
Bruno Sodré, especial para o Correio
Em entrevista exclusiva ao Correio Braziliense, o vocalista e guitarrista Abdallah Ag Alhousseyni, um dos membros mais antigos da banda Tinariwen, revisita a trajetória do coletivo e reflete sobre a relação entre novas tecnologias e o papel humano na circulação da música. O músico comenta o estilo conhecido internacionalmente como o blues do deserto, a abertura da banda a novas sonoridades e traz um panorama da cena musical na Argélia hoje, país onde a banda está exilada. Como não poderia ficar de fora, Abdallah trata do impacto internacional da banda na valorização da identidade tuaregue. Ele destaca que a força da música do Tinariwen está na poesia e que é papel do grupo retratar a cultura tuaregue pelos sentiumentos que afloram no dia a dia das pessoas, não somente no contexto de conflito e resistência.
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O Tinariwen é hoje um dos principais nomes do estilo conhecido como “blues do deserto”. Vocês se identificam com esse termo ou preferem outras definições, como assouf e tishoumaren, para descrever a música tuaregue contemporânea tocada com guitarras elétricas?
“Blues do deserto” é uma expressão útil porque as pessoas em qualquer lugar conseguem entender mais ou menos o que ela significa, mas não é exatamente o nome que demos à nossa música. Para nós, chamamos de assouf. Assouf não é fácil de traduzir com exatidão. É nostalgia, saudade, a sensação de sentir falta de algo, de estar longe de casa ou das pessoas que você ama. É um sentimento muito ligado ao deserto, mas também ao exílio. Tishoumaren está mais ligado à história da geração ishumar. Eram jovens tuaregues que deixaram suas casas durante as secas e os problemas políticos e que viajaram entre Mali, Argélia e Líbia. A música de guitarra se desenvolveu bastante com essa geração. Portanto, essas palavras vêm da nossa própria história e da nossa própria experiência.
Mais tarde, quando pessoas de fora nos disseram que nossa música soava como blues, entendemos por que diziam isso. Há algo semelhante no sentimento — exílio, sofrimento, nostalgia, estar longe de casa. Portanto, não temos problema com a expressão “blues do deserto”, mas “assouf” provavelmente está mais próximo da maneira como nós mesmos sentimos e entendemos essa música.
Como um povo em constante movimento, os tuaregues mantiveram contato com muitas culturas diferentes. Seguindo esse caminho, o Tinariwen incorpora influências de diversas regiões e desenvolve colaborações com artistas internacionais. Como vocês equilibram tradição e inovação no som de uma banda com quase 50 anos de história?
Para nós, tradição e modernidade não são necessariamente coisas opostas. O Tinariwen já partiu de algo novo. Pegamos a música e os ritmos que já existiam na cultura tuaregue e começamos a tocá-
los com guitarra elétrica. A base já estava lá antes de nós: poesia, melodias, ritmos do tende e de outras músicas tradicionais. Grande parte dessa tradição musical também foi transmitida pelas mulheres. A guitarra foi mais um instrumento e mais uma forma de expressar as mesmas coisas. Sempre ouvimos música durante nossas viagens. Mais tarde, quando começamos a viajar mais internacionalmente, também conhecemos músicos de vários países. Quando colaboramos com alguém, preferimos que isso aconteça de forma natural. O músico ouve a música e traz algo de si mesmo, mas sem transformá-la
completamente. O importante é que a raiz permaneça lá. Para nós, essa raiz é a língua tamasheq, a poesia e a realidade do nosso povo. Os instrumentos podem mudar, os arranjos podem mudar, mas o
espírito não precisa mudar. Às vezes, instrumentos modernos e a tecnologia podem até ajudar a manter viva uma tradição. O Hoggar também está seguindo nessa direção. Queríamos voltar a algo bastante simples em nossa música, mas, ao mesmo tempo, trabalhar com músicos tuaregues mais jovens que darão continuidade a essa música à sua maneira.
O Tinariwen tem vivido no exílio na Argélia e gravou seu novo álbum em Tamanrasset, uma cidade de grande importância para a cultura tuaregue que abriga várias bandas, incluindo o Imarhan. Como é a cena musical em Tamanrasset, e como os músicos da região interagem e trocam ideias entre si?
