Literatura

Ana Miranda participa da estreia do Clube de Leitura do CCBB em Brasília

Depois de cinco anos de experiência no Rio de Janeiro, o projeto chega a Brasília com uma convidada que tem tudo a ver com a cidade

Escritora Ana Miranda -  (crédito: Divulgação)
Escritora Ana Miranda - (crédito: Divulgação)

Escolher um escritor, votar num título, ler em conjunto, debater e, por fim, contar com a voz do próprio autor para refletir sobre o livro é a proposta do Clube de Leitura do Centro Cultural Banco do Brasil. Depois de cinco anos de experiência no Rio de Janeiro, o projeto chega a Brasília com uma convidada que tem tudo a ver com a cidade. Na quarta-feira, os leitores e o público interessado têm um encontro marcado com Ana Miranda para a estreia do clube em Brasília. A curadora Suzana Vargas selecionou três títulos — Mundo, mundo, Boca do inferno e Dias & Dias — e o público escolheu, em uma votação on-line, o romance Boca do inferno, uma espécie de biografia do poeta Gregório de Matos. "Eu quis abrir com uma autora considerada brasiliense, embora não tenha nascido em Brasília, e quis chamar a atenção para a cidade e para uma grande autora", explica Suzana. "E também apresentar novos nomes de Brasília, então vamos ter quase sempre a participação de um novo autor da cidade junto com os convidados. É uma forma também de divulgar novos escritores." Andressa Marques, autora de A construção, divide o palco com Ana Miranda. 

Clubes de leituras são lugares meio míticos nos quais o título escolhido é esmiuçado e simbolicamente reescrito nas mais diversas versões, a depender do olhar e da maneira como cada leitor conta e reconta a narrativa. "Muitos mitos, muitas fábulas, lendas são abordados ali, como em um ritual sagrado, no caso de ser um clube de leituras elevadas, de literatura, certos livros são capazes de nos levar a dimensões incríveis", diz Ana Miranda. 

Fique por dentro das notícias que importam para você!

O formato  proposto pelo CCBB é aberto, e qualquer pessoa pode tirar o ingresso para participar. O encontro tem início com uma apresentação do autor, que faz leituras de trechos da obra escolhida e fala um pouco sobre o livro. Em seguida, a discussão é aberta para a plateia, que pode fazer perguntas diretamente aos autores. 

Suzana Vargas idealizou o clube do CCBB do Rio durante a pandemia e o projeto fez tanto sucesso que os encontros continuam até hoje, agora também com autores estrangeiros. O CCBB Brasília se interessou pelo formato e decidiu criar o próprio clube. Num país com índices baixíssimos de leitura, é curioso que as pessoas queiram se reunir para falar sobre livros. "Acho que as pessoas gostam de se encontrar presencialmente, uma leitura determinada reúne as pessoas para compartilhar ideias e leituras", acredita Suzana. A diferença do clube do CCBB é o contato com o autor. "E isso é importante, as pessoas têm a oportunidade de conversar com ele sobre determinado livro. Têm esse desejo de compartilhar ideias e encontrar o autor com se fosse um show", diz Suzana.

Entrevista - Ana Miranda

Autora de nove romances, quatro livros de poesia e duas biografias, Ana Miranda é também uma das escritoras mais premiadas do país, com três prêmios Jabuti, dois da Academia Brasileira de Letras e um da Biblioteca Nacional. Com uma escrita afetiva e extremamente lírica, ela constrói narrativas que mesclam fatos históricos e universos ficcionais na construção de mundos  povoados  por personagens que se tornam míticos e íntimos ao mesmo tempo.

Lançado em 1989, Boca do Inferno foi a estreia de Ana no romance e fez enorme sucesso ao contar, de uma maneira muito particular, a vida do poeta Gregório de Matos.  "É o meu romance mais conhecido e mais apreciado pelos leitores, esse balzaquiano, tem a força de uma década de sofrimentos criativos", explica. Mas o lançamento mais recente da  autora, título que também estava na lista de votação para o clube do CCBB, é Mundo, mundo, fruto de um sonho e de um medo. "É um romance que demorei duas décadas escrevendo, entre paixão e dilemas, e estou fascinada por ele. Seu motivo principal é a construção versus a destruição", avisa. Ana, que conversou com o Correio sobre o livro e sobre a experiência do clube.

