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O ator brasiliense Rainer Cadete fala sobre arte, memória e herança

No ar em "Quem ama cuida", o ator brasiliense fala sobre a composição para o trabalho atual, que reforça a parceria longeva com Walcyr Carrasco. Rainer Cadete revisita as próprias origens e descobre na paternidade de Pietro, 18 anos, novos caminhos

Rainer Cadete tem um olhar atento para as contradições humanas. Ator de múltiplas possibilidades, ele transita entre o humor e o drama, a extravagância e a delicadeza, sem perder de vista o que existe de mais interessante em seus personagens: o que os torna humanos. Em Quem ama cuida, novela de Walcyr Carrasco e Claudia Souto, ele vive César, um dermatologista estético conhecido como o rei do “bumbum de pêssego”, profissional que transforma a busca pela beleza em negócio e faz da própria imagem uma vitrine de seu trabalho. Em uma sociedade cada vez mais submetida aos filtros, à harmonização facial e à promessa de juventude permanente, o personagem encontra um terreno fértil para discutir os limites entre autoestima, saúde e idealização do corpo.

A construção de César começa longe dos consultórios de ficção. Para compreender a rotina e as responsabilidades do médico, Rainer conversa com profissionais da área e conhece tecnologias utilizadas em procedimentos estéticos. A pesquisa revela um universo de possibilidades, mas também diferenças importantes entre quem trabalha com responsabilidade e quem se deixa seduzir pela promessa de resultados a qualquer custo. “O César é um médico responsável, comprometido com produtos seguros e com a saúde dos pacientes”, afirma o ator de 39 anos.

A escolha por um dermatologista estético, e não por um cirurgião plástico, também ajuda a delimitar o personagem. César não pretende necessariamente transformar rostos e corpos, mas realçar características e preservar a identidade de quem procura seus serviços. “Ele acredita muito no que vende porque vende resultado, mas preza pela naturalidade. Trabalha com tecnologias que estimulam o colágeno e realçam a beleza, sem transformar ou descaracterizar a pessoa”, explica Rainer, que emendou a atual trama das 21h com Êta mundo melhor, continuação de Êta mundo bom (2016) — ambas de Walcyr Carrasco —, vivendo pela segunda vez, o vilão Celso.

Fotos: Globo/Divulgação - No ar como César em Quem ama cuida

Por enquanto, Rainer Cadete prefere não atribuir à novela uma intenção crítica que a trama ainda está desenvolvendo. Para ele, César funciona sobretudo como um retrato do tempo presente, de uma sociedade na qual a aparência ocupa espaço crescente nas relações pessoais e profissionais. O médico reúne conhecimento técnico, capacidade empresarial e domínio das redes sociais, características que ajudam a explicar sua projeção. Mas, na visão de Rainer, a competência profissional precisa caminhar ao lado da responsabilidade com o paciente.

“A verdadeira responsabilidade de um médico não está apenas em dominar um procedimento. Está em compreender o paciente, avaliar os riscos e saber, inclusive, quando não fazer”, pontua. A frase sintetiza uma preocupação que ultrapassa a construção ficcional: em um mercado no qual a insatisfação com a própria imagem pode se transformar em fonte permanente de consumo, reconhecer limites também faz parte do cuidado.

A medicina, aliás, não é uma escolha inteiramente estranha à história do ator. Filho de um pediatra, Rainer conta que também sonhou em seguir a profissão durante a infância. Interpretar César lhe permite, de alguma maneira, revisitar aquela possibilidade, agora com a experiência de quem conhece a potência da arte para investigar comportamentos, desejos e conflitos. A formação em psicologia também contribui para esse olhar, especialmente quando o trabalho exige compreender as motivações que estão por trás das atitudes dos personagens.

Manoella Mello/Divulgação - Rainer Cadete retornou como Celso em Êta mundo melhor!

