Há uma década, quando começou a publicar fragmentos de sentimentos e dores nas redes sociais sob o nome Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente (TCD), o escritor Igor Pires jamais imaginou que ultrapassaria a marca de um milhão de exemplares vendidos. Vindo da periferia de Guarulhos e criado em uma família com poucas expectativas econômicas, o autor relança a obra de estreia em uma edição especial, celebrando não apenas o sucesso de vendas, mas a permanência de sua voz na literatura contemporânea.
"Nesses dez anos, primeiro que quando eu comecei a escrever, eu não achei que eu fosse chegar aqui. A gente nunca acha", confessa Igor Pires. Para ele, resistir na literatura sendo um homem gay e racializado é um ato inerentemente político. "Pessoas que vêm do lugar de onde eu vim, da favela, da periferia da cidade, poderem chegar nesse lugar de autoridade para falar sobre poesia, acredito que é muito político e é muito importante."
A jornada, no entanto, exigiu encarar fantasmas do passado. Mais do que isso, revisitar lugares que, naquela época, eram desconfortáveis. Ainda menino na poesia, mas com sonhos gigantes e selvagens. Assim, o processo de revisão do primeiro livro para a nova edição obrigou o escritor a confrontar a própria imaturidade e a rigidez com que costumava julgar seu início.
"Para isso acontecer, tive que sentar na cadeira e falar: 'então você vai ter que reler o primeiro livro, você vai ter que voltar dez anos atrás para tentar entender quem era você'. Eu não me permito olhar para minha jornada e refletir sobre o caminho que tracei. Tive que pegar o livro, me incomodar com muitas das coisas que escrevi, e mais do que isso, ir para terapia arranjar um jeito de me reconciliar com essa pessoa que eu era”, revela o escritor.
O reencontro com a escrita
A cobrança constante e a sensação de "nascer dentro de um oceano precisando se salvar" cobraram um preço alto ao longo dos anos. Por vezes, teve dificuldade de vestir a roupa de escritor. De se olhar no espelho e celebrar tudo aquilo que estava e está conquistando. Com isso, Igor revela que, em meio às métricas digitais e à rotina do mercado editorial, chegou a perder o entusiasmo pela criação.
"Teve um momento da minha vida que eu perdi o tesão de escrever. E eu acho que eu estou recuperando ele, recuperando a minha vontade de escrever. Parece que estou me apossando de algo que em algum momento eu perdi, mas que na verdade é meu. Eu comecei tão seguro do que eu queria, e aí a gente vai envelhecendo, tentando se encaixar, cedendo, se apequenando."
O resgate dessa paixão passou pelo contato direto com os leitores em feiras e bienais — momentos que o autor define como artesanais e humanos em oposição à frieza das redes. É nesse contato humano que, de alguma forma, ele relembra e tem ciência de tudo o que tem construído.
"A internet dá uma sensação de que a gente está muito próximo, mas acho que ela nos coloca em lugares muito distantes. Nada é mais valioso do que você olhar no olho de alguém e ver o sorriso. Quando você faz um livro que uma pessoa leu, chorou, teve uma relação quase transcendental e te fala isso, muda tudo. Eu me sinto amado. Eu sempre fui muito carente, e Deus me deu exatamente o que eu sempre quis”, acrescenta.
A política de sonhar o absurdo
Ao olhar para a década que se passou e para os próximos passos da carreira, Igor Pires resume sua filosofia de vida e criação a partir de uma provocação sobre como resistir às pressões sociais e ao pragmatismo do cotidiano. Mostra que, seja na poesia ou em qualquer área da vida, o que vale mesmo é não deixar de querer o extraordinário. Pois, só assim, há de se viver uma vida realmente bonita e valiosa.
"A coisa mais divertida que a gente pode fazer, e ao mesmo tempo mais política, é sonhar o absurdo. A possibilidade de sonhar com o absurdo é o que vai fazer com que a gente tenha vidas extraordinárias. O sistema é feito para que a gente se forme como uma grande massa, onde ninguém tem direitos. As pessoas com as vidas mais extraordinárias são as que não cedem ao sistema ou que conseguem sonhar com o absurdo e executar o sonho”, acredita.
Com o relançamento do primeiro volume e a padronização das identidades visuais de suas obras pela Globo Livros, Igor Pires não apenas celebra dez anos de história, mas faz as pazes com o jovem de 21 anos que ousou escrever sem saber onde iria chegar. "Estes dez anos são dez anos em que estou me pegando no colo e finalmente celebrando. É uma vitória", conclui.
