
Mauro Rasi escreveu o texto da comédia Alta sociedade em 2000. Na dramaturgia, um casal de milionários falidos tenta fugir do Brasil para escapar da Polícia Federal em uma noite de ano novo. Corrupção, crime e uma elite moralmente comprometida toma a cena em uma narrativa que se repete há 30 anos. Assinada por Emílio de Mello e com Júlia Lemmertz e Orã Figueiredo nos papeis principais, a versão contemporânea de Alta sociedade está em cartaz sábado (17/10) e domingo (18/10) no Teatro Unip.
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O texto ganhou atualizações de Amanda Jordão e personagens da política contemporânea, mas não foi preciso muito, segundo Emílio de Mello, para ligar os pontos entre a escrita original de Mauro Rasi e a sociedade brasileira dos anos 2020. "Num Brasil cada vez mais polarizado, agressivo e incapaz de escutar o outro, a obra de Mauro permanece atual porque nos ensina a olhar para nossas contradições sem simplificá-las", diz o diretor. "Seus personagens nunca são heróis nem vilões; são seres humanos cheios de fragilidades, desejos e ambiguidades. É justamente por isso que sua dramaturgia continua sendo uma das formas mais sensíveis de compreender os modos de amar e de viver no Brasil: ela critica o país sem perder a ternura e faz do humor uma ferramenta de autoconhecimento coletivo."
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Júlia Lemmertz lembra que os grandes textos mantêm a atualidade por sempre dialogarem com os fatos em todos os tempos. "O texto do Mauro fala de acontecimentos do momento, a gente só teve que adaptar para os acontecimentos de agora, mas a estrutura do texto é toda da época que o Mauro escreveu e continua igual", diz Julia. "Quando eu li, me deu muita vontade de falar sobre esse olhar dessa elite que não se sente responsável pelos acontecimentos, mas que participa deles meio olhando de cima. Eu achei que a gente tinha muita coisa para refletir sobre isso." Em entrevista, a atriz conta como construiu a personagem de Sylvia e como o teatro tem a capacidade de furar bolhas.
Entrevista //Julia Lemmertz
O que representa encenar esse texto exatamente neste momento de polarização que o país está vivendo? Como você se sente em relação a isso?
Não só o momento da gente, do país, de tudo, mas também de poder trabalhar com o Emílio de novo, com o Orã, que são meus parceiros de longa data. Foi um encontro bem desejado. Fazer esse espetáculo agora representa, de alguma forma, refletir sobre o nosso momento atual, mesmo que rindo, mesmo que de uma forma irônica e ácida, é uma boa reflexão sobre os acontecimentos desses últimos tempos do país. Acho que é importante falar isso desse jeito, rindo, relaxando e tendo um olhar distanciado em algum momento sobre isso. Faz bem pra gente.
Qual é o poder do teatro? Especialmente agora, que descobrimos que vivemos em bolhas…
Eu acho que o teatro tem e sempre teve o poder de refletir o ser humano em todos os seus momentos, em todas as suas caras e perspectivas e profundidades e futilidades. O teatro é um reflexo dos nossos tempos e do ser humano. Podemos fazer com que quem assiste possa refletir sobre isso, possa se identificar com isso. O teatro é um instrumento poderoso para também ir além dessas bolhas. Quem vai ver Alta Sociedade está esperando divertimento, uma comédia e, de repente, se depara com uma reflexão interessante, inteligente, crítica. Isso é muito poderoso num momento como esse, porque isso une todos, de qualquer partido, de qualquer inclinação política, social. A gente fala para todo mundo e o grande poder do teatro é furar bolhas.
Como você construiu a Sylvia, sua personagem? O que era fundamental?
Fui construindo muito a partir do que o Mauro propõe no texto, com a visão do Emílio, com a nossa, enfim, com a atriz que eu sou também, assim, fui usando as minhas ferramentas para construir essa mulher culta, chique, elegante e muito bem informada e, ao mesmo tempo, muito risível. Muito de um lugar que critica essa elite desconectada, essa elite que não se responsabiliza pela sua omissão. Claro que a dimensão humana está lá, totalmente cruel e ácido, tudo junto. Essa é a grande sacada do Mauro Rasi como autor. Ele não condena ninguém, ele não condena os personagens. Você simpatiza com aquela pessoa. Eu acho que é um pouco isso que falta para gente como comunidade, todo mundo se olhar e falar: "Puxa, as pessoas são o que são porque elas têm uma história, um repertório de aprendizado na vida. Nem por isso elas são horríveis e más.
Qual o viés de interpretação para viver essa personagem: pelo ridículo, pela crueldade ou também por alguma dimensão humana que ajude a compreender seu comportamento?
Olha, o que está lá desde o início é a falta de vergonha na cara desses personagens que acham que estão certos, que não se deram bem porque não souberam roubar direito. É essa certeza de que o país funciona assim e que a impunidade está aí para todo mundo. A gente parece ter se acostumado com os escândalos, relativizando a gravidade das coisas. Isso está no espetáculo, é uma reflexão sobre um país que, moralmente, está em ruínas e a única forma de enfrentar isso é sendo bem informado, vendo as coisas como elas realmente são.
Serviço
Alta Sociedade
No saábdo (17/10), às 18h e às 20h, e domingo 18/10), às 17h e às 19h, no Teatro UNIP (SGAS 913). Ingressos: a partir de R$ 25 (meia), no Sympla e na Belini (113 Sul). Não recomendado para menores de 10 anos
Diversão e Arte
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