Parceria de milhões

Essa dimensão ganha força na relação de César com Brigitte, personagem de Tatá Werneck, cuja perseguição ao médico desloca a parceria entre os atores para um território mais desconfortável. Conhecidos pela afinidade cômica, os dois precisam explorar agora outras nuances, em uma trama que combina humor, obsessão e tensão. É a terceira novela que fazem juntos, e Rainer não esconde a admiração pela colega. “A Tatá é uma artista muito estudiosa, uma referência no Brasil e uma grande atriz. Além de ser uma gênia do humor, tem recursos para explorar todas as nuances e camadas que uma cena pede”, elogia.

O desafio está em permitir que a comédia exista sem transformar o assédio em gesto romântico ou inofensivo. Para Rainer, a dramaturgia tem espaço para abordar questões delicadas sem reduzir seus personagens a diagnósticos ou justificativas. O passado de Brigitte, marcado pelo desamparo e por uma estrutura familiar fragilizada, ajuda a compreender suas contradições, mas não elimina a responsabilidade por suas escolhas. “Não para justificar suas atitudes, mas para compreender os buracos emocionais que essa história deixou nela”, observa.

O humor, nessa equação, não precisa desaparecer. Ele pode nascer da quebra de expectativa, da ironia e das situações absurdas, desde que não apague a complexidade do que está sendo contado. “Está na quebra de expectativa e na capacidade de rir de si mesmo, mas não é uma obrigação nem o objetivo principal. É apenas mais uma tinta para pintar esse quadro, que tem muitas cores e texturas diferentes”, diz.

É uma percepção que ajuda a entender a trajetória de Rainer, construída sobre a disposição de experimentar. Ao longo dos anos, o ator se tornou um nome recorrente nas novelas de Walcyr Carrasco, com quem soma oito trabalhos. A parceria — iniciada na primeira novela, Caras & bocas (2009), também escrita com Cláudia Souto — lhe oferece a oportunidade de explorar personagens muito diferentes entre si, sem se acomodar em uma fórmula de interpretação. “Não sei se sou um ator-talismã, mas já são oito novelas com o Walcyr, dentro de uma parceria construída com confiança, admiração, muito trabalho e um compromisso comum com o sucesso”, afirma.

Entre esses trabalhos, Visky, de Verdades secretas (2015) e Verdades secretas 2 (2021), ocupa um lugar especial. O personagem exigiu uma liberdade de corpo, voz e pensamento que ampliou os limites expressivos do ator e o levou a experimentar outras possibilidades de composição. César, por sua vez, aproxima-se mais de Rafael, de Amor à vida (2013), pela seriedade, pelo senso de responsabilidade e pela delicadeza nas relações. A comparação mostra que, por trás das diferenças de temperamento e de registro, Rainer procura identificar pontos de contato entre os personagens e a própria maneira de compreender o mundo.

Globo/Divulgação - O homossexual Visky em Verdades secretas 1 e 2

Raízes em Brasília

Essa capacidade de transformação tem raízes em Brasília, cidade onde nasceu e cresceu e à qual continua ligado, mesmo com a vida profissional estabelecida fora do Distrito Federal. A relação com a capital não se resume à memória afetiva de quem volta para visitar a família. Ela está associada também à formação artística, às oportunidades que encontrou quando ainda não tinha condições financeiras de pagar por um curso e à descoberta de que a arte poderia ser mais do que um sonho distante.

Rainer deixou o “quadradinho”, mas reconhece que a cidade permanece dentro dele. “Nunca perdi esse olhar largo de Brasília: o horizonte, o céu, os ipês, a arquitetura e os espaços que nos convidam a imaginar”, diz. A paisagem brasiliense, com seus vazios, suas distâncias e sua luminosidade particular, integra a maneira como ele percebe os lugares e constrói imagens. Mas a formação do ator também dependeu de encontros decisivos, especialmente com a professora e diretora Adriana Lodi, no Espaço Cultural Renato Russo.

