Entrevista

"Brasil não pode ser um anão diplomático", diz vice-presidente do Banco do Brics

Para especialista, situação geopolítica, com EUA tumultuando a ordem global, exige mais firmeza da política externa brasileira

 Paulo Nogueira Batista Jr. é economista e escritor. Foi diretor executivo pelo Brasil e outros países no FMI e vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento estabelecido pelos BRICS em Xangai. -  (crédito: Arquivo pessoal)
Paulo Nogueira Batista Jr. é economista e escritor. Foi diretor executivo pelo Brasil e outros países no FMI e vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento estabelecido pelos BRICS em Xangai. - (crédito: Arquivo pessoal)

Desde que o presidente Donald Trump assumiu a Presidência dos Estados Unidos, há um ano, o mundo passa por uma séria crise geopolítica, cada vez mais próxima do Brasil — atinge países, como Venezuela e Cuba. Na análise do economista e um dos mais respeitados analistas internacionais do Brasil, Paulo Nogueira Batista Jr., trata-se de um "delinquente". Autor do livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém, Paulo Nogueira foi diretor executivo no Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, representando o Brasil e outros 10 países, e vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o banco do Brics, em Xangai. A seguir, trechos da entrevista:

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O senhor vinha demonstrando um certo incômodo com a falta de ação do Brasil em relação a Cuba e, mais recentemente, sentiu-se aliviado com a notícia de que o Brasil vai prestar alguma ajuda. Como avalia, agora?

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Sim, mas isso não tem sido mencionado nas comunicações oficiais do governo. Houve uma notícia de que o Brasil tinha decidido ajudar. Mas, como? Quando? Em que montante? De que forma exatamente? Não se sabe. Eu não vi nada explicando isso.

Seria desejável que o governo fosse mais explícito?

Parece prevalecer a ideia de que o Brasil não pode se envolver muito sob pena de alguma sanção ou represália. É diferente do caso do México, onde a presidente Scheinbaum tem falado abertamente, repetidamente sobre o assunto, explicando o que está fazendo, inclusive, mostrando o que está fazendo. O Brasil permanece obscuro. Pode até ser que esteja ajudando horrores nos bastidores, mas não se sabe.

Estamos no último ano de mandato, Lula tem dito que está em sua última viagem internacional. Que balanço o senhor faz da política externa desse terceiro governo Lula? 

Não chegou a ser a política externa ativa e altiva que se proclamava. Há alguns pontos positivos, como a posição do presidente em matéria do genocídio em Gaza e a reação às tarifas impostas por Donald Trump. Mas houve muitos pontos fracos. A negociação comercial externa está sendo muito mal encaminhada, não só por causa do acordo Mercosul-União Europeia, mas várias outras negociações já concluídas ou em andamento do mesmo tipo, com países desenvolvidos. A política comercial externa é de cunho neoliberal, quando o neoliberalismo está sendo enterrado no mundo inteiro. 

Como avalia a presidência brasileira do G20, do Brics e da COP30?

Vamos falar a verdade, aqui. Foram vazias em resultados. No caso do G20, não tanto por culpa do Brasil, porque o G20 está meio paralisado há muito tempo, por causa das divisões geopolíticas dentro grupo. No caso do Brics, a presidência brasileira poderia ter sido muito mais eficaz e não foi. Faltou imaginação, faltou audácia. Gastou-se muito tempo com uma COP que nada produziu de apreciável. 

A nossa região também passa por um momento geopolítico difícil. Citamos Cuba e tem a questão da Venezuela. Como vê a posição do Brasil em relação à Venezuela?

Temos essa operação americana na Venezuela, que inaugura uma nova fase nas relações internacionais da América Latina. Esse é o maior desafio para a política externa brasileira na nossa região. Eu não quero ser simplista, é um assunto super delicado. Mas a resposta brasileira foi muito tímida. O Brasil está lidando com um presidente americano que é instável e errático. Perigoso até. Então, é normal que haja cautela. Mas a cautela não pode ser tão grande que sinalize fraqueza para o outro lado. A maneira como o presidente Lula se posicionou em alguns momentos não foi boa. Por exemplo, quando perguntaram se ele ainda via alguma possibilidade de resolver o problema do sequestro do Maduro e da sua esposa, ele respondeu algo como "essa não é a minha preocupação prioritária". E acrescentou que a preocupação principal é a democracia na Venezuela. 

