Na arte, plantar sonhos e colher felicidades é um emblema importante. No meio do processo, no entanto, regar nem sempre é fácil. Exige maturidade, discernimento e, principalmente, muita coragem. Quando tinha 20 anos, o rapper Sant trouxe ao mundo um dos trabalhos mais importantes da história do rap brasileiro, já no álbum de estreia. Agora, mais de uma década depois, ele retorna com O que separa os homens dos meninos vol. 2, colocando-se diante de um espelho repleto de nostalgia.
Agora, após finalmente entregar a continuação desse projeto tão importante, o artista carioca ressalta que esse é o disco da sua vida. "Esse álbum é bem mais pessoal. É quase a mesma energia do meu primeiro, só que no primeiro volume era o meu início de tudo. Esse segundo volume traz esses 11 anos já na música", reflete o artista sobre o novo momento da carreira.
Antes, mais imaturo, talvez até mais agressivo. “Se esse Sant me encontra hoje, acho que ele me pega na porrada”, brinca o artista. Contudo, nesses últimos anos, um rapper cada vez mais consolidado e visto por outros grandes nomes como um dos gigantes da cultura urbana brasileira. E isso, em todas as camadas: arte, impacto e cultura. Dessa forma, não poderia entregar um projeto que não fosse a altura do que esperavam.
Com isso, a gestação do trabalho exigiu paciência, tanto do público quanto do próprio rapper. Inicialmente previsto para o ano anterior, o disco sofreu adiamentos até encontrar o momento ideal de vir a público. A sensação após a estreia, segundo o MC, é de alívio e dever cumprido. "Eu acho que o maior sentimento é esse: caramba, conseguimos finalizar, consegui realizar, consegui entregar. Consegui fechar esse ciclo", detalha Sant.
O reencontro com o passado
Contudo, como diria Emicida — presente na primeira faixa do disco —, quando os caminhos se confundem, é necessário voltar ao começo. Processar a maturidade exigiu que Sant revisitasse sua obra inaugural — uma experiência que, durante anos, trouxe desconforto ao artista. As memórias do início da carreira, construída em meio ao ambiente de trabalho na gravadora e ao cotidiano na Zona Norte, cobravam um preço emocional alto.
Para além disso, o sonho de realmente vingar na arte. O que, agora, parece ser inegável que tenha conseguido. "Eu não gostava de ir nesse disco, no primeiro volume. Muito pelo que você bem disse: era um menino, cara. Eu comecei a produzir essa parada com 16 anos, lancei com 20. As coisas que eu falava me doíam, mas eu acho que o tempo foi colocando tudo no lugar."
O distanciamento temporal permitiu reconfigurar a visão sobre as composições antigas e as vivências familiares expostas nas letras. Se na juventude o processo criativo servia como um expurgo cru de feridas e conflitos domésticos, o presente trouxe a paternidade e novas perspectivas. Talvez o segundo volume seja um bálsamo para dores que ainda existiam, mas que agora possam ser ditas em paz.
"Revisitar isso foi criando outras faces. Ao longo do tempo, tanto durante a produção do primeiro volume quanto esses 11 anos que se passaram, eu comecei a ver esse disco de uma outra forma. Agora eu consigo entender tudo com mais leveza. Eu consigo revisitar aquele primeiro volume com mais tranquilidade, sabe?", comenta o rapper carioca.
As ideias e as parcerias
O novo projeto se destaca também pela robustez da ficha técnica, reunindo nomes expressivos do hip hop nacional como Emicida, Duquesa, Derxan, MC Marechal, 2ZDinizz, Clara Lima e Lil Whind (Whindersson Nunes), são alguns dos nomes presentes no disco. A grande quantidade de participações divididas ao longo das faixas chegou a gerar desconfiança em parte dos ouvintes antes da execução do álbum, receio que o rapper encarou com naturalidade.
"A pessoa fez esse cálculo: 15 participações em 11 músicas. Eu entendo a galera, mas eu vivo dizendo que O que Separa os Homens dos Meninos é a obra da minha vida. Eu vou cagar nesse bagulho, mano? Eu sou maluco a esse ponto? Me dá esse voto de confiança”, diz Sant, em tom bem humorado e crente de que fez as escolhas certas para cada faixa do álbum.
A resposta veio com o produto final e com o lançamento do filme que acompanha o projeto. Distante do tom documental e cru daquela época, o conceito visual do novo álbum busca sintetizar a fase atual do artista. "Esse tom já é de um artista consolidado, de mais de 11 anos de carreira, de um monte de música e de participação", pontua o rapper, ao selar a transição definitiva entre o jovem que estreava na cena e o homem que assina a nova obra.
E bom, outro fator de extrema importância no disco — e na vida de Sant —, é o assunto saúde mental. Um dos principais tópicos de sua trajetória pessoal e artística, falar de terapia, para ele, é inegociável. “Isso mudou minha a vida. Quero sempre falar disso. Coloquei na parte documental o Cipriano, ex-atleta renomado do nosso basquete brasileiro, que bate na tecla sobre essas questões”, destrincha.
Vulnerabilidades, sentimentos e suporte emocional. Talvez, quem sabe, seja isso que separa os homens dos meninos. Sant, entretanto, ainda não tem uma resposta exata para esse questionamento, justamente por ainda viver a dualidade entre o que precisa ser dito e o que não pode ser ignorado. “Difícil responder, porque ainda choro no banheiro. Ainda não quero me mostrar fraco para a minha esposa, para o meu sogro ou para a minha sogra. Mas sei que devemos continuar falando sobre isso e usar a música como ferramenta”, finaliza.