Na época, ele saía de Samambaia, pegava dois ônibus até a Asa Sul e enfrentava mais de uma hora de trajeto, muitas vezes em pé, para frequentar o curso continuado. A dificuldade de acesso não impediu a persistência, mas tornou ainda mais importante a existência de um espaço de formação ao qual pudesse recorrer. “Foi uma fase dura, mas aquele encontro me apresentou, me iniciou e me preparou para a vida nas artes. De alguma maneira, possibilitou a vida que tenho hoje”, afirma.

A lembrança tem um significado que vai além da gratidão individual. Rainer reconhece nas políticas públicas de cultura uma porta de entrada para quem deseja trabalhar com arte, mas não dispõe de recursos para custear a própria formação. Sua trajetória guarda a marca desse investimento e da importância de instituições capazes de aproximar novos artistas de profissionais experientes. Anos depois, ele voltou à cidade para filmar Dia útil, das irmãs Diniz, com preparação de elenco de Adriana Lodi. O longa, que aborda a violência contra a mulher e conta com uma equipe majoritariamente feminina, representa um reencontro com as próprias origens.

“Foi muito simbólico retornar à cidade para fazer cinema ao lado de quem participou do início da minha formação”, comenta. A experiência também reforçou o desejo de participar de projetos que apresentem Brasília para além das imagens mais conhecidas. O ator sente falta de uma representação audiovisual que contemple a diversidade de histórias e experiências da capital, frequentemente reduzida aos monumentos, à Esplanada dos Ministérios e aos acontecimentos políticos.

“Brasília costuma aparecer como centro do poder, mas muito pouco como cidade vivida. Ela é muito maior do que os monumentos e o Plano Piloto. Existe o Guará, a Ceilândia, Samambaia Sul e Norte, cada lugar com seus personagens, sotaques, afetos, contradições e histórias”, observa. Para ele, a cidade oferece uma riqueza narrativa ainda pouco explorada pela televisão aberta. “Brasília pode ser mais do que cenário: pode ser personagem.”

Quando retorna, Rainer procura conciliar a contemplação da arquitetura com a intimidade dos encontros familiares. Gosta de se hospedar na Esplanada e acordar diante dos monumentos, mas faz questão de tomar um café ou um chá com Dona Ronalda, sua mãe, no Guará. Visita a irmã, os sobrinhos, os primos, os amigos de infância e os avós do filho, no Jardim Botânico. Também volta à W3, passa pelo Espaço Cultural Renato Russo e pelo Elefante Branco, onde estudou, e se permite descobrir novos restaurantes ou rever lugares que guardam lembranças.

Há ainda espaço para o cinema, o stand up paddle no Lago Paranoá e, quando a agenda permite, uma viagem à Chapada dos Veadeiros, um de seus lugares favoritos no mundo. O roteiro reúne diferentes versões de uma mesma história: o menino que cresceu em Brasília, o jovem que buscava uma oportunidade na arte e o profissional que hoje retorna com a possibilidade de contribuir para a produção cultural da cidade. “Meu roteiro mistura família, memória, arte e novas descobertas”, resume.

Reprodução/Instagram - Pietro tem 18 anos e é filho de Rainer Cadete

Tal pai tal filho

A relação com as origens ganha outro significado na paternidade. Aos 18 anos, Pietro, filho de Rainer, começa a construir o próprio percurso artístico e estuda na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), no Rio de Janeiro, instituição pela qual o pai também passou. A afinidade profissional não significa, porém, que os dois estejam destinados a repetir a mesma trajetória. Rainer acompanha os passos do filho com orgulho, mas reconhece nele uma voz própria, uma sensibilidade particular e uma coragem que o surpreende.

Pietro já escreveu e protagonizou um monólogo, experiência que despertou a admiração do pai. “É muito bonito vê-lo seguindo meus passos e, ao mesmo tempo, encontrando a própria voz. O Pietro estuda na CAL, onde também estudei, já escreveu e protagonizou um monólogo e tem uma sensibilidade enorme para as artes. É uma potência, e tenho muito orgulho de acompanhá-lo”, afirma.

