BRASIL - EUA

"Soberania também é diálogo", diz Nelsinho Trad sobre novas taxas

Parlamentar defende mais negociação e menos gritaria neste momento delicado da relação entre Brasil e Estados Unidos

Trad:
Trad: "O prazo é curto, então não dá para vender solução fácil" - (crédito: Waldemir Barreto/Agência Senado)

O anúncio de novas tarifas comerciais sobre produtos brasileiros pelos Estados Unidos reacendeu as preocupações do governo, do setor produtivo e do Congresso Nacional. Após a surpresa inicial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comandou uma ampla reação em defesa da soberania nacional e bordões como "O Pix é do Brasil". À frente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) do Senado, Nelsinho Trad (PSD-MS) tem defendido que o Brasil priorize a negociação e os canais diplomáticos antes de recorrer a medidas de retaliação. Em entrevista ao Correio, o senador afirma que o país precisa aproveitar o período de consultas públicas aberto nos Estados Unidos para apresentar argumentos técnicos. Uma reunião está prevista para 6 de julho, segundo informou o governo norte-americano. O presidente da CRE não descarta uma nova missão parlamentar a Washington e diz que temas como o Pix e a soberania nacional devem ser tratados com responsabilidade, longe da disputa eleitoral. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Como o Brasil pode tentar evitar o iminente aumento de tarifa anunciado pelos Estados Unidos?

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

O primeiro caminho é usar a etapa que ainda está aberta nos Estados Unidos: consulta pública, audiência e apresentação de argumentos. O prazo é curto, então não dá para vender solução fácil. Mas o Brasil precisa ocupar esse espaço. Também precisamos acionar o setor produtivo, o Itamaraty, os canais diplomáticos e os canais parlamentares que já foram abertos no ano passado. A ideia é tentar reduzir impactos, ampliar exceções e mostrar onde a medida pode prejudicar não só empresas brasileiras, mas também cadeias produtivas e consumidores americanos.

Uma nova missão do Senado aos Estados Unidos está no radar?

A missão não está descartada, mas ela precisa ter sentido. Não se faz missão por gesto político. Ela precisa ter objetivo claro. Primeiro, precisamos entender quais setores serão mais afetados e qual é a posição dos membros da CRE. Se ficar claro que uma ida a Washington pode ajudar a abrir portas, conversar com parlamentares americanos, apresentar preocupações brasileiras e diminuir impactos, esse caminho poderá ser usado novamente. Foi assim no ano passado, quando a missão do Senado ajudou a reabrir canais de diálogo em um momento de tensão.

Há relação entre as articulações da família Bolsonaro com Donald Trump e o endurecimento da posição americana?

Eu não quero personalizar esse debate. O que está em jogo é maior do que disputa política interna. Estamos falando de comércio exterior, empresas, empregos, exportações e relação entre dois países importantes. A CRE vai tratar esse tema de forma institucional. Vamos conversar com quem puder ajudar o Brasil, independentemente de partido ou posição política. O Brasil não pode transformar uma questão dessa dimensão em torcida.

Como o senhor avalia a inclusão do Pix no relatório dos Estados Unidos?

O Pix é hoje parte da vida do brasileiro. Ele facilitou pagamento, reduziu custo e deu acesso a muita gente que antes tinha dificuldade com serviços bancários. Então é natural que qualquer questionamento externo sobre o Pix precise ser olhado com muita atenção. O Brasil deve explicar tecnicamente o funcionamento do sistema e defender aquilo que é importante para sua economia e para sua população. Cooperação internacional, sim. Mas decisões sobre instrumentos centrais da economia brasileira precisam respeitar a realidade e a soberania do país.

Quando a Lei da Reciprocidade deve entrar em cena?

A Lei da Reciprocidade é um instrumento legítimo do Brasil. Mas ela precisa ser usada com responsabilidade. Antes de qualquer medida mais dura, o Brasil precisa esgotar os caminhos de diálogo, consulta pública, audiência, negociação técnica e diplomacia parlamentar. Se, depois disso, ficar claro que não houve espaço para entendimento e que setores brasileiros foram prejudicados de forma injusta, aí o país terá que avaliar seus instrumentos de defesa. O limite é não transformar uma defesa legítima em uma escalada que acabe prejudicando ainda mais empresas, trabalhadores e consumidores brasileiros.

O tarifaço pode ser contaminado pela polarização eleitoral?

Esse risco existe. Por isso mesmo é preciso cuidado. A relação entre Brasil e Estados Unidos não pode ser tratada como palanque eleitoral. É claro que soberania é um tema importante. Mas soberania também se defende com seriedade, com diálogo, com estratégia e com resultado. O Brasil precisa proteger seus interesses sem cair na gritaria. Esse é o papel que a CRE quer cumprir: ouvir os setores, abrir canais, buscar caminhos e evitar que uma questão comercial vire apenas mais um capítulo da polarização. 

 

 

  • Google Discover Icon
postado em 12/06/2026 03:55
x