Artes cênicas

Gregório Duvivier celebra a língua portuguesa em espetáculo nesta sexta

Gregório Duvivier retorna a Brasília com o espetáculo 'Ceú da língua', um texto cheio de humor e poesia sobre as curiosidades da língua portuguesa

Gregório Duvivier em O céu da língua, peça em cartaz no Cena Contemporânea 2025 -  (crédito: Raquel Pellicano)
Gregório Duvivier em O céu da língua, peça em cartaz no Cena Contemporânea 2025 - (crédito: Raquel Pellicano)

Gregório Duvivier adora um infinitivo, ainda se encanta com esse tempo verbal que só existe no português e no húngaro, e acha lindo essa coisa de ser e estar ter dupla possibilidade. Agora, também encrencou com o "bah" gaúcho e o "nuh" mineiro. O céu da língua tem uma estrutura fixa mas, desde a estreia, em fevereiro de 2025, e depois de ser vista por mais de 300 mil pessoas, a peça foi ganhando penduricalhos aqui e ali. "A peça vai se enriquecendo dos lugares que a gente passa. Essa é a beleza do teatro, ele não termina, todo dia é uma estreia no teatro. E toda vez a gente reinventa um pouco da peça", avisa Duvivier, que traz O céu da língua a Brasília pela segunda vez neste fim de semana, com apresentação hoje no Ulysses Centro de Convenções. 

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Ele explica que a estrutura básica do texto é parecida mas, como a língua, a peça é dinâmica e fica irresistível incorporar novidades. "A gente bota informações, expressões, palavras novas. E isso é muito bom. No Sul, por exemplo, eu tô com a história do bah, em Minas com o nuh. A gente vai dando uma cor local e a peça vai sendo transformada aos poucos", explica o ator e escritor, fascinado pelas palavras e pela língua desde criança e autor do recém-publicado Aos pés da letra, uma ode tão elegante quanto divertida sobre as idiossincrasias da língua portuguesa (e de algumas outras).

Serviço

O céu da língua

Com Gregório Duvivier. Direção: Luciana Paes. Hoje, às 19h e às 21h30, no Ulysses Centro de Convenções. Ingressos: R$ 85 a R$ 240, no Ingresso Digital

Entrevista//Gregório Duvivier

O céu da língua celebra as diferenças e a convivência com a poesia. Como a língua nos une nas diferenças?

A poesia é uma religião para ateus, mas não só. Ela é uma religião secular, uma religião laica, através das palavras, a gente se conecta a algo maior que nós. A língua é essa entidade supra-humana, criada pelos seres humanos, mas muito maior do que eles, porque morre gente, nasce gente, a língua continua lá. O céu da língua também é uma forma de falar disso, desse céu que está acima de nós e da poesia como um ritual, o teatro como um ritual laico, secular, mas não menos sagrado. Isso nos ajuda a recuperar o prazer de ser brasileiro. E isso deveria ser o que nos une enquanto população. Tem tanta gente que vem ver a peça que é de outros espectros políticos e se emociona. A poesia contida na língua talvez seja um fator de união desse país, porque eu sinto que essa peça, ela não polariza. Nós temos muito mais em comum do que a gente lembra.

Em tempos de campanha eleitoral, a linguagem é também um campo de disputas. O que o eleitor deve observar no uso da língua portuguesa neste momento?

Nessas eleições, o que está em jogo é a nossa soberania. Não só a nossa democracia, é nossa existência. Existe hoje uma ameaça existencial contra o Brasil, que está sendo ameaçado por uma grande potência estrangeira. Essa peça também é uma maneira de lembrar que somos brasileiros e que temos muito mais em comum do que o que nos separa. A língua é uma das coisas que nos une. A peça é uma forma de celebrá-la.

O que o processo de criação da peça revela sobre a relação entre falar, escrever e representar?

Acho que a gente falar, escrever e representar são coisas que podem estar mais juntas do que parece. Essa peça foi escrita, falada, ensaiada dentro de uma sala de ensaio: eu ia falando e a gente ia transcrevendo. É uma dramaturgia muito oral. E isso está impresso na na peça. Eu não sentei na frente de uma tela para escrever. Isso faz diferença. A gente tentou criar uma dramaturgia que fosse baseada no diálogo, na fala, na palavra falada. É uma dramaturgia fluida, como um papo que faz parecer que está tudo surgindo na hora.

Na peça, você chama a atenção para a poesia escondida no cotidiano, nas metáforas e nos sons das palavras. fesaprendemos a escutar a língua?

É bem isso mesmo. A gente vai se acostumando com a língua e vai deixando de perceber o tesouro que ela contém, que todos nós possuímos por falar uma língua. Porque toda palavra já foi poética antes de se tornar uma palavra. Todo mundo nasce poeta na infância, todas as crianças brincam com as palavras sem perceber ou percebendo. É um exercício lúdico que toda criança já fez. E a gente vai deixando de achar graça, vai usando a palavra de uma maneira meio utilitária.

O que ainda te causa espanto na língua portuguesa depois de tantos anos estudando?

Os dois surgem do espanto com a novidade, tanto com a palavra quanto com o mundo de um modo geral. Tanto o humor quanto a poesia, nascem da capacidade de espantar. Em geral, o humor é visto como algo muito leve, passageiro, e a poesia como algo sério, profundo. Eu não acho que a poesia seja necessariamente profunda, nem que o humor seja necessariamente ligeiro. Gosto justamente quando a poesia é mais engraçada e o humor é mais poético.

 


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postado em 11/09/2026 06:00 / atualizado em 11/09/2026 10:48
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