Qual a vantagem, na sua opinião, de se ler um livro em um Clube de Leitura? E como um clube de leitura pode ajudar a formar novos leitores?

Eu, a leitora, leio em muita intimidade com o livro, preciso do silêncio, da solidão, quase à porta de entrada dos sonhos. Mas fui algumas vezes ler trechos de meus livros em clubes de leitura, é mesmo uma reverência generosa de leitores, a maioria leitoras, senti-me como em um encontro de feiticeiras encantadas numa clareira ao luar, sempre pessoas apaixonadas por livros, as fantasias se processando em conjunto, as amizades, as trocas, isso é uma coisa linda, e antiga, lembro da história contada por José de Alencar, ele era leitor quando criança, lia para senhoras enquanto comiam bolinhos e tomavam chocolate, um dia o padre entrou na sala e estavam todas elas aos prantos, "teria acontecido alguma tragédia?", o padre perguntou, e logo percebeu que choravam pelo sofrimento de uma personagem. As vidas dos livros são vividas ali, como realidades. Muitos dos participantes são novos leitores que se fascinam pelos outros fascínios, ou são pessoas solitárias que encontram afeto e companhia, uma excelente leitora pode arrastar consigo uma legião de novas leitoras.

Você sempre participou muito  de feiras, bienais e conversas com o público. Qual o lugar desses encontros na maneira como você encara o ofício da escrita? 

Quando era jovem participava bastante desses encontros e conversas, foi assim que perdi a timidez, aprendi a me expressar em público, foi importante para mim, também, ver o rosto de alguns de meus leitores, ouvir suas interpretações, perceber seus sentimentos, porque cada leitor reescreve o livro segundo sua visão de mundo.

O ofício da escrita se realiza na solidão, é você consigo mesmo, a criação literária, a composição de uma obra literária é tão complexa que nenhum outro ser humano pode ter a profundidade e amplidão de conhecimento dos aspectos contidos naquela criação, nem te ajudar a decidir nada, é você e você e mais ninguém, então, depois de ouvir pessoas que leram e foram capazes de comungar com aqueles mundos, alivia um pouco o sentimento de solidão do escritor. Lembro a adolescente que chorou porque a Feliciana se entregava ao amor carnal com o professor Adelino, ela não aceitava, não queria, eu percebi ali, e em outros casos como esse, o quanto a ficção tem o poder de realidades. E o quanto há sensibilidades envolvidas.

Como nasceu Mundo, mundo?  

Ele nasceu de um sonho meu, em que os meus livros queimavam numa fogueira, eu estava sem meus livros havia meses, sentia muito a sua falta, e essa ausência criou o sonho. Anotei-o, e fui tomada por uma avalanche de cenas, personagens, lugares, mundos, tudo se entrelaçando em histórias de amor, buscas, dilemas, traição, dramas e tragédias humanas, como as guerras porque assisti aos bombardeios contra o Iraque, caíam bombas sobre cidades, pessoas, crianças, igrejas, também sobre bibliotecas, sobre uma memória fundamental para a humanidade, e fui realizando uma história das tentativas de destruição dos livros perpetradas pela humanidade, desde a biblioteca de Alexandria, antes de Cristo, à fogueira nazista de livros "degradados", às fogueiras do Estado Novo queimando livros de Jorge Amado, Gregório de Matos, José Lins do Rêgo. Parece que a humanidade está sempre retornando a essa sanha destruidora, que esbarra na força da criatividade humana feita de fé e amor. Os livros, como a memória, são indestrutíveis.

Como a pesquisa histórica alimenta o seu processo criativo?

