Relações internacionais

Ajuda brasileira a Cuba será limitada

Contidas pelo endurecimento dos EUA contra a ilha, ações em análise pelo governo brasileiro tendem a ser paliativas

Em 2025, o Brasil recebeu 41.919 solicitações de refúgio apresentadas por pessoas de nacionalidade cubana. O número representa 55,4 % de todos os 75.599 pedidos feitos no ano passado, segundo o Observatório das Migrações Internacionais (OBMig), do Ministério da Justiça. 

Os dados deste início de ano ainda não foram disponibilizados, mas as estimativas são de um grande número de cubanos tentando chegar ao país, diante do recrudescimento do boicote promovido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

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Especialistas calculam que as sanções norte-americanas tenham causado prejuízos que ultrapassam os U$ 7 bilhões desde maio do ano passado, quando os Estados Unidos incluíram novamente Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo. Aliás, em um dos primeiros atos de sua posse, em 20 de janeiro de 2024, Trump revogou a decisão do antecessor, Joe Biden, que havia retirado Cuba de uma lista criada por ele em seu primeiro mandato.

Conforme informou o Correio na edição da última segunda-feira, a ilha está à beira de um colapso econômico desde que Trump resolveu taxar países que fornecessem petróleo a Cuba, em janeiro. Por isso, o governo brasileiro estuda enviar ajuda humanitária ao país. 

As medidas a serem adotadas envolvem doações de medicamentos, alimentos, maquinário agrícola e assistência técnica. Em conversa com o Correio, o ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, informou que a ajuda emergencial está em análise no Ministério das Relações Exteriores, por meio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), tendo em vista as implicações diplomáticas nas decisões que o Brasil venha a adotar, por causa das restrições norte-americanas. 

"Há uma profunda crise humanitária, em virtude do bloqueio econômico imposto pelos EUA, que agora impede até o fornecimento de petróleo, fonte básica de energia para a ilha", disse Teixeira, ao confirmar a ajuda, mas situando as limitações, por causa do embargo. "O MDA já está enviando alimentos, máquinas e insumos agrícolas", completou o ministro. Também já estão sendo enviados medicamentos, o que configura o caráter humanitário. Para ações mais estruturais, são necessárias as análises mais profundas que a ABC está fazendo.

O governo tem sido pressionado por entidades e movimentos sociais, berço político de Lula — como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra  (MST) e a Federação Única dos Petroleiros — a fornecer petróleo, a partir da Petrobras. Mas o tema é considerado sensível. 

Segundo fontes que acompanham a discussão, o presidente brasileiro colocará o assunto na pauta do encontro que terá com Trump no próximo mês, em viagem que fará aos Estados Unidos. No início deste mês, no encontro nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), Lula fez duras críticas ao norte-americano.

Crise humanitária

Sem petróleo e sem energia elétrica, Cuba passa por uma crise humanitária nunca vista, conforme atesta Frei Betto, especialista no assunto, que desde 1981 atua em Cuba e vive na ponte aérea entre São Paulo e Havanna. 

"Eu vou a Cuba desde 1981, nunca presenciei situações piores do que as que vejo agora. Presenciei situações muito difíceis, por exemplo, no período que durou de 1990 a 1995, devido à queda do Muro de Berlim e a desagregação da União Soviética. Mas, devido à resiliência que os cubanos têm, que é extremamente admirável, eles superaram", diz. 

Ele recorda que Cuba vem sofrendo bloqueio desde 1961, mas resistindo heroicamente, a ponto de ser "o país proporcionalmente com maior número de médicos em todo o continente americano." Desta vez, no entanto, o país parece não encontrar saídas.

Ele cita que Cuba produz 30% do petróleo de que necessita. O consumo diário é de 100 mil barris, dos quais o país só consegue produzir 40 mil. "Isso está afetando duramente as condições normais de vida em Cuba", lamenta.

Por isso, Frei Betto diz que as medidas que o Brasil e outros países estão anunciando "são paliativas". Ele concorda que a melhor solução seria o fornecimento de Petróleo. "Felizmente a Rússia, que não tem medo de sanção, está enviando um navio. Mas também é paliativo", observa.

Para ele, o melhor seria a retomada do fornecimento pela Venezuela. "Mas sob intervenção dos EUA, a Venezuela está impedida de manter esse fornecimento", comenta.

O economista e professor da Universidade de Brasília (UnB) José Luis Oreiro está entre os que concordam que o Brasil terá que oferecer a Cuba ajuda que vá além do alimento e medicamento, como petróleo. Mas ressalta que não pode ser permanente. "Se não houver essa ajuda, nós vamos ter milhares de pessoas passando fome e morrendo de fome em Cuba. Cuba não tem hidrelétrica, não tem usina nuclear, precisam fundamentalmente do petróleo como fonte de energia", opinou. "Essa é uma questão de ajuda humanitária imediata. Agora, é preciso uma solução definitiva para o problema de Cuba", ponderou.

Campanha

Nesta quarta-feira de cinzas, Frei Betto, que é frade dominicano, iniciou uma campanha entre os católicos, para que sejam doados recursos para o Instituto Cultivar, que está enviando medicamentos a Cuba. "Há 30 anos faço uma campanha de Quaresma para que as pessoas possam ajudar alguma obra social na qual eu confio. Este ano escolhi a compra de medicamentos para Cuba, que está vivendo uma situação extremamente difícil".

Desde 2023, início do governo Lula, o Brasil retomou a cooperação com o país de Fidel Castro e já vem doando insumos de saúde e alimento. Em setembro daquele ano, na Cúpula de Líderes do G77 + China, foram assinados acordos. No ano passado, no Encontro de Alto Nível sobre Políticas Públicas para a Soberania Alimentar, também em Havana, foram tratadas ações no campo da segurança alimentar. Esses temas é que estão em análise na ABC para que sejam acelerados.

 

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