Artes cênicas

Contradições da elite conduzem a dramaturgia de O Deus da carnificina

Em O Deus da carnificina, ironia e hipocrisia dão o tom de uma discussão aparentemente civilizada 

As discussões da peça expõem as feridas de uma elite hipócrita
 -  (crédito: Annelize Tozetto)
As discussões da peça expõem as feridas de uma elite hipócrita - (crédito: Annelize Tozetto)

Um dos textos da francesa Yasmina Reza mais encenados do teatro contemporâneo, O Deus da carnificina sobe ao palco do Teatro Unip amanhã e domingo para contar uma história que parece muito civilizada, mas escancara o pensamento de uma elite empenhada em se disfarçar de esclarecida. Com direção de Rodrigo Portella e elenco formado por Angelo Paes Leme, Bianca Byington, Thelmo Fernandes e Anna Sophia Folch, a peça ganhou uma montagem com um olhar brasileiro e uma leitura que a aproxima de situações atuais. 

Leia também: Festival de Brasília bate recorde com quase 2 mil filmes inscritos

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Na dramaturgia de Reza, dois casais se reúnem para conversar sobre um incidente protagonizado na escola pelos filhos de 11 anos. As crianças se envolvem em uma disputa grave e os pais decidem se reunir para, civilizada e elegantemente, decidirem o que fazer. A conversa desanda e a violência, verbal e física, toma corpo em um embate que tem a mesma medida de ironia, tragicididade e comicidade. No texto, escrito em 2006, a autora, que é francesa e circula em uma elite intelectual claramente referenciada na dramaturgia, propõe uma reflexão sobre um verniz que nem sempre se sustenta. 

A crítica a uma aristocracia europeia colonizadora é clara na obra e Rodrigo Portella ficou preocupado com a maneira como as personagens e a dinâmica no palco pudessem ser interpretados no Brasil. "Tem um ponto definidor que é o fato de se fazer, no Brasil, uma leitura de que a natureza humana é violenta e que basta algo sair da ordem esperada para deixarmos transbordar o que há de mais primitivo e violento", explica. "E eu não acredito que a humanidade seja violenta por natureza, sou otimista nesse sentido, acho que esse discurso distópico de que somos a pior invenção do universo, que não demos certo, cola na onda azul, no discurso fascista, e não resolve. Então não posso fazer um espetáculo e deixar que o público acredite nisso", explica Portella, ao insistir que, na verdade, O Deus da carnificina faz uma crítica às elites que se associam às ideias colonialistas. 

Leia também: Anna Toledo vive fase de expansão no teatro e se lança a novos riscos na criação

Na montagem, o diretor optou por uma série de detalhes pensados para causar estranhamento no público. A peça se passa no século 20, mas os atores estão vestidos com figurinos do século 18 e uma grama explicitamente sintética forra o chão do parque que serve de cenário. "Minha encenação aposta no reforço da artificialidade para falar desse atraso dessa elite espelhada no colonizador. A ideia é pensar a partir de uma elite brasileira atrasada que se espelha no colonizador, que quer ser igual ao colonizador, uma elite que reproduz o colonizador", diz. 

Parte dessas ideias ficam claras, principalmente, na personagem vivida por Bianca Byington, que se investe de defensora das minorias e, sobretudo, da população africana, mas se revela tão hipócrita quanto os alvos de suas críticas. "Quando esse texto é montado na Europa, o público reconhece uma camada de uma elite que tenta criar um espaço de reparação, não só de um coletivo interno, mas também em relação ao próprio processo de colonização", aponta o diretor, ao comentar as contradições da personagem da personagem. "A gente vive hoje, por conta dessa conjunção do capitalismo com o neoliberalismo no mundo ocidental, uma espécie de desdém pelo que é coletivo e um foco muito predominante no individualismo."

Leia também: Saudando o Choro ocupa feira em Taguatinga até o fim de setembro 

Embora trate de questões sociais e traga reflexões sérias, O Deus da carnificina não é uma peça sisuda. Há muito humor no texto de Reza, os diálogos sofisticados são cheios de referências e a ironia dá um tom popular à obra. Além disso, Portela também quis atualizar alguns detalhes cênicos como as brigas, que ele preferiu deixar no texto, mas não na ação. Os atores narram as próprias ações, mas não as executam. "E isso traz um certo distanciamento pelo caráter épico da coisa. Quando o ator narra o que o personagem está fazendo em terceira pessoa, o espectador sai da ilusão de um certo realismo. Esse afastamento causa um olhar mais crítico do espectador para a obra", garante o diretor. 


Serviço

O Deus da Carnificina

Texto de Yasmina Reza. Direção: Rodrigo Portella. Sábado (12/9), às 18h e às 20h, e domingo, às 17h e às 19h30, no Teatro UNIP (SGAS 913). Ingressos: a partir de R$25 (meia), no Sympla e na Belini (113 Sul). Não recomendado para menores de 14 anos

 


  • O Deus da Carnificina
Texto de Yasmina Reza. Direção: Rodrigo Portella. Com Angelo Paes Leme, Bianca Byington, Thelmo Fernandes e Anna Sophia Folch
    O Deus da Carnificina Texto de Yasmina Reza. Direção: Rodrigo Portella. Com Angelo Paes Leme, Bianca Byington, Thelmo Fernandes e Anna Sophia Folch Foto: Annelize Tozetto
  • O Deus da Carnificina
Texto de Yasmina Reza. Direção: Rodrigo Portella. Com Angelo Paes Leme, Bianca Byington, Thelmo Fernandes e Anna Sophia Folch
    O Deus da Carnificina Texto de Yasmina Reza. Direção: Rodrigo Portella. Com Angelo Paes Leme, Bianca Byington, Thelmo Fernandes e Anna Sophia Folch Foto: Annelize Tozetto
  • Google Discover Icon
postado em 11/09/2026 06:00
x