Artes cênicas

Espetáculo mergulha na ancestralidade para falar do presente

Memória, morte e esquecimento são temas de peça que reflete sobre a continuidade da vida e a presença feminina

Camocim nasceu de um imaginário familiar, mas foi ancorado em uma dramaturgia que fala de temas e reflexões universais. Cristina e Tatiana Carvalhedo, mãe e filha, respectivamente, há muito queriam criar um espetáculo que falasse dessa relação e, no início da pandemia de covid-19, resolveram começar um projeto capaz de dar conta de projetar o que seria particular para um espaço universal. "Partimos de nosso imaginário familiar para falar de coisas comuns a todos, coletivas. A  gente fala sobre pertencimento, memória, morte, esquecimento, que são temas comuns presentes na vida de todo mundo", explica Tatiana, que estreou Camocim em 2024 e agora traz de volta o espetáculo com um ciclo de apresentações que começam no Teatro Paulo Gracindo e seguem em cartaz até 26 de setembro. 

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A pergunta "para onde vão as coisas desimportantes?", feita por uma das personagens em cena, desencadeia uma das linhas de desenvolvimento do espetáculo. Tatiana e Cristina querem propor ao público uma reflexão sobre o que realmente importa no dia a dia.  "Às vezes, o cotidiano passa a ser desimportante quando a magia da vida acontece nesse espaço, nessas celebrações diárias", acredita Tatiana. "É um espetáculo de mãe e filha, mas não é sobre a gente, sobre mãe e filha ou sobre a relação da maternidade. O universo familiar é um ponto de partida, o espetáculo é muito mais sobre as relações que a gente vive do que sobre nossa relação como mãe e filha".

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Camocim é um município do Ceará, terra natal da avó da atriz, mas também quer dizer, em tupi guarani, buraco no qual se enterra os mortos, ideia que serviu de metáfora para a construção da dramaturgia e dos elementos de cenografia e sonoplastia. A presença dos mortos, especialmente das mulheres que representam a ancestralidade familiar, paira por todo o espetáculo. São presenças evocadas pela ideia de que só morre quem não é lembrado. "Usamos essas memórias pessoais para nos provocar, esse campo de afeto e referências mas, no fim, mesmo com o caráter transgeracional, o que fica é a possibilidade de estar falando quantas vidas existiram antes de todos nós para estarmos aqui existindo e vivendo. E quanto dessas pessoas são lembradas. Queríamos, com o espetáculo, falar delas", explica Cristina. 

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Em cena, uma mãe e uma filha contam histórias dos que passaram pela vida e dos que estão chegando. A perda da avó e a chegada da neta de Tatiana ganharam sentido especial que forneceu o fio condutor para Camocim. Vento, lua e areia, elementos que permeiam a vida no município cearense, ganham uma dimensão simbólica no espetáculo e o esquecimento é um ponto forte para falar de mulheres silenciadas, soterradas e esquecidas. "O espetáculo é uma contação de histórias onde  gente vai desenterrando as memórias, lembranças, e trazendo elementos mais próximos que permeiam nossa vida", avisa Tatiana.

 Serviço

Camocim

Com Tatiana e Cristina Carvalhedo. Hoje, às 16h, amanhã, às 20h e domingo, às 18h, no 

SESC Gama — Teatro Paulo Gracindo. Ingressos: gratuitos, mediante doação de 1kg de alimento, retirada pela plataforma Sympla. Não recomendado para menores de 14 anos


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