Tamanrasset sempre foi um ponto de encontro para o povo tuaregue. Pessoas da Argélia, do Mali, do Níger ou da Líbia passam pela cidade, e muitos de nós também passamos uma parte importante da nossa juventude lá. Portanto, há muito tempo que pessoas, canções e ideias circulam por Tamanrasset. Algo novo e muito importante é ter um local de gravação de verdade, como o Aboogi, o estúdio criado pelo Imarhan. Antes, os músicos podiam se encontrar e tocar juntos, é claro, mas não havia muitos lugares ou equipamentos para gravar adequadamente e preservar essa música.
Durante a gravação de Hoggar, as pessoas vinham ao estúdio o tempo todo. Velhos amigos, ex-membros do Tinariwen, músicos do Imarhan, jovens músicos, cantores. Não era muito organizado, e
isso também era legal. As pessoas chegavam, ouviam, tocavam alguma coisa, e a troca acontecia naturalmente. Isso é importante não só para o Tinariwen. Um estúdio pode fazer com que diferentes gerações se encontrem e também pode ajudar a gravar canções tradicionais, música de flauta, imzad, vozes femininas e outros tipos de música antes que algumas dessas coisas desapareçam.
Mas, economicamente, a situação ainda é difícil. Os shows em Tamanrasset não rendem muito dinheiro, e os jovens músicos nem sempre têm dinheiro suficiente para gravar. Portanto, há muita
energia e talento, mas ainda falta infraestrutura e apoio.
Suas letras evocam um rico universo visual ligado ao deserto e à vida nômade. O uso da animação em seus videoclipes recentes surgiu como uma forma de superar a barreira do idioma, ou foi principalmente uma escolha estética para retratar o cotidiano e a cultura tuaregue?
Provavelmente ambas as coisas. Nunca achamos que as pessoas precisassem entender cada palavra em tamasheq para sentir a música. Tocamos por muitos anos diante de pessoas que não entendem nossa língua de forma alguma, mas que ainda assim conseguem sentir algo por meio da voz, da melodia, do ritmo e dos instrumentos. É claro que a tradução pode ajudar as pessoas a entender do que a
música está falando, mas nunca consegue traduzir completamente a poesia. Há algumas coisas que são muito difíceis de transmitir de uma língua para outra.
A animação oferece outro tipo de linguagem. É possível mostrar o deserto, as memórias, o deslocamento, a infância ou diferentes aspectos da vida tuaregue sem tentar traduzir cada frase da
música. Nossa colaboração com Axel Digoix começou há alguns anos, com os vídeos de “Ténéré Tàqqàl” e “Nànnuflày”. Para “Erghad Afewo”, a animação foi uma forma de contar a história de crianças que
crescem em um deserto onde há conflito e que, por fim, encontram uma maneira de se expressar por meio da música. Então, sim, é uma escolha estética, mas também pode ajudar as pessoas a entrarem mais facilmente no mundo da música. Mas as imagens não substituem as palavras. A poesia em tamasheq continua sendo o centro.
As canções do Tinariwen revisitam histórias do passado com o objetivo de inspirar um futuro melhor. Que impacto a projeção internacional da banda teve sobre a causa e a identidade do povo tuaregue?
Quando começamos, nunca imaginamos que essa música pudesse dar a volta ao mundo. Naquela época, não havia internet, e não pensávamos em seguir uma carreira internacional. As músicas circulavam de um acampamento para outro em fitas cassete porque as pessoas reconheciam suas próprias vidas e seus próprios problemas nessas canções. Hoje é muito diferente. Pessoas que moram bem longe do Saara sabem algo sobre a música tamasheq e a cultura tuaregue. Há também uma geração mais jovem de músicos tuaregues, vindos de diferentes partes do Saara, que agora viajam e se apresentam
internacionalmente. Se o Tinariwen ajudou um pouco a abrir essa porta, é claro que ficamos felizes. Mas o reconhecimento internacional não é a mesma coisa que resolver problemas políticos. Muitos temas sobre os quais já cantávamos na década de 1980 — exílio, insegurança, perda de um modo de vida, o futuro do nosso povo — ainda existem hoje. Dessa forma, nossos álbuns também são como um registro dessa história. Ao mesmo tempo, nunca quisemos que o Tinariwen se tornasse apenas uma mensagem política ou propaganda. A música fala sobre memória e resistência, sim, mas também sobre amor, amizade, solidão, natureza e poesia. Nosso papel é falar sobre a vida que conhecemos. Talvez, depois de ouvir, as pessoas fiquem curiosas e entendam que a cultura tuaregue é muito maior do que apenas guerra ou conflito.
