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Prévia da inflação dispara 0,84% e surpreende mercado

Em fevereiro, alta do IPCA-15 ficou acima do que a esperada pelo mercado, de 0,56%, e, apesar de manterem previsão de corte da taxa Selic em março, analistas esperam um Banco Central bem mais cauteloso

Apesar de a inflação encerrar 2025 acomodada e abaixo do teto da meta, de 4,50%, a prévia da inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), acelerou acima do esperado em fevereiro e, com isso, deve abrir espaço para revisões nas projeções para a taxa básica de juros (Selic) deste ano.

De acordo com especialistas, como o Banco Central já sinalizou corte na Selic na segunda reunião do ano do Comitê de Política Monetária (Copom), nos dias 17 e 18 de março, tudo indica que o volume de apostas para um corte mais moderado, de 0,25 ponto percentual em vez de 0,50 pontos-base — que estava virando consenso no mercado —, parece ser mais acertado no momento. E, com isso, a dúvida crescente será a taxa no fim do ano, que pode ficar acima dos 12,25% anuais previstos na mediana das estimativas coletadas pelo BC no boletim Focus desta semana.

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Pressões inflacionárias acima do esperado em pleno ano eleitoral — quando os governos costumam estimular a economia por meio de estímulos fiscais — podem ser um desafio adicional para o Copom fazer a inflação convergir para o centro da meta, de 3%.

"O Copom deverá cortar a Selic em 0,25 ponto-percentual, pois tem um complicador nos núcleos da inflação, que continuam bastante pressionados. O BC deve continuar conservador e o passo seguinte a março será a grande dúvida do mercado", comentou o economista-chefe da Lev Intelligence, Jason Vieira.

Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados ontem, o IPCA-15 acelerou de 0,20%, em janeiro, para 0,84%, em fevereiro, pressionada principalmente pelos reajustes nas mensalidades de escolas e cursos no início do ano letivo. As apostas do mercado esperavam uma alta de 0,56% no indicador. Oito dos nove grupos pesquisados registram alta em fevereiro, queda da energia elétrica e do vestuário ajuda a conter a inflação geral.

"Um número como o de hoje (ontem) assusta. Mas, apesar dos pesares não devemos considerar que isso é o novo normal da inflação do Brasil. Tivemos um conjunto de fatores que explicam esse resultado elevado, como aumentos das passagens de ônibus em várias capitais brasileiras, a contabilização total do aumento das mensalidades escolares, o aumento do ICMS sobre combustíveis em janeiro e até uma surpreendente elevação das passagens aéreas", destacou Luis Otávio Leal, economista-chefe da G5 Partners. Ele elevou de 0,45% para 0,58% a previsão para o IPCA de fevereiro e, para o ano, reduziu a projeção para a inflação oficial de 4,30% para 4,20%, devido à recente desvalorização do dólar frente ao real, que encerrou o dia de ontem cotado a R$ 5,13%. "Outra consequência do resultado do IPCA-15 deve ser refluir o otimismo recente com o tamanho dos cortes de juros", disse Leal, que manteve em 0,50 ponto percentual a aposta de queda da Selic em março.

Desempenho

A maior variação no IPCA-15 de fevereiro foi observada no grupo educação, que avançou 5,20%, com destaque para os cursos regulares, que subiram 6,18%. As maiores altas ocorreram no ensino médio (8,19%), no ensino fundamental (8,07%) e na pré-escola (7,49%).

O grupo transportes também exerceu pressão relevante sobre o índice, ao avançar 1,72% no mês. O principal impacto veio das passagens aéreas, que dispararam 11,64%. Entre os combustíveis, houve alta média de 1,38%, com aumento nos preços do etanol em 2,51%, da gasolina em 1,30% e do óleo diesel em 0,44%. Em sentido oposto, o gás veicular registrou queda de 1,06%.