Nem chamo de pesquisa histórica, mas de viagens pelo tempo, pelos lugares, viagens que acontecem com a máquina do tempo que é a palavra. Lembro que Vladimir Carvalho me pediu para ler uma carta que eu tinha escrito para minha mãe, num depoimento para um de seus magníficos documentários, o Barra 68, sobre a invasão da UnB. Foi uma experiência impressionante, à medida que eu lia aquelas frases adolescentes, aquelas palavras ultrapassadas, eu ia me transportando no tempo, e percebi nitidamente como a palavra aprisiona o tempo. A palavra é um fenômeno, uma construção mágica, é a consciência que faz de nós humanos e nos dá conhecimento do espírito. O processo criativo, seja com a palavra, seja com as cores, ou os sons, ou as estrelas, ou as descobertas, é sempre alimentado de vida, sentimentos, memórias, sofrimentos, dores, dedicação e entrega, sonhos, observação, coisas assim, mas sei que a literatura nasce da literatura, que os livros nascem de livros, e todos os livros do mundo são o mesmo livro, conforme a belíssima teoria de Jorge Luís Borges.

Você é cearense, viveu no Rio de Janeiro, em Brasília e em São Paulo e retornou ao Ceará: como essa vivência se reflete na sua construção narrativa e na escolha dos seus temas?

Um amigo meu que é espírita e medium me disse que sou um espírito velhíssimo, que vivi muitíssimas vidas, isso talvez explique a minha polifonia, sou realmente um ser polifônico e embora lute contra isso, nada mais posso fazer que aceitar. Uma vez o Raduan Nassar me perguntou se eu usava em meus livros: disse-lhe ou lhe disse? Respondi que dependia do livro, e ele se surpreendeu, Como assim? Percebi ali que os escritores têm o mesmo narrador, e gostaria de ser assim, nítida e sólida, como minha irmã Marlui Miranda, quase uma xamã indígena, mas sou fragmentada em mundos e mundos, apenas não criei heterônimos, como Fernando Pessoa, outro ser polifônico, dói ser polifônico, mas a incompreensão atinge também os outros, estou lendo a biografia do Guimarães Rosa, Deus do Céu, como ele foi incompreendido, mas o que resta de todos os embates é o livro.

Num clube de leitura, a diversidade geracional pode ser uma marca: como alimentar o diálogo intergeracional?

Tenho muitos leitores jovens, porque tive a sorte de meus livros criarem uma compreensão de universos em que surgiam fases literárias, como o Barroco ou o Romantismo, e os livros são adotados por escolas, universidades, entram em listas de vestibulares, e jovens se tornam meus leitores, ainda que a maioria vá debandar para outros mundos que não o literário. O importante é aprender a ler o mundo. Aprender a pensar. Eu acho tão fácil uma criança se encantar pelo livro, os professores fazem imenso esforço, mas eles mesmos não contam com uma tradição de leitura, a sobrevivência ainda é muito árdua para a maioria das pessoas, os jovens são alvos de campanhas de consumo, e raramente de campanhas educativas e literárias. Clubes de leitura podem ajudar a criar o amor pela leitura entre jovens, porque os jovens são gregários, criam naturalmente clubes.

Clube de Leitura CCBB Brasília - abertura da temporada

Com Ana Miranda e Andressa Marques.

Mediação: Suzana Vargas.

Na quarta-feira (7/10), às 18h30, no Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil Brasília (SCES Trecho 02 Lote 22).

Ingressos gratuitos, mediante retirada a partir das 12h do dia anterior.

Não recomendado para menores de 14 anos

 


  • Escritora Ana Miranda
    Escritora Ana Miranda Foto: Theo Van de Sande
  • Foto montagem de Ana Miranda
    Foto montagem de Ana Miranda Foto: Divulgação
  • Colagens da escritora Ana Miranda
    Colagens da escritora Ana Miranda Foto: Ana Miranda
  • Colagens da escritora Ana Miranda
    Colagens da escritora Ana Miranda Foto: Ana Miranda
  • Fotomontagem da escritora Ana Miranda para o livro Mundo, mundo
    Fotomontagem da escritora Ana Miranda para o livro Mundo, mundo Foto: Ana Miranda
  • Fotomontagem da escritora Ana Miranda para o livro Mundo, mundo
    Fotomontagem da escritora Ana Miranda para o livro Mundo, mundo Foto: Ana Miranda
  • Fotomontagens da escritora Ana Miranda para o livro Mundo, mundo
    Fotomontagens da escritora Ana Miranda para o livro Mundo, mundo Foto: Ana Miranda
  • Google Discover Icon
postado em 06/10/2026 06:00
x