
O governo federal anunciou ontem uma série de medidas para tentar conter o aumento do preço dos combustíveis no Brasil, sob influência da guerra no Irã. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou que a alíquota do PIS/Cofins sobre o diesel para importação e comercialização seja zerada, e, para compensar, aumentou para 12% a taxa sobre a venda de petróleo para o exterior. Além disso, Lula criou um incentivo para a produção e importação de diesel, além de ações para combater a especulação e cobranças abusivas em postos. A expectativa é que, nas bombas, o litro do diesel caia R$ 0,64.
O Executivo estima que as mudanças ficarão em vigor até dezembro, mas podem ser revistas antes. Também não deve haver impacto fiscal. A renúncia será da ordem de R$ 20 bilhões até 31 de dezembro deste ano, e o incentivo custará R$ 10 bilhões no mesmo período. A arrecadação será compensada pela taxa de exportação sobre petróleo, estimada em R$ 30 bilhões.
"Vocês estão vendo que o preço do petróleo está saindo do controle em todos os países", disse Lula durante o anúncio. No momento do anúncio, o preço do petróleo Brent — referência mundial — estava acima de US$ 100. Em resposta aos ataques dos Estados Unidos e Israel, o Irã praticamente fechou o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% da produção mundial de petróleo. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), é o maior bloqueio no fornecimento da commodity da história.
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O governo fez uma série de reuniões desde o início da semana, inclusive com a presença de Lula, para acompanhar a crise. Com a escalada do conflito, decidiu agir. A maior preocupação é com o impacto inflacionário do aumento do petróleo, que tende a encarecer praticamente todos os produtos consumidos no Brasil, especialmente os alimentos. Isso acendeu um alerta no Planalto, ainda mais em ano eleitoral.
"Estamos dizendo, em alto e bom som, que estamos fazendo um sacrifício enorme aqui. Uma engenharia econômica, para evitar que os efeitos das irresponsabilidades da guerra cheguem ao povo brasileiro", disse Lula. Ele pediu ainda a colaboração dos governadores, já que um dos impostos que incidem sobre os combustíveis é estadual, o ICMS. "Nós vamos fazer tudo o que for possível, e, quem sabe, esperar a boa vontade dos governadores dos estados para que possam reduzir um pouco o ICMS, para que a gente garanta que essa guerra não chegue ao bolso do motorista, do caminhoneiro, e, sobretudo, ao prato de feijão, à salada, a alface, à cebola", acrescentou Lula. Segundo interlocutores do Planalto, há disposição do governo de negociar a redução do ICMS com os governos estaduais.
As ações anunciadas pelo Executivo não interferem nas decisões da Petrobras. Ou seja, a estatal pode decidir aumentar o preço interno do petróleo, o que diminuiria os benefícios sentidos pela população nas bombas.
Questionado por jornalistas, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que, além de compensar a perda de arrecadação, a taxa de 12% sobre a exportação de petróleo também incentiva que o produto seja vendido às refinarias brasileiras, evitando o desabastecimento. "Não é razoável, mantidos os preços de produção estáveis como estão hoje no Brasil, que você tenha um aumento de lucros extraordinários em função de uma guerra, que não está sob o nosso controle resolver", comentou o ministro da Fazenda.
Ele também admitiu que as medidas podem ser revistas se o conflito no Oriente Médio arrefecer. Na avaliação de Haddad, a pressão do aumento do preço do petróleo na economia interna dos EUA pode reduzir o apoio à guerra.
Fraudes na mira
Outra frente de ação do governo é o combate a práticas abusivas na cadeia dos combustíveis. O Executivo estabeleceu duas multas, que podem se sobrepor: uma entre R$ 50 mil e R$ 500 milhões para postos que elevarem os preços de forma abusiva em situações de conflitos geopolíticos ou calamidades; e outra, na mesma faixa de valor, para postos que interromperem o fornecimento de combustíveis de forma injustificada. O mesmo texto também obriga os postos a deixarem em local visível aos consumidores informações sobre a redução dos impostos federais.
Ao contrário da isenção do PIS/Cofins para o diesel, essa ação é de caráter permanente, como explicou o ministro da Casa Civil, Rui Costa. "Para coibir essas práticas lesivas ao consumidor e que não guardam relação com os custos e nem com as margens de lucros normais que as empresas têm, os órgãos de controle poderiam estar atuando e, portanto, é o que nós vamos fazer agora e essas medidas serão permanentes", afirmou.