No grupo alimentação e bebidas, que avançou 0,20% e contribuiu com 0,04 ponto percentual para o IPCA-15 de fevereiro, a alimentação no domicílio teve alta de 0,09% em fevereiro. Entre os maiores aumentos, destacaram-se o tomate, que disparou 10,09%, e as carnes, que subiram 0,76%. Em contrapartida, o arroz recuou 2,47%, o frango em pedaços caiu 1,55% e as frutas tiveram queda de 1,33%. A alimentação fora do domicílio registrou aumento mais expressivo, de 0,46%, impulsionada pela alta das refeições, de 0,62%, e dos lanches, de 0,28%.

O grupo habitação, por sua vez, registrou alta de 0,06% em fevereiro, após queda em janeiro. A energia elétrica residencial, que recuou 1,37%, foi o subitem com maior impacto negativo no índice, contribuindo para aliviar a pressão sobre a inflação devido à entrada em vigor da bandeira verde em janeiro. Já o grupo vestuário apresentou a única variação negativa do período, com preços caindo 0,42%.

Política monetária

No ano, o IPCA-15 acumula alta de 1,04% no ano e de 4,10% em 12 meses, sinalizando desaceleração no ritmo de alta dos preços. O dado segue abaixo do teto da meta, de 4,50%. Pelo regime de meta contínua, o descumprimento só é caracterizado caso a inflação acumulada em 12 meses supere esse limite por seis leituras consecutivas.

Na avaliação de analistas, a desaceleração dos preços tende a aliviar a pressão para a manutenção dos juros em patamares elevados por um período prolongado. "A alta do IPCA-15 em fevereiro veio acima do esperado pelo mercado, mas reflete principalmente fatores sazonais, como os reajustes de mensalidades escolares e o aumento de passagens aéreas no início do ano", destacou Peterson Rizzo, gerente de R.I. da Multiplike.

"Apesar da aceleração no mês, o acumulado em 12 meses recuou, o que mostra que não há uma pressão inflacionária generalizada. Portanto, esse resultado não altera as projeções para os cortes da Selic", disse

Para Sidney Lima, Analista da Ouro Preto Investimentos, ao acelerar puxado principalmente por educação e serviços, confirma que a inflação brasileira não está fora de controle, mas tampouco está completamente domada.

"O que vemos é uma inflação menos disseminada em bens industriais e mais concentrada em segmentos rígidos, especialmente serviços, que respondem com mais lentidão ao aperto monetário. Isso reforça a leitura de que o processo de desinflação é gradual e sujeito a ruídos sazonais, o que exige cautela do Banco Central", afirmou.

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O economista Fabio Romão, analista da Logos Economia, lembrou que a aceleração no dado de fevereiro do IPCA-15 sinaliza uma alta de 0,73% no IPCA de fevereiro, e, para o ano de 2026, o indicador deverá terminar o ano em 4%, taxa levemente acima das projeções do mercado. "Reiteramos a nossa previsão para o início do processo de cortes da Selic em março, mas em 0,25 ponto percentual. E, pelo que vi em alguns relatórios, não acredito que haverá mudanças radicais nas previsões para o IPCA deste ano. Talvez estanque esse movimento de revisão para baixo no indicador", disse.

No boletim Focus desta semana, a mediana das estimativas para o IPCA deste ano foi reduzida pela sétima semana seguida, para 3,91%.

Bandeira verde mantida

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) anunciou, ontem, a manutenção da bandeira tarifária verde em março, reduzindo pressões inflacionárias nas residências, devido ao aumento do volume de chuvas em fevereiro, que elevou o nível dos reservatórios.

Desde janeiro, a conta de luz do consumidor deixou de ter valor adicional na fatura. Contudo, a Aneel ainda pode acionar as usinas termelétricas, "como garantia para a robustez do sistema elétrico em situações operativas específicas".

A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) considerou como positiva a manutenção da bandeira verde, porque ela "contribui para dar previsibilidade ao setor produtivo e aliviar pressões sobre os custos industriais, em um momento que ainda demanda cautela no ambiente econômico".

 

 

 

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