
O Mercosul trabalha com a expectativa de avançar ainda no primeiro semestre nas negociações de um acordo de livre-comércio com os Emirados Árabes Unidos. O processo, porém, enfrenta incertezas provocadas pelo conflito no Oriente Médio.
Em meio à busca do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva por diversificar parceiros comerciais, o Brasil tem assumido papel de destaque nas tratativas com o país do Golfo.
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O tratado segue a lógica do acordo firmado recentemente entre o bloco sul-americano e a União Europeia e prevê a redução gradual e, em alguns casos, a eliminação de tarifas alfandegárias no comércio entre as partes.
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Do lado do Mercosul, a estratégia é ampliar as exportações de produtos nos quais o bloco possui vantagem competitiva, como proteína animal, açúcar e grãos. Em contrapartida, há expectativa de aumento nas importações de fertilizantes provenientes dos Emirados Árabes Unidos, insumo considerado estratégico para o agronegócio da região.
Atualmente sob presidência temporária do Paraguai, o Mercosul divulgou no mês passado uma carta com as prioridades do bloco para os próximos seis meses. O documento, discutido entre os países-membros — Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai —, estabelece como diretriz a ampliação de mercados e o fortalecimento de uma rede mais diversificada de acordos comerciais. Nesse contexto se inserem os esforços para aprofundar as negociações com países do mundo árabe.
Embora sejam consideradas em estágio avançado por interlocutores do Parlamento do Mercosul, as tratativas com os Emirados Árabes ainda enfrentam alguns entraves. Entre eles estão as incertezas provocadas pelo conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, além de divergências sobre a definição das regras de origem para produtos destinados aos países do bloco sul-americano.
Essas regras correspondem aos critérios técnicos que determinam se um bem pode ser considerado efetivamente produzido em um dos países signatários de um acordo comercial. No caso das tratativas em curso, o Mercosul busca garantias de que os produtos exportados pelos Emirados Árabes Unidos sejam de fato fabricados no território da federação, composta por sete monarquias.
Segundo interlocutores do bloco, a proposta em discussão prevê que ao menos 70% do processo produtivo dos bens exportados ao Mercosul ocorra nos Emirados Árabes. O objetivo é evitar que produtos de terceiros países sejam reexportados ao mercado sul-americano sem cumprir as regras do acordo.
A preocupação é que, sem garantias claras de origem, o tratado possa abrir espaço para triangulação comercial, com mercadorias estrangeiras entrando no Mercosul por meio dos Emirados para aproveitar tarifas reduzidas. "Sem a garantia de origem num acordo com os Emirados Árabes, há um receio de que produtos fabricados na Índia ou na Turquia e importados pelos Árabes, por exemplo, entrem no Mercosul com tarifa zero", explicou um interlocutor do Parlamento do Mercado Comum do Sul, ao Correio.
O conflito envolvendo o Irã também tem dificultado o avanço das negociações. Nesta semana, os Emirados Árabes Unidos foram alvo de mísseis e drones iranianos, que atingiram a embaixada dos Estados Unidos em Abu Dhabi e um hotel em Dubai. Os ataques foram apresentados por Teerã como resposta à ofensiva de Estados Unidos e Israel que matou o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, no fim de fevereiro.
Parceira estratégica
Na semana que antecedeu a aprovação, pelo Congresso brasileiro, do acordo entre Mercosul e União Europeia, o presidente Lula se reuniu em Abu Dhabi com o líder dos Emirados Árabes Unidos, xeique Mohammed bin Zayed Al Nahyan. Durante o encontro, o petista ressaltou a importância da participação dos Emirados no Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), lançado na COP30, em 2025, e convidou o líder emiradense para visitar o Brasil ainda neste ano.
Segundo o Palácio do Planalto, os dois reafirmaram o interesse em aprofundar a parceria estratégica entre os países e trocaram avaliações sobre iniciativas para promover a paz e a estabilidade no Oriente Médio e no cenário internacional. A reunião ocorreu poucos dias antes dos ataques de Estados Unidos e Israel contra o Irã, realizados na manhã do dia 28 de fevereiro.
Tarifas dos EUA
A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor tarifas globais de 10% sobre produtos importados reacendeu os canais de negociação do Mercosul. Para o internacionalista Vito Villar, no entanto, o acordo com os Emirados Árabes Unidos tende a ter maior impacto para os países sul-americanos principalmente no campo das importações.
Seria, sim, um meio de abertura comercial do Brasil — como integrante do Mercosul — para importações de outras partes do mundo. Isso promoveria ganho de competitividade interna no país, com melhora de preços para os consumidores, entre outros efeitos", exemplificou o especialista em Comércio Internacional e coordenador da BMJ Consultores Associados.
No campo das exportações, o internacionalista acrescenta que um eventual acordo comercial pode ampliar o acesso de produtos brasileiros a mercados do centro da Ásia e da própria Península Arábica. "Temos o fato de ser muito relevante o acordo ampliar o acesso ao mercado internacional."
"Os Emirados Árabes têm uma das zonas francas mais e pujantes do mundo, muito bem desenvolvida e consegue fazer com que os produtos brasileiros possam acessar mercados que outrora não conseguiam, especialmente no centro da Ásia e na própria Península Arábica", detalhou Vito Villar.

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