário se deu ao longo de uma entrevista de três horas de duração.
"O tempo todo ele se esquivava e mudava de assunto. A esposa dele nos interrompeu, começou a berrar... Foi muito difícil, precisávamos estar sempre muito atentos para, nas nuances, pegar palavras, gestos e 'não respostas' para cutucá-lo", relata a diretora.
Para Guto, a entrevista em si diz muito sobre a personalidade de Tatunca. Segundo o produtor da série, o suposto guardião dos segredos de Akakor utilizou diferentes táticas para tentar se esquivar de perguntas feitas pela produção. "Às vezes, ele falava que não lembrava; às vezes, jogava uma informação para confundir o que foi falado originalmente; às vezes, debochava da Justiça", narra.
Em uma de suas respostas, o entrevistado chegou a admitir que sabe que cometeu um crime, mas que "não vai dar em nada". "É muito interessante, porque, a partir daí, você vai entendendo a personalidade dele, e que nela podem ter traços de várias sociopatias. Isso, no entanto, não retira a culpabilidade dele nesse caso, de forma alguma", defende Guto.
O diretor também ressalta que, antes do documentário, o suposto herdeiro do povo indígena nunca havia sido confrontado de maneira direta. "Até lendo os depoimentos que ele deu para a polícia e para o Ministério Público ao longo dos anos, foram coletados apenas relatos da versão dele", destaca o diretor. "As pessoas embarcavam no que ele tinha para contar e iam embora com isso. É uma narrativa que realmente precisava de um outro tipo de abordagem", afirma.
Com a entrevista, a intenção, segundo Tatiana, era justamente evitar que o documentário virasse mais uma oportunidade de Tatunca "elucubrar ainda mais as mentiras que vem perpetuando ao longo da vida". "É uma história que traz muitos elementos fascinantes para quem assiste, mas que nunca havia sido tratada com a seriedade que merece", diz. "Nós queríamos realmente abrir perguntas e fuçar para entender o que aconteceu de forma mais profunda, sobretudo em relação às vítimas, que é a quem nós mais devemos um olhar delicado e cuidadoso", completa a diretora.
Como o mito ganhou força
Após o fim da entrevista, os diretores do documentário se viram surpresos ao perceber que, mesmo fora das câmeras, Tatunca seguia com a mesma narrativa. "Ele me chamou em um canto e disse que os ETs tinham avisado a ele que ia acontecer uma coisa muito importante e que eu tinha que saber", relata Tatiana. "Ele continuou querendo, de alguma maneira, vender a imagem de que tinha informações muito únicas e que era melhor que eu ouvisse e acreditasse", detalha a diretora.
A partir do encontro com o homem que hoje tem 84 anos, ela, portanto, viu-se ainda mais empática com as vítimas do caso. "É alguém que vai te enrolando, como uma serpente. Ele tem simpatia. Faz-se de coitado e, ao mesmo tempo, poderoso. Desvia o assunto. É quase como uma luta de esgrima, indo e voltando", compara Tatiana, que também aponta o contexto histórico da época como central no caso.
"Era o auge da descoberta das cidades perdidas, como Eldorado, e havia um deslumbre por Machu Picchu naquela década também. Todo mundo lia o livro Eram os deuses astronautas?, de Erich von Däniken, e havia um fascínio pela arqueologia, pelas pirâmides do Egito, pelo misticismo... Então, as pessoas estavam mais abertas àquilo. Elas acreditavam que existiam, sim, outras civilizações, e queriam sair em grandes aventuras", pontua a diretora.
Para Guto, é importante ressaltar, no entanto, que as vítimas não podem ser apontadas como culpadas no caso de Akakor. "As pessoas precisam saber que a desinformação tem consequências reais, e a Justiça precisa entender o seu papel e a velocidade com que as coisas devem acontecer", opina o diretor. "O desfecho jurídico dessa história ainda está por acontecer, mas, de certa forma, se a gente puder trazer luz para mostrar evidências contundentes, eu acho que a série faz esse trabalho de uma maneira bacana", avalia.