A postura de Rainer é a de um pai presente, disposto a aconselhar e a ajudar o filho a encontrar oportunidades, sem confundir proteção com controle. Ele não se identifica com a ideia de assistir de longe aos tropeços de Pietro como se fossem etapas obrigatórias de amadurecimento. Prefere oferecer apoio, compartilhar experiências e estar disponível para as decisões que o jovem precisa tomar. Ao mesmo tempo, sabe que a experiência de um artista não pode ser transferida integralmente para outro, mesmo quando os dois dividem o mesmo sobrenome e o mesmo interesse pela criação.

A troca também acontece no sentido inverso. Pietro apresenta ao pai novas referências, outro ritmo de consumo cultural e maneiras diferentes de produzir e divulgar arte. Rainer pede opiniões sobre música, escrita, redes sociais e projetos, sem tentar reproduzir artificialmente os códigos de uma geração mais jovem. “Não é uma tentativa de parecer mais jovem, mas de manter minha escuta viva e compreender outras formas de expressão”, explica. “Eu compartilho minha experiência e ele amplia o meu olhar. É uma troca muito rica.”

O encontro entre pai e filho ultrapassa a relação doméstica e se transforma em parceria criativa. Os dois escreveram a quatro mãos Olhares que filtram, livro que aborda a experiência de uma família multirracial em uma sociedade atravessada pelo racismo estrutural e propõe reflexões sobre o papel de cada pessoa na construção de uma postura antirracista. A obra vem sendo adotada por escolas de diferentes regiões do Brasil, e os encontros com estudantes, professores e famílias ampliam o alcance de uma conversa que, para os autores, não deve ficar restrita ao ambiente privado.

“Além de filho, encontrei no Pietro um parceiro artístico e criativo. Acho esse encontro entre nós muito precioso”, afirma Rainer. Os dois já trabalham em outro livro, previsto para o próximo ano. A escrita abriu, assim, uma nova frente de atuação para o ator, que passou a encontrar na literatura outra maneira de compartilhar experiências e dialogar com o público.

A paternidade também teve repercussão direta na música. Antes de se tornar ator, Rainer teve uma experiência inicial diante do público cantando em uma igreja, em Samambaia. Mais tarde, desenvolveu com Renato Luciano o projeto autoral Leves e reflexivas, disponível nas plataformas digitais e que conta com uma parceria com Vanessa da Mata. Ainda assim, faltava dar um passo que há muito tempo desejava: apresentar um show próprio diante de uma plateia.

Foi ao observar a iniciativa do filho que encontrou um impulso decisivo. A capacidade de Pietro de escrever um monólogo, estruturar o projeto e levá-lo ao palco o fez rever os próprios receios. Rainer já havia experimentado um solo durante a pandemia, em formato de webteatro, mas nunca tinha realizado uma apresentação presencial daquela natureza. Ver o filho transformar uma ideia em realidade mostrou que era possível enfrentar o medo e assumir o protagonismo de um projeto pessoal.

“Aprendi que a inspiração não tem hierarquia. Muitas vezes, é o filho que ensina o pai a ter coragem”, afirma. A partir dessa descoberta, Rainer retomou o desejo de cantar e estreou Rainer Cadete em canção no Blue Note, em São Paulo. Agora, organiza a apresentação do espetáculo no Rio de Janeiro e planeja uma turnê. Levar o show a Brasília, onde tudo começou, está entre seus objetivos.

A imagem do ator que se permite aprender com o filho talvez seja uma das mais reveladoras de sua trajetória atual. Rainer não abandona a experiência acumulada, tampouco renuncia ao papel de orientar Pietro. Descobre, porém, que a maturidade artística não significa chegar a um ponto em que já não há nada a aprender. Ao contrário, a convivência com uma nova geração pode devolver o entusiasmo de quem ainda tem desejos a realizar. “Foi sendo pai do Pietro que reaprendi a ir atrás dos meus”, conclui.

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