Mineração

Empresa dos EUA compra Serra Velha para explorar terras raras

Operação de US$ 2,8 bilhões, permite o uso da mina Pela Ema, na cidade goiana de Minaçu, para extração de quatro elementos de alto valor para as indústrias de tecnologia e energia

A mineradora USA Rare Earth anunciou, ontem, que fechou um acordo definitivo para comprar 100% do grupo brasileiro Serra Verde, dono da única planta comercialmente ativa de mineração e beneficiamento de terras raras pesadas críticas (ETRPs, na sigla em inglês) fora da Ásia. A mina Pela Ema, na cidade goiana de Minaçu (a 250km de Brasília), extrai em larga escala as quatro ETRPs de mais alto valor para as indústrias de tecnologia e energia: disprósio (Dy), térbio (Tb), praseodímio (Pr) e neodímio (Nd).

Esses quatro metais são essenciais para a produção de ímãs permanentes usados em veículos elétricos, turbinas eólicas, robótica, drones e aparelhos de ar-condicionado de alta eficiência, além de aplicações tecnológicas avançadas nos setores de semicondutores, defesa, nuclear, aeroespacial e outros segmentos estratégicos.

A compra da Serra Verde está estimada em US$ 2,8 bilhões. Segundo a USA Rare Earth, a operação de aquisição será paga com US$ 300 milhões em dinheiro mais a emissão de 126,849 milhões de ações da mineradora americana. O acordo também assegura preços mínimos e a compra de toda a produção por 15 anos, o que reduz o risco dos investimentos diante de oscilações das cotações internacionais. A aquisição deve ser concluída no terceiro trimestre deste ano e dará, aos novos controladores, condições de verticalizar a operação na América Latina — "da mina ao ímã" — e reduzir a dependência do fornecimento da China.

"As operações de mineração e processamento da Serra Verde terão um papel central no estabelecimento da primeira cadeia de suprimentos de terras raras da mina ao ímã fora da Ásia", informou a mineradora brasileira, em comunicado público. O diretor de Operações do Grupo Serra Verde, Ricardo Grossi, avalia que o acordo tem importância estratégica e reforça o Brasil como potência do setor de minerais críticos.

"Esses marcos são um ponto positivo significativo para o Brasil e demonstram a capacidade do país de desempenhar um papel de liderança no desenvolvimento das cadeias globais de suprimentos de terras raras", disse Grossi.

A operação foi bem recebida por investidores internacionais. Ontem, as ações da USA Rare Earth registraram alta de 13% na Nasdaq, a Bolsa de Valores do setor de Tecnologia dos Estados Unidos.

Chineses fora

A conclusão das negociações entre a mineradora brasileira e a USA Rare Earth era esperada pelo mercado desde que o CEO do Grupo Serra Verde, Thras Moraitis — que assumirá a presidência da empresa resultante da aquisição — informou, no fim do ano passado, que deixaria de fornecer os metais críticos a clientes chineses a partir do fim deste ano. A antecipação do encerramento dos contratos de suprimento — que tinham duração de 10 anos — foi anunciada pela própria empresa brasileira, em dezembro do ano passado, abrindo caminho para novos acordos comerciais. Desde o início das operações da mina Pela Ema, em 2024, quase toda produção da planta da Serra Verde é destinada a compradores da China.

Em fevereiro deste ano, o governo dos Estados Unidos aprovou um financiamento de US$ 565 milhões à Serra Verde, por meio da Cooperação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (DFC). Uma parte desse dinheiro será usada para aumentar a produção em Minaçu, que deve chegar, em 2027, a 6,5 toneladas anuais — metade da oferta disponível de terras raras pesadas fora da China.

 

Parcerias

A operação integra a política da Casa Branca de criar uma cadeia global confiável de fornecimento de terras raras para reduzir a dependência da produção da China, que detém 70% das reservas globais e mais de 90% do beneficiamento desses minerais críticos.

As terras raras também são item estratégico na pauta de negociações do governo brasileiro com a Casa Branca em relação a tarifas e acordos comerciais. Detentor da segunda maior reserva global desses metais, o Brasil usa essa posição como trunfo nas negociações, que ainda estão em curso, acenando com a possibilidade de abrir ainda mais o mercado nacional para investidores dos Estados Unidos.

Elas também estão na mira de governos e investidores europeus. Ontem, o governo brasileiro assinou acordo de cooperação com a Alemanha para desenvolvimento, mineração, refino, gestão ambiental, uso de tecnologias digitais e troca de conhecimentos na área de terras raras. Já havia assinado outro acordo, com o mesmo teor, com a Espanha, na última sexta-feira.

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