Conjuntura

Bolsonaro volta a insinuar que tem informações privilegiadas da Petrobras

Presidente surpreende o mercado ao dizer que a Petrobras vai promover novo reajuste de preços dentro de 20 dias. Analistas veem falta de tato, mas lembram que uso de informação privilegiada é crime. CVM investiga declarações sobre a estatal

Ingrid Soares
Israel Medeiros
postado em 02/11/2021 06:00
Em nota, companhia garantiu que não há decisão sobre novos aumentos -  (crédito:  André Motta de Souza/Agência Petrobras)
Em nota, companhia garantiu que não há decisão sobre novos aumentos - (crédito: André Motta de Souza/Agência Petrobras)

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), voltou a insinuar que dispõe de informações privilegiadas sobre reajustes de preços da Petrobras. Ao comentar a greve dos caminhoneiros, ontem, na Itália, ele disse que soube, “extraoficialmente”, que a Petrobras reajustará novamente os combustíveis daqui a 20 dias.

“Estou acompanhando (a greve). Agora, uma notícia que dou para vocês, a Petrobras anuncia, eu sei extraoficialmente, novo reajuste daqui a uns 20 dias. Isso não pode acontecer. A gente não aguenta”, disse ele a jornalistas.

A Petrobras, no entanto, rebateu o presidente. Em comunicado ao mercado, a petroleira frisou que não antecipa informações sobre preços dos combustíveis e que não há nenhuma decisão tomada por seu Grupo Executivo de Mercado e Preços (GEMP) que ainda não tenha sido anunciada. “A Petrobras reitera seu compromisso com a prática de preços competitivos e em equilíbrio com o mercado, ao mesmo tempo em que evita o repasse imediato das volatilidades externas e da taxa de câmbio causadas por eventos conjunturais”, ressaltou a estatal.

O presidente também citou a possibilidade de uso dos dividendos que o governo recebe da Petrobras para criar subsídios no preço do combustível. “Queremos que isso seja revertido diretamente na diminuição do preço do diesel na ponta da linha”, pontuou. Ele também reafirmou que o “vilão” é o ICMS — que, porém, não teve alta nos últimos meses.

Bolsonaro voltou a defender a privatização da estatal e disse que há estudos em curso para tirar a empresa “das garras do Estado”, mas esse, segundo ele, é um processo que levaria anos. “Não é colocar na prateleira e vender amanhã. Esse processo vai durar mais de ano”, pontuou o mandatário, que afirmou que pediu ao ministro da Economia, Paulo Guedes para tomar as medidas necessárias.

Esta não é a primeira vez que Bolsonaro insinua ter informações privilegiadas sobre movimentos da Petrobras no mercado. Em 24 de outubro, em uma live, disse que a estatal faria um reajuste no dia seguinte — que foi confirmado. A Petrobras teve de explicar à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que o presidente não teve acesso a informações antecipadas. Na semana passada, a autarquia abriu um processo administrativo contra a Petrobras após falas do governo sobre a privatização da companhia.

Rodrigo Moliterno, sócio-fundador da Veedha Investimentos, explica que, para o mercado financeiro, informação privilegiada é um assunto sério. “É caso de penalidade, é uma situação gravíssima e geralmente resulta em punições severas”, disse. Ele argumentou que é natural que o governo tenha informações relevantes sobre o funcionamento da Petrobras, já que controla órgãos de fiscalização e é o principal acionista, mas alega que o chefe do Poder Executivo não deveria falar abertamente sobre isso, pois interfere nos movimentos do mercado.

“Claro que a preocupação maior (na alta dos preços) se dá por causa da inflação, mas é óbvio que ele, enquanto chefe de Estado, não deveria falar essas coisas como várias outras. Isso acaba movimentando o mercado”, disse o especialista. Ontem as ações da Petrobras ordinárias da Petrobras subiram 3,72% e as preferenciais, 2,75%.

Para Renan Silva, gestor da Bluemetrix Ativos, o mercado está receoso com a expectativa de uma nova ingerência na Petrobras, mas já se acostumou às falas inconsequentes de Bolsonaro. Ele alega que o poder de influência do governo não é exatamente um privilégio do governo brasileiro, e que outros governos também fizeram esse tipo de coisa, como foi o caso de Donald Trump, nos EUA.

“Essas falas são de uma liderança que não tem tato com o mercado de capitais. Significa que há um risco adicional porque o mercado financeiro é o que financia a dívida do governo, não é só as ações. O governo tem que mostrar mais estabilidade. O mercado acaba tendo que fazer essa leitura o tempo todo do que é discurso e o que é prática”, completou.

 

 

 

 

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