Ele não teria procurado se distanciar do vínculo que sempre fazem entre ele e Maduro, dizendo que ele apoia um ditador etc.?

O problema não é você apreciar as qualidades de Maduro ou não. O problema não é se você acha que o governo Maduro foi um governo competente ou não. O problema é que um presidente de um país vizinho foi sequestrado, com muita gente morrendo na operação, e foi levado para outro país — os Estados Unidos — para ser julgado. Isso é de uma gravidade inimaginável. Não é aceitável. E, agora, Cuba está sob cerco cerrado. Eu não vi manifestações importantes do governo brasileiro sobre isso. Democracia é bom, mas, como é que vai ser feita a democracia se o controle e a tutela são dos Estados Unidos? Muito mais importante do que essa conversa de democracia é reconhecer que Cuba está sendo massacrada e que a soberania da Venezuela vem sendo gravemente afetada, não só pelo sequestro do presidente, mas pela tutela que os Estados Unidos estão estabelecendo sobre a Venezuela. 

O Lula não estaria tentando dar um tom mais diplomático e mais é dialógico com o próprio Trump, como é já característico da democracia brasileira, sem comprar briga, mas negociando. Ou o senhor acha que ele não quer mesmo se envolver?

O diálogo é sempre importante. Soluções diplomáticas são sempre importantes, mas em situações de emergência, diante dos casos graves que acontecem na Venezuela e em Cuba, a situação muda. A postura tem que ser diferente. O Brasil quer ser um anão diplomático?  Nos momentos difíceis é que você vê o valor que a pessoa tem, não é? Ou que a política externa de um país tem. Não tenho conversado com ninguém do governo desde dezembro. Pode ser que estejam fazendo coisas extraordinariamente positivas nos bastidores. Espero que sim. Mas fica a dúvida. 

O Lula sempre mostrou a pretensão de ser o grande líder da América Latina. Pelo que eu estou depreendendo da nossa conversa, o senhor está apostando mais na Cláudia Scheinbaum para essa posição ou o senhor acha que o Lula é, sim, essa grande liderança?

O Brasil não deve nunca pleitear liderança. O Brasil tem que cooperar com todos os países da América Latina, grandes, pequenos e médios. Em igualdade de condições, sem se intrometer nos assuntos internos dos países. Essa é a postura correta. Agora, claro, o Brasil é o maior país da América Latina. Então, o posicionamento do Brasil em todas as questões tem naturalmente grande influência. Todo mundo fica olhando para o Brasil. O que o Brasil vai fazer? Como é que o Brasil vai se comportar? O Brasil vai agir ou vai ficar omisso? Está agindo nos bastidores ou não está fazendo nada? Lula tem as suas habilidades negociadoras, e já mostrou isso várias vezes. Mas o quadro atual é bem difícil.

Por quê?

Existe, hoje, uma super potência delinquente, que está em ação, com foco no Hemisfério Ocidental, conforme declarações repetidas do presidente Trump, de seus ministros e documentos oficiais de estratégia e de defesa recém-divulgados pelo governo dos EUA. Então, é uma situação peculiar. Não é uma situação que vai ser resolvida com tapinha nas costas, sorrisos, simpatia e piadas. 

Essa pessoa delinquente que o senhor cita disse que rolou uma química entre ele e Lula e Lula declarou que foi paixão à primeira vista. Esperava-se essa postura de Lula?

Considerando o que tem acontecido no mundo, o que aconteceu na Venezuela, o que está acontecendo em Cuba, Lula dizer que houve amor à primeira vista entre ele e o presidente dos Estados Unidos é — vou usar uma palavra forte — simplesmente ridículo. Espero que ele não use mais essa linguagem. 

Qual deve ser a postura dele, enquanto presidente da maior potência da América do Sul,  no diálogo que vai ter com o Trump, em março?

Não sei. Não arrisco opinar porque não sei como é que estão as tratativas. 

Mas o que o senhor esperaria de um presidente do Brasil, numa situação como essa, que a gente vive na América Latina? 

