Estocolmo — Vice-presidente de Comunicação da Philip Morris International (PMI), Tommaso Di Giovanni afirma que o Brasil precisa aprofundar o debate sobre a regulamentação e rever a proibição do consumo dos produtos sem fumaça, cigarros eletrônicos, tabaco aquecido e sachês de nicotina. Em entrevista conjunta a sete jornalistas brasileiros durante o Technovation 2026, evento realizado pela multinacional na semana passada na capital da Suécia para discutir inovação e regulação na indústria tabagista, ele avalia que a América Latina começa a seguir o caminho de países europeus e asiáticos que flexibilizaram regras para esses produtos com foco na redução de danos e no combate ao mercado ilegal.
Tommaso cita exemplos recentes da Argentina e do México, que passaram a rever restrições e abrir espaço para alternativas reguladas. Segundo ele, a experiência internacional mostra que a legalização acompanhada de fiscalização reduz o consumo de cigarros tradicionais e amplia o controle sobre venda para menores de idade.
O executivo também rebate críticas sobre uma possível relação entre os novos produtos e o aumento do tabagismo. De acordo com ele, estudos internacionais indicam justamente o contrário: consumidores tenderiam a migrar do cigarro convencional para alternativas consideradas menos nocivas.
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Na entrevista, Tommaso defende uma abordagem “pragmática” para o tema e afirma que a proibição total fortalece o comércio ilegal. Ele sustenta ainda que o Brasil precisa ampliar o acesso à informação sobre redução de danos, em meio ao crescimento do mercado informal e ao avanço do consumo de cigarros eletrônicos mesmo sem regulamentação no país.
A Argentina autorizou, no início do mês, a regulamentação sobre vapes e produtos sem fumaça. Qual a avaliação da PMI sobre essa mudança e como o Brasil pode discutir o assunto?
Até pouco tempo atrás, a América Latina era a região que mais proibia produtos sem fumaça, por alguma razão que eu não consigo entender. Enquanto isso, países da Europa liberalizaram esses produtos, assim como mercados da Ásia, como Japão e Filipinas, além da Nova Zelândia, que talvez tenha hoje a legislação mais avançada do mundo nesse tema, com resultados muito positivos. Na América Latina, por alguma razão, prevalecia a proibição. Recentemente, no México, houve uma decisão judicial que permitiu novamente a comercialização de sachês de nicotina e produtos de tabaco aquecido. Agora, a Argentina também alterou sua legislação e abriu o mercado para esses produtos. Pelo que li sobre a decisão argentina, um dos argumentos centrais foi o combate ao comércio ilícito. O governo percebeu que não conseguia controlar o mercado ilegal e concluiu que era melhor permitir produtos regulamentados, controlados e tributados. Dessa forma, também é possível fiscalizar melhor o acesso de menores de idade. Isso faz sentido e é o que vemos em outros países: quando há alternativas reguladas, o consumo de cigarro cai rapidamente. A Argentina está seguindo um caminho semelhante ao de países como Nova Zelândia, Itália, Grécia e Japão. A tendência é de queda no consumo de cigarros e aumento no uso desses produtos (sem fumaça), que são menos nocivos. Com isso, a saúde pública tende a melhorar. E os Estados Unidos também tem esse tipo de legislação.
No Brasil, o cigarro tradicional é vendido em locais frequentados por crianças e adolescentes. Aqui na Suécia, vemos lojas específicas para vender produtos sem fumaça, à base de nicotina. Como funcionaria a comercialização desses novos produtos, se por acaso a venda passasse a ser permitida pelas autoridades sanitárias brasileiras?
O primeiro ponto é que vender no mercado legal é sempre melhor nessas lojas do que deixar o produto no comércio ilícito. No mercado formal, existe fiscalização. O governo pode controlar a venda e deixar claro que esses produtos não devem ser vendidos para menores. No comércio ilegal, isso é impossível. Por definição, ele é ilícito, você não controla o que acontece. Além disso, no mercado formal há controle de qualidade, o que não acontece no ilegal. Há claramente um problema de fiscalização. Onde tem uma fiscalização boa, eu posso te dizer: vender pelo canal lícito é bem melhor. E em países que nem os Estados Unidos, por exemplo, a gente sabe que tem muito pouco acesso de menores aos sachês de nicotina. O CDC, que é a Agência pela Saúde Pública, e a Food and Drug Administration, que é outra agência para saúde pública, estimam que os sachês de nicotina representam de 1,8% a 2,2% do consumo. Isso é muito baixo. Por quê? Porque tem uma fiscalização boa. Tem campanhas contra o uso de menores e as empresas são responsabilizadas também. As empresas também têm responsabilidade nisso. Nas lojas próprias da PMI, por exemplo, os funcionários são treinados para não vender a menores nem para pessoas que não fumam. Em vários países europeus, existe um sistema de licenciamento e fiscalização do varejo.
No Brasil, o cigarro está presente no negócio do pequeno varejista, na padaria, no posto de combustível, no pequeno comerciante. Esses produtos sem fumaça, à base de nicotina, são mais caros. Em caso de regularização, como seriam vendidos, seriam em lojas próprias?
Eu vou te dizer o que acontece com o Iqos (um dispositivo longo de tabaco aquecido, em formato de caneta, parecido com cigarro eletrônico). No caso do Iqos, na maioria dos países a gente tem as nossas lojas. Então, o controle é feito por nós mesmos. Os nossos funcionários são treinados para não vender para menores e para quem não usa a nicotina. Mas, na maioria dos países, a gente controla a venda da parte eletrônica, o que nos dá muita margem para operar de um jeito inteligente e não vender para menores. Enquanto no varejo, daí tem uma fiscalização em vários países que é do governo, porque, por exemplo, na Europa o varejo costumava ser monopólio de Estado. Isso é muito melhor do que deixar tudo nas mãos do comércio ilegal.
