OBITUÁRIO

Constantino Júnior, o homem que colocou o Brasil para voar

Fundador da Gol morre aos 57 anos e deixa marca duradoura ao consolidar o modelo de baixo custo na aviação brasileira

Em tratamento contra o câncer, empresário teve morte lamentada por autoridades e companhias aéreas -  (crédito:  Eduardo Viana/Gol)
Em tratamento contra o câncer, empresário teve morte lamentada por autoridades e companhias aéreas - (crédito: Eduardo Viana/Gol)

O presidente do Conselho de Administração e fundador da empresa aérea Gol, Constantino de Oliveira Júnior, morreu, no sábado (24/1), aos 57 anos, em São Paulo. O empresário estava em tratamento de um câncer. A companhia não vai divulgar informações sobre o velório, que reunirá apenas família e amigos. A Gol foi a primeira companhia aérea a operar no Brasil com o conceito de passagens mais baratas, com simplificação dos serviços de bordo como uma das estratégias para cortar custos.

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Quando criada, em 2001, adotou o slogan "Linhas Aéreas Inteligentes", para destacar a política de "custo baixo, tarifa baixa". Os passageiros logo perceberam a diferença: além do preço mais barato em relação às concorrentes, os voos da Gol tinham serviço de bordo mais simples, os pilotos e comissários usavam uniformes mais informais e até a comunicação a bordo era feita em tom coloquial. Hoje, é a segunda maior companhia de transporte aéreo país, com cerca de 30% do mercado, praticamente empatada com a Azul. A líder do setor é a Latam, com 40%, segundo dados da Agência Nacional de Aviação Covil (Anac).

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Mineiro de Patrocínio e filho do empresário do setor de transporte rodoviário Nenê Constantino (que completará 95 anos em agosto), Constantino Júnior formou-se em Brasília no curso de administração de empresas da UDF e, em 1996, assumiu uma vaga de diretor na Comporte Participações, que controlava o império criado pelo pai — as empresas de Nenê Constantino chegaram a ter mais de 6 mil ônibus circulando pelas estradas do país.

Constantino Júnior fundou a Gol em 2001, atendendo a uma paixão que o acompanhava desde menino: a aviação. A empresa estreou no mercado brasileiro com apenas seis aeronaves, mas fazendo barulho com a promessa de deselitizar as viagens de avião, um meio de transporte caro, "só para rico", como se dizia na época. Com campanhas agressivas focadas no preço das passagens, Constantino Júnior fez a companhia crescer rapidamente. Em 2004, a Gol estreou nas Bolsas de Valores de São Paulo e de Nova York. Oito anos depois, em 2012, ele assumiu a presidência do Conselho de Administração da companhia, cargo que ocupou pelo restante da vida.

A direção da Gol lamentou a morte do fundador e destacou o legado deixado por ele. Por meio de nota, a empresa lembrou que, há 25 anos, "Júnior e a família Constantino deram início à trajetória da mais brasileira das companhias aéreas".

"Com uma visão empreendedora e valores sólidos, nascia uma empresa reconhecida por sua excelência, referência em inovação e por seu compromisso com o desenvolvimento do Brasil. Os princípios estabelecidos por seu fundador fizeram a companhia crescer e, hoje, fazer parte de um grupo internacional. Eles seguem vivos na Gol e continuam transformando a aviação no Brasil", conclui a nota de pesar.

Varig e Avianca

O empresário também presidia o Conselho de Administração do Grupo Abra, holding que controla as aéreas Gol e Avianca Colômbia, que se uniram em maio de 2022, mas mantém operações independentes. Antes, em 2007, Constantino Júnior comandou a aquisição da Varig, a mais tradicional empresa aérea do país, em uma operação de US$ 320 milhões (cerca de R$ 1,6 bilhão ao câmbio atual). Com a compra, a frota da Gol passou de 17 para 34 aviões. O grupo declarou que o executivo foi um "verdadeiro visionário, guiado por um propósito claro: tornar o transporte aéreo acessível a todos".

O ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, lamentou a morte do empresário mineiro. Pelas redes sociais, disse que "sua trajetória à frente da Gol teve um papel decisivo no fortalecimento da aviação brasileira, ampliando conexões, oportunidades e o desenvolvimento do setor no país" e que deixa um legado "importante e duradouro".

As concorrentes da Gol no Brasil também emitiram nota de pesar, ontem. A líder de mercado Latam declarou que Constantino Júnior, "à frente da fundação da Gol, introduziu um modelo de negócios inovador, que ampliou o acesso ao transporte aéreo, estimulou a concorrência e contribuiu de maneira decisiva para o crescimento e a modernização do setor no País. Sua capacidade de inovar, aliada à coragem de desafiar paradigmas estabelecidos, deixou um legado duradouro para a indústria e para milhões de brasileiros que passaram a voar".

A Azul também destacou o papel inovador de Constantino, que atuou para popularizar as viagens de avião no Brasil. "Empreendedor visionário na fundação da Gol Linhas Aéreas, teve papel decisivo na transformação da aviação no Brasil, ampliando o acesso ao transporte aéreo e deixando um legado que seguirá influenciando nossa indústria por muitos anos."

Além da aviação, Constantino Júnior era apaixonado por velocidade. Nos anos 1990, ele pilotou carros de corrida nas categorias brasileiras F-3 (na equipe do brasileinse Amir Nasr) e Porshe Cup, na inglesa Fórmula 3.000 e chegou a receber um convite para correr na Fórmula 1 pela Benetton.

19 anos da tragédia do voo 1907

A vida de Constantino Júnior à frente da Gol foi marcada, em setembro de 2006, por uma das maiores tragédias da aviação civil brasileira. O voo 1907 saiu de Manaus com destino ao Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, com 154 pessoas, entre passageiros e tripulantes. Ao sobrevoar o estado de Mato Grosso, o Boeing 737-8HE chocou-se com um jato executivo Legacy 600, fabricado pela Embraer, que ia para Fort Lauderdale, nos Estados Unidos.

A aeronave havia sido comprada por uma empresa de táxi aéreo da Flórida e estava sendo levada para a base da empresa. Todos os que estavam a bordo do Boeing da Gol morreram na queda do aparelho. O Legacy, com sete ocupantes, sofreu pequenas avarias na asa e conseguiu pousar na Serra do Cachimbo, no Pará.

O acidente abalou o empresário, que acompanhou os trabalhos de resgate dos corpos e as investigações iniciadas pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa). Em Brasília, ele não conteve o choro em uma celebração religiosa ecumênica em homenagem às vítimas, poucos dias depois da tragédia. 

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postado em 25/01/2026 04:00
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