Segundo o ministro Alexandre Silveira, haverá uma cooperação maior entre a Receita Federal, a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a Polícia Federal (PF), a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). O governo detectou, por exemplo, nos últimos dias, que distribuidoras de menor porte seguraram a venda de combustíveis para os postos na expectativa de um aumento de preços, praticando especulação.
"Com dados fiscais que, nesse decreto, a Receita Federal passa a fornecer para a ANP, isso vai nos permitir fazer ações conjuntas para que a gente combata os excessos, como tem acontecido em algumas regiões do país nesses primeiros dias de guerra", contou Silveira. Ele citou que distribuidoras de menor porte seguraram a venda de combustíveis para os postos na expectativa de um aumento de preços, praticando especulação e arriscando um desabastecimento. "E, na maioria das regiões do país, nós vivemos um cartel dos postos de gasolina. A criminalização disso será fundamental para que a gente possa proteger o povo brasileiro", acrescentou. O ministro reconheceu que, na cadeia dos combustíveis, "há muito crime contra a economia popular".
Silveira também foi questionado, na coletiva, sobre a pressão de setores do agronegócio para que o governo aumente a porcentagem de biodiesel misturado ao diesel convencional, que atualmente é de 15%, limite determinado pela Lei do Combustível do Futuro. Silveira negou, porém, que o governo vai anunciar um aumento de forma emergencial.
"A lei permite, sim, que, depois de estudos técnicos e objetivos, de qualidade e garantia do combustível nos postos, haja um aumento. Mas, repito, sob estudos técnicos e objetivos, feitos com transparência, com a participação da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), das universidades, para que a gente faça isso com segurança. Nada pode ser feito de forma a prejudicar o consumidor de óleo diesel no Brasil", respondeu o ministro, que lembrou ainda que o biodiesel é mais caro que o óleo de origem mineral, e que aumentar a mistura pode aumentar o preço total.
Distribuição
Em meio à crise nos preços do petróleo a nível internacional, o governo federal também estuda a possibilidade de estatizar novamente a distribuição de combustíveis no país. Até 2019, a Petrobras detinha 71% da BR Distribuidora, quando foi privatizada durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Desde então, a empresa passou a se chamar Vibra Energia e atua com outras companhias no mercado.
Durante a coletiva de ontem, o ministro da Casa Civil confirmou que existe essa possibilidade, mas que há cláusulas legais que dificultam o retorno da Petrobras ao mercado, já que a empresa está impedida de concorrer com a Vibra até 2029. "A Petrobras sempre deteve uma parcela menor do mercado de distribuição e menor ainda do mercado de varejo. Mas mesmo com a participação pequena, a gente tinha uma referência de preço. Como foi privatizado, não tem mais essa referência de preço e o que a gente percebe em muitas cidades e muitas capitais é um abuso da prática de preço", disse Rui Costa. Já o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que a privatização teria sido um crime "lesa-pátria".
No final da tarde, um grupo de ministros se reuniu com representantes das maiores distribuidoras privadas de combustíveis para tratar sobre a medida anunciada por Lula. O governo bateu na tecla para que as empresas repassem a isenção total do imposto para o consumidor. "Temos convicção que teremos uma parceria e uma colaboração importante das distribuidoras no sentido de chegar até a ponta todo esse trabalho", disse o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin.
Ainda segundo o vice, os representantes das distribuidoras teriam sugerido dura Correio Braziliense nte a reunião que a Petrobras eleve a importação de petróleo bruto e combustível. Participaram desse encontro na sede do Ministério de Minas e Energia, além do vice, os ministros Alexandre Silveira, Wellington César, da Justiça, e o secretário executivo da Fazenda, Dario Durigan, que é o principal nome cotado para assumir o ministério no lugar de Fernando Haddad antes das eleições.
"Nós pedimos às distribuidoras que todo o ganho oferecido pelo governo, todo o impacto oferecido pelo governo com as duas medidas, a desoneração e a subvenção, seja imediatamente considerada e repassada, considerada no repasse para a ponta final", salientou Durigan a jornalistas.
Saiba Mais
Victor Correia
RepórterJornalista formado pela UnB, com especialização em Jornalismo Digital pela FAAP. Repórter de Política no Correio desde 2022, atualmente como setorista no Planalto. Também estagiou em Ciência, Saúde e Tecnologia no Correio entre 2016 e 2018.

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