Algumas pessoas associam os novos produtos ao aumento recente do número de fumantes de cigarro tradicional. Como veem isso?
Não existe evidência científica que comprove isso. Pelo contrário: as evidências mostram que esses produtos ajudam a reduzir o consumo de cigarros. Países como Japão, Itália e Grécia registraram queda no consumo de cigarros paralelamente ao crescimento dos produtos sem fumaça. Lá tem uma mudança bem clara de consumo. No Japão, por exemplo, desde a introdução do tabaco aquecido há oito, 10 anos, a velocidade de queda no consumo de cigarros aumentou cinco vezes. Existem estudos de pesquisadores americanos e canadenses mostrando isso. A transição observada é do cigarro tradicional para os novos produtos, e não o contrário. Quem usa cigarro eletrônico ou tabaco aquecido geralmente perde o interesse pelo cigarro tradicional.
Vocês falam de transformação de um futuro com produtos sem fumaça. O que seria essa transição: o abandono total do cigarro? Seria um futuro ainda com riscos, mas sem o cigarro?
Sim, mas é bem reduzido o risco. A gente está falando de uma diferença entre um Iqos e um cigarro de 95% a menos em componentes tóxicos na fumaça. É uma diferença gigante. Não é uma diferença pequena. Risco sempre vai existir. Existe risco em várias atividades humanas. Mas as pessoas continuam fumando. No Brasil, pelo que eu saiba, o próprio Ministério da Saúde apontou aumento no consumo de cigarros. Então, pragmaticamente, faz sentido convencer essas pessoas a migrarem para produtos menos nocivos. É o que acontece aqui na Suécia, por exemplo. Apenas cerca de 5% da população fuma, e as doenças relacionadas ao tabagismo são cerca de 40% menores do que no restante da Europa. É uma diferença substancial. A própria Organização Mundial da Saúde estima que existam hoje cerca de 1 bilhão de fumantes no mundo, praticamente o mesmo número de 10 anos atrás. Ou seja: o mundo não está conseguindo abandonar o cigarro. Então, oferecer alternativas aos consumidores é importante. Nos países onde esses produtos continuam proibidos, essa visão de redução de danos não consegue avançar, e as pessoas seguem fumando.
Vocês têm alguma hipótese para explicar o recente aumento no número de fumantes, depois de anos de queda? Há alguma relação com os novos produtos?
Não há evidência científica mostrando uma transição desses produtos para o cigarro tradicional. Pelo contrário. Quem usa cigarro eletrônico, tabaco aquecido ou sachês de nicotina normalmente perde o interesse pelo cigarro convencional. Muitos dizem que não gostam mais do cheiro, do sabor ou da sensação do cigarro. Alguns nem conseguem mais ficar perto de fumantes. Eu mesmo sou um exemplo disso. Quando estou no aeroporto e preciso usar cigarro eletrônico perto de pessoas fumando, já me incomoda.
Existem críticas relacionadas ao apelo desses produtos entre jovens e à falta de regulamentação, especialmente no Brasil. Isso não é um problema real?
Sim, esses são pontos que precisam ser levados a sério. Jovens e menores de idade não deveriam usar nicotina. Concordamos totalmente com isso. Também concordamos que precisam existir regras claras, fiscalização e responsabilidade das empresas. O acesso de menores deve ser limitado e as companhias precisam agir de maneira responsável. Agora, quando se fala que esses produtos seriam extremamente atrativos para jovens, os dados não necessariamente mostram isso. Nos Estados Unidos, por exemplo, dados do CDC e da FDA apontam níveis relativamente baixos de uso em comparação ao cigarro tradicional. O que defendemos é uma abordagem regulatória pragmática. O extremo não funciona. A proibição total não funciona. Ela fortalece o mercado ilegal e mantém o consumidor no cigarro tradicional.
E como funcionaria a questão de preços desses produtos? Quando a gente faz a conversão, uma carteira de cigarro no Brasil custa um terço do valor desses produtos sem fumaça. Como seria o preço de venda, então?
Aí, a gente está especulando. É difícil falar em detalhes enquanto os produtos continuam proibidos, mas, em geral, a ideia é posicioná-los em faixas semelhantes ou até inferiores às do cigarro premium. Às vezes, como o imposto é menor, a gente consegue abaixar o preço. Isso acontece porque o objetivo é incentivar a migração do cigarro tradicional para alternativas menos nocivas. Quando se fala de cigarro eletrônico e sachê de nicotina, a comparação é difícil porque não se usam do mesmo jeito. No caso do tabaco aquecido, o padrão de consumo costuma ser parecido com o do cigarro, porque os produtos funcionam de maneira semelhante.
Vocês têm estimativas sobre o potencial desse mercado de produtos sem fumaça no Brasil?
Sim. Hoje o Brasil tem cerca de 22 a 23 milhões de fumantes. Também existem estimativas de aproximadamente 8 milhões de usuários de cigarro eletrônico e, dados recentes que eu li, de cerca de 1,5 milhão de consumidores de sachês de nicotina. A ideia seria reduzir o número de fumantes e ampliar o número de pessoas utilizando alternativas sem fumaça.
O Brasil está preparado para esse debate regulatório?
Acho que ainda falta muita informação. Existe bastante confusão no debate público. Muita gente no Brasil usa cigarro eletrônico sem sequer saber que ele é proibido. E episódios como os casos de lesões pulmonares nos Estados Unidos acabaram gerando medo generalizado, embora aqueles casos estivessem associados a substâncias específicas e ilegais. Então, acredito que o Brasil precisa discutir o tema com mais informação.
O jornalista viajou a convite da Philip Morris International
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