Crítica

O homem que estava lá: confira crítica do filme sobre Zuenir Ventura

Documentário de Zelito Viana deposita as fichas no carisma, na singularidade e na unanimidade do autor que passou a limpo grande parte da história do Brasil

Uma vida passada a limpo: Mestre Zu, de Zelito Viana     -  (crédito: Mapa Filmes/Divulgação)
Uma vida passada a limpo: Mestre Zu, de Zelito Viana - (crédito: Mapa Filmes/Divulgação)

Crítica // Mestre Zu ★★★★

Um pensador do Brasil, com a capacidade da organização em livros — sob esse conceito de Míriam Leitão, uma das entrevistadas em Mestre Zu, a inteligente unanimidade chamada Zuenir Ventura ocupa o mais novo documentário assinado por Zelito Viana. Agente espirituoso, o autor de 1968: o ano que não terminou (na última entrevista concedida), morto em setembro passado, pontua o filme com tiradas como a em torno da amizade ser mais resistente ao tempo do que o amor; uma vez que a amizade verdadeira viria livre da "ditadura da libido" e descolada da chancela de exclusividade.

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Zuenir vinha embalado sob a "fatalidade do nome", como ele cunha, e se desdobra, no decorrer do filme, em vertente multifacetada: é saudado como o guru generoso de gerações de colegas jornalistas, como o homem de "curiosidade obstinada", atento a inovações como o jornalismo literário (e o "novo jornalismo", de meados dos anos 1960, injetado em vistosos alunos como Nelson Motta) e, ainda, como um detentor rigorosa métrica ética. O filme, aliás, investe num curioso episódio, quando da visita de um Papa à aterro carioca. Houve impasse quanto ao número de presentes na multidão, e lá teria ido Zuenir com rolo de barbante na mão, sozinho, a fim de calcular, numa estimativa, no grosso científico e técnico, quantas pessoas estiveram por metro quadrado.

No filme, há quem se esforce para esboçar um Zuenir austero e rígido, capaz de cobrar maior rendimento de cada jornalista, mas o consenso é o de um escritor repleto de "conteúdo e leveza". Com medo de cobra e pavor de floresta, entre os feitos, Zuenir se aplicou na reprodução (na escrita) da grandeza de conflitos ambientais que tocaram a vida e morte de Chico Mendes, numa "experiência existencial reveladora" (pelo que definiu). O filme ainda desenvolve o esforço do pensador em integrar água e óleo do Rio de Janeiro, no miolo do livro Cidade Partida, vencedor do prêmio Jabuti 1995 (Melhor Reportagem). Precursor do termo "guerra civil" (concernente ao tráfico), Mestre Zu comparece, a dado momento da trama para expressar "como era boa a liberdade comportamental", seguinte à opressão ditatorial.

O filme de Zelito traz curiosidades inesperadas da personalidade focalizada, revelando o pendor pela escrita à mão em cadernos de capas infantis. Cacá Diegues é um dos entrevistados que atesta o papel do amigo de décadas como testemunha e autor dos escritos literários acerca do Cinema Novo. Pilhado e versátil, Zuenir ainda ocupa a tela do documentário ladeado pela curiosidade in loco em bailes funk, no interesse pelos seres humanos "excluídos". Engajado, a cada passo, Zuenir só faz o espectador do filme se deleitar, como quando Joaquim Ferreira dos Santos atribui a ele, como agente social, o inicial uso do termo "amizade colorida"; ao que segue a explicação de Zuenir para o vocábulo: "(alguém numa relação) sem engajamento afetivo".

 

 

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postado em 22/10/2026 17:45
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