
Todas as vezes que choveu, parou. Essa célebre frase que, vez ou outra, viraliza na internet, mostra o quanto a vida, mesmo passageira, ainda pode ser esperançosa. No entanto, mais do que esperança, Rashid traz para o seu mais novo disco Cumulonimbus a importância das tempestades que ajudam a organizar os ambientes e fazer com que o jardim da arte possa florescer. Em uma aula de maturidade lírica, o artista mergulha em novas texturas e identidade sonora. Além disso, e não menos importante, ele não se esquece de preservar as próprias raízes.
A escolha do título Cumulonimbus carrega múltiplas camadas conceituais. Além de remeter às formações de nuvens associadas a tempestades severas, o termo científico também foi utilizado como uma metáfora de reflexão. "Descobri nas minhas pesquisas que nimbus pode significar aura, e que cúmulo é o extremo de algo. Então, o disco é sobre o resgate dessa 'aura extrema', do legado da cultura que nos salvou", revela.
"É o rap fechando o tempo. Em vez de fazer um disco reclamando do que acho que falta na cena atual, preferi oferecer essa densidade e deixar que o público sinta essa presença”, complementa Rashid. Entre a ansiedade natural de entregar uma nova obra e o orgulho incontestável pelo resultado obtido, o rapper vive a expectativa de jogar mais uma criação ao mundo. Obra essa que, até agora, foi a trabalhada com a menor pressa possível.
Afinal, de acordo com ele, o caminho até o produto final exigiu paciência. Embora cerca de 90% do disco estivesse estruturado já no fim do ano passado — fruto de um processo criativo iniciado em agosto em parceria com o diretor musical Grou — foi nos pormenores da pós-produção que o álbum ganhou contornos definitivos.
"Ouso dizer que foi um dos meus discos mais demorados, principalmente porque a pós-produção foi bem extensa. Faltavam algumas peças no quebra-cabeça. Depois que reunimos tudo, fomos abrir faixa por faixa para trocar timbres, adicionar guitarras, scratches e corais. A gente tinha um objetivo sonoro muito claro e resolveu se debruçar sobre ele até encontrar”, ressalta o artista paulista.
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Contemporâneo, mas com raízes
O objetivo sonoro buscado com tanto afinco pelo rapper traduz um resgate consciente de intenção: recuperar o impacto emocional que o hip-hop nacional da virada dos anos 1990 para os 2000 provocava, período em que ele se debruçava na cultura como ouvinte, sem cair na armadilha da mera nostalgia. A acolhida ao single de trabalho, a faixa Yowa, confirmou a sintonização imediata com a proposta.
"O resultado é uma junção da métrica ágil, da rima sagaz e da profundidade social com a pressão grave das baterias modernas. Eu queria provocar o mesmo tipo de emoção daquela época, mas com uma sonoridade feita hoje. É uma música carregada de legado", explica. E é nessa contemporaneidade recheada de passado que a beleza do agora se firmou. Em uma mistura de ontem com hoje, um prato que sacia a fome daqueles que acordam e desejam ‘vencer na vida’.
A proposta do disco, nada mais diferente do que isso, é não somente o impacto que ele terá, mas a terra fértil que vai encontrar para plantar novos começos. Entre a pluralidade de ritmos que atravessam o projeto, que transita entre o peso lírico, pautas sociais urgentes e passagens mais cadenciadas, o ponto alto se consolida no resgate de laços históricos. A parceria com Projota e Emicida celebra uma sinergia duradoura na cena nacional. Para Rashid, reunir os companheiros de jornada vai muito além de uma participação especial: trata-se de reafirmar a coletividade dentro da cultura hip-hop.
"O rap sempre propôs o senso coletivo, algo que fomos perdendo ao longo do tempo. Reunir a gente traz essa amizade e vira o melhor tipo de desafio mental. Falei para os dois que, daqui para a frente, é inaceitável lançar um disco sem eles", pontua o rapper, citando como referência a cumplicidade contínua de nomes do rap internacional como Eminem, Dr. Dre e 50 Cent.
Apesar de compartilharem a mesma escola, alimentada por referências como Mano Brown, Marechal, Sabotage e a herança da rima da Zona Norte de São Paulo, cada integrante imprime uma marca singular ao projeto. Para o artista, Projota é aquele músico que espelha sensibilidade e discorre sobre vivências íntimas e familiares como ninguém. Já Emicida é a ponte poética, elegante e sofisticada, comparável a grandes nomes da MPB.
Passado e o futuro presente
Refletindo sobre a troca contínua com as novas gerações, Rashid reforça que a transmissão de conhecimento é o pilar central do hip-hop, fruto das diásporas africana e latina. Mostrando, assim, que aprender com os que vieram é tão necessário quanto observar aqueles que estão chegando. Na avaliação do rapper, o tempo na cultura não é linear e a função do artista no presente é servir como mediador entre eras.
"Olhar para trás é tão fundamental quanto olhar para a frente. Quem está no presente funciona como uma ponte entre o passado e o futuro", afirma. "Quando cheguei ao rap, tinha 20 anos de história pregressa para estudar. Quem chega hoje tem 40. O passado vai ficando mais distante e difícil de acessar se a gente não fizer o esforço de trazê-lo para o presente. A gente passa o conhecimento para evitar que cometam os mesmos erros, mas também aprende muito sobre como a molecada enxerga o mundo e a nossa trajetória."
Com mais de duas décadas de trajetória, Rashid também testemunhou as profundas mutações da indústria musical, da transição da venda direta de CDs físicos nos encontros de rua ao advento das redes sociais e ao modelo atual regido pelas plataformas digitais e seus algoritmos. Com isso, observa com lucidez os dilemas enfrentados por quem busca construir uma carreira consistente em meio à avalanche diária de lançamentos globais.
"As plataformas impuseram uma nova dinâmica que acabou virando uma máquina que tritura o pequeno artista. O artista médio, aquele midstream do período pré-pandemia, hoje vive um gap: ou você fura a bolha e atinge números astronômicos para estar no topo, ou acaba sendo empurrado de volta para a margem", analisa. Diante do desafio de encontrar espaços ou ceder à ansiedade dos formatos virais, Rashid defende a busca por métodos autênticos de comunicação com o público real.
"O grande erro de hoje é tentar falar com todo mundo e acabar não falando com ninguém. É preciso encontrar sua postura, saber quem é o seu público, mirar nessas pessoas e seguir firme. O mercado mudou, mas o entendimento sobre o valor da cultura é o que permanece”, acredita. E dessa forma, Rashid, que já não precisa reafirmar o próprio nome no templo do rap brasileiro, ilustra com letra, postura e poesia que a estrada feita para chegar neste lugar de satisfação não é um território terrestre: é um sentimento. E nisso, Cumulonimbus é primoroso.

Diversão e Arte
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