Qual é a situação atual dos músicos no norte do Mali? A música do Tinariwen ainda é considerada subversiva na região?
Hoje, a situação é muito difícil, pois o problema vai muito além da música. O conflito e a insegurança deslocaram muitas pessoas, incluindo membros do Tinariwen, e agora passamos muito mais tempo no sul da Argélia. Diferentes organizações independentes de direitos humanos relataram graves abusos contra civis cometidos por diversos lados do conflito, incluindo as forças malinesas e seus aliados russos,
mas também grupos armados islâmicos. Numa situação como essa, torna-se muito difícil ter uma vida cultural normal. Antes de discutir se a música é subversiva ou não, as pessoas precisam, antes de tudo, pensar em segurança, viagens, família e vida cotidiana. A música continua, é claro, mas as condições são muito complicadas.
Numa época em que o controle de fronteiras se tornou uma questão central no debate político global, a banda continua a viajar pelo mundo, levando uma mensagem de união e paz. Vocês ainda percebem uma abertura crescente em relação a artistas musicais de fora do eixo Europa–Estados Unidos nos festivais internacionais?
Em comparação com o período em que começamos a fazer turnês internacionais, o mundo está certamente mais aberto. No início, muitas pessoas que vinham nos ver já se interessavam por música africana ou pela chamada “música mundial”. Depois de algum tempo, começamos a ver públicos diferentes: fãs de rock, jovens, pessoas que não sabiam quase nada sobre o Mali ou a cultura tuaregue.
Mas não acho que seja algo que sempre siga em uma única direção. Durante os anos 2000, por exemplo, havia um interesse muito forte pela música da África Ocidental na Europa e na América
do Norte. Hoje, a atenção mudou um pouco. A música africana talvez esteja mais visível globalmente do que antes, mas a indústria musical e o público às vezes estão mais voltados para outras correntes, como o Afrobeats ou o Amapiano. Os músicos da África Ocidental continuam fazendo turnês e colaborações, mas a atenção se desloca de um lugar para outro. Para nós, algo ainda é muito surpreendente e bonito: podemos chegar a um lugar extremamente distante do Saara, cantar apenas em tamasheq, e há pessoas que se sentem conectadas com a música.
Viajamos internacionalmente há mais de vinte anos, e todos esses encontros com músicos, públicos e também comunidades indígenas em diferentes países também nos transformaram.
Vocês veem algum paralelo entre as dificuldades que enfrentaram ao divulgar sua música no início da carreira, usando fitas cassete e cartões SIM, e os desafios que as plataformas de streaming e os algoritmos das redes sociais representam hoje?
A tecnologia é completamente diferente, é claro, mas talvez ainda haja um paralelo. No começo, nosso maior problema era o acesso. Não havia indústria musical ao nosso redor e, obviamente, nem internet. Alguém podia chegar com uma fita cassete vazia, a gente gravava algumas músicas para ele e, depois disso, a fita podia viajar centenas de quilômetros. Então, outra pessoa a copiava, e depois
outra ainda. Mais tarde, os celulares e os cartões de memória se tornaram outra forma de a música circular pelo Saara. Não era uma distribuição oficial, mas funcionava. A rede das fitas cassete era algo muito humano. Alguém ouvia uma música, achava que era importante ou bonita e a passava para outra pessoa. Ainda acreditamos muito nessa forma de compartilhar música. Hoje as ferramentas são diferentes, e talvez haja muito mais música disponível em todos os lugares, mas, no fim das contas, o importante continua sendo o mesmo: uma pessoa ouve algo, sente-se conectada a isso e quer compartilhar com outra pessoa. A tecnologia continuará mudando. Mas a música continua porque as pessoas decidem levá-la consigo.
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