Como eu disse, nós temos uma situação nova. Especialmente agora, nesse início de 2026, com o que vem ocorrendo na Venezuela, em Cuba e alguns outros países latino-americanos. Do outro lado do mundo, temos a crise de Israel e EUA com o Irã. Então, você não pode continuar com "business as usual". Eu noto, por exemplo, que as tarifas sobre o Brasil foram aumentadas nos Estados Unidos. Estão bem mais altas do que estavam antes do tarifaço, apesar das reduções posteriores. Então, por que o Brasil não aplicou medidas de reciprocidade? A tarifa média sobre exportações brasileiras aos Estados Unidos está consideravelmente mais alta do que era antes do tarifaço de julho. E ficou por isso mesmo. E ainda tentaram vender a ideia de  que essas reduções recentes foram uma grande vitória. Foi mera contenção de estragos. 

Na viagem que fez à Índia, em entrevista a uma TV local, ele foi mais duro em relação à situação de Maduro. Disse que a prisão é inaceitável e que Maduro deve ser julgado em seu país. É esse o tom que o senhor sugere? Acha que deve levar o mesmo discurso diretamente a Trump? 

As declarações na Índia sobre Venezuela foram bem melhores do que as anteriores. O tom foi adequado. Como Lula disse, se Maduro tiver de ser julgado, deve ser na Venezuela, não no exterior. E é importante levar o tema diretamente a Trump. Creio que Lula fará isso.  

Como o senhor avalia a desvalorização do dólar no mundo? Acha que o momento é oportuno para implantar a desdolarização do comércio exterior?

O dólar ainda é a principal moeda no mundo, mas está perdendo espaço gradualmente. Os Estados Unidos têm abusado do dólar e do sistema financeiro ocidental para impor sanções de vários tipos a outros países. O dólar virou uma moeda perigosa. Além disso, a economia americana apresenta muitas fragilidades, notadamente fiscais e financeiras. Isso abala a confiança no dólar. Não se pode descartar um colapso financeiro semelhante à crise de 2008 e 2009. Se isso acontecer, o abalo para o dólar será enorme.

Sem dúvida que o momento é oportuno para intensificar a desdolarização das transações internacionais do Brasil e de outros países. Temos também que modificar a composição das nossas reservas, diminuindo o peso do dólar e dos títulos do Tesouro dos EUA. Parece que o Banco Central, tardiamente, começou a se mover para desdolarizar as reservas do Brasil. No médio e longo prazos, acredito que teremos de construir uma nova moeda de reserva, centrada no BRICS, e restrita a transações internacionais e à aplicação das reservas internacionais dos países.   

O senhor tem se mostrado contrário ao acordo Mercosul-União Europeia. Disse que era ruim, ficou pior. Por que o senhor é tão refratário? 

É um acordo desigual. As concessões que o Brasil faz na área industrial são muito grandes. A agricultura familiar também é prejudicada. Abre-se o mercado brasileiro para as grandes corporações europeias. Isso vai ocorrer ao longo do tempo, em etapas e chegando a uma abertura total ou quase total. Como se as empresas brasileiras já estivessem em condições de competir em pé de igualdade com as grandes corporações europeias, sobretudo alemãs. E as vantagens que o Brasil teve são pequenas. São pequenos aumentos de acesso aos mercados da União Europeia, principalmente em agropecuária, mas, mesmo assim, são aumentos condicionados, porque na reta final os europeus, para agradar a lobbies rurais, conseguiram colocar salvaguardas adicionais, que permitem retirar as concessões feitas ao Mercosul em caso de aumento expressivo das importações. Então, o que já era ruim ficou ainda pior. Lamento, porque isso vai dar o tom para uma série de negociações comerciais que o Brasil está fazendo ou fará no futuro.

No governo anterior, o senhor disse, várias vezes, que Bolsonaro conseguiu colocar o Brasil como pária do mundo. O Lula já conseguiu tirar o país dessa condição?

Sim, claro que melhorou a imagem do Brasil no mundo. O governo anterior foi um desastre completo. Em tudo, praticamente tudo. Então, é uma base de comparação muito fácil. Qualquer coisa que se fizesse depois daquele desastre que foi o governo Bolsonaro melhoraria a posição brasileira. Mas isso é aceitar um patamar muito baixo de comparação. O Brasil melhorou sua imagem? Sim, melhorou. O Lula tem prestígio no exterior? Tem. Até porque o vácuo de liderança no mundo é impressionante.

 


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Por Edla Lula
postado em 23/02/2026 03:52
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