Mercado

Sinal de alerta com a IA: investidores estão insatisfeitos com os resultados da tecnologia

Baixa no preço de ações de tecnologia em mercados do mundo inteiro apontam para volatilidade nas empresas do setor

Índice Nasdaq acumula recuo de 6% desde o início do mês e fechou os pregões da semana em queda -  (crédito: Michael M.Santiago/Getty Images via AFP)
Índice Nasdaq acumula recuo de 6% desde o início do mês e fechou os pregões da semana em queda - (crédito: Michael M.Santiago/Getty Images via AFP)

A forte queda das ações de tecnologia na última semana voltou a levantar dúvidas sobre a sustentabilidade do atual ciclo de investimentos em inteligência artificial (IA). O índice Nasdaq, referência do setor tecnológico nos Estados Unidos, acumula recuo de 6% desde sua máxima histórica registrada em 2 de junho e encerrou todos os pregões desta semana em queda.

A volatilidade também atingiu outros mercados. Na Coreia do Sul, o índice Kospi, fortemente influenciado por empresas de tecnologia como Samsung e SK Hynix, chegou a acionar o mecanismo de interrupção das negociações após registrar tombos de 10% e 5,8% em diferentes sessões. O Índice de Semicondutores da Filadélfia também caiu 8% em um único dia.

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Apesar da correção recente, especialistas avaliam que o movimento ainda não representa necessariamente uma crise, mas sim uma possível mudança de tendência após um longo período de valorização acelerada. Nos últimos 12 meses, os setores de semicondutores e tecnologia acumularam altas de 157% e 172%, respectivamente.

O economista e vencedor do Prêmio Nobel Paul Krugman classificou, em sua newsletter,  o atual boom da IA como uma "espécie de bolha" e uma "quase ilusão social", afirmando que o fenômeno se aproxima mais de um modismo do que de uma valorização baseada em fundamentos econômicos sólidos.

Segundo Krugman, um dos sinais de alerta está na mudança de comportamento das empresas. Se antes as companhias pressionavam funcionários a utilizar ferramentas de IA de forma intensiva, agora passaram a incentivar a redução do consumo da tecnologia devido aos elevados custos operacionais. Para o economista, isso demonstra que o crescimento do setor pode não estar ocorrendo de maneira orgânica.

A preocupação também é compartilhada por investidores. Grande parte das avaliações bilionárias atribuídas às empresas de inteligência artificial foi construída com base em expectativas futuras, e não em resultados financeiros concretos. Embora a demanda pela tecnologia permaneça elevada, empresas do setor precisaram investir e captar dezenas de bilhões de dólares para desenvolver seus produtos sem apresentar, até o momento, lucros capazes de justificar integralmente esses aportes.

Essa pressão financeira tem provocado uma divisão dentro do próprio mercado de tecnologia. Enquanto fabricantes de chips seguem em alta impulsionados pela forte demanda por processadores para data centers, empresas que desenvolvem aplicações de IA enfrentam dificuldades para absorver os custos crescentes da infraestrutura necessária para operar seus sistemas.

A Microsoft e a Meta, por exemplo, perderam cerca de um quinto de seu valor de mercado desde seus picos recentes, entrando em território de mercado de baixa. As demais integrantes do grupo conhecido como "Sete Magníficas", Amazon, Apple, Google, Nvidia e Tesla, acumulam quedas de pelo menos 10% em relação às máximas recentes. Outro fator que contribui para a cautela dos investidores é a possibilidade de novas elevações das taxas de juros nos Estados Unidos, o que aumenta os custos de financiamento para empresas altamente dependentes de investimentos em infraestrutura tecnológica.

Especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que o atual movimento representa uma correção das expectativas criadas em torno da inteligência artificial. Para a professora e pesquisadora em economia da PUC-SP, Cristina Helena Pinto de Mello, a queda das ações ocorre porque o mercado passou a exigir resultados concretos após um longo período de valorização baseado em projeções futuras. "Nos últimos dois anos, houve uma forte valorização das empresas ligadas à inteligência artificial porque os investidores passaram a acreditar que essa tecnologia produziria ganhos extraordinários de produtividade e lucros em um horizonte relativamente curto. Agora, o mercado começa a ver e a exigir evidências concretas desses retornos", afirma. 

Ela acrescenta que muitas aplicações ainda estão em desenvolvimento, exigem elevados investimentos em infraestrutura e o simples uso da tecnologia não garante retorno, já que fatores como políticas públicas, ambiente regulatório, governança e qualificação profissional também influenciam os resultados. Na avaliação do economista Goldwasser Neto, CEO e cofundador da Mogno, o mercado está deixando de precificar apenas as promessas de crescimento para cobrar eficiência das empresas do setor. "Essa correção não significa que a IA perdeu relevância. Significa que o mercado está deixando de aceitar apenas a narrativa de 'crescimento infinito' e passando a cobrar resultado, eficiência e monetização real", explica. 

"A IA precisa sair do discurso genérico e entrar em processos concretos, com ganho de produtividade, redução de custo, melhoria de decisão e retorno mensurável para o cliente", completa. Já para o economista Marcelo Gonçalves do Valle, do UniProcessus, o descompasso entre os investimentos bilionários e os resultados financeiros é comum em tecnologias disruptivas. "A maior parte dos investimentos está relacionada à infraestrutura e são de longo prazo. Algumas das soluções e serviços desenvolvidos ainda buscam formas de monetização típicas do início do ciclo de vida de um produto", afirma. 

Ele também chama atenção para o chamado financiamento circular, em que empresas como Nvidia, Oracle, AMD e OpenAI investem umas nas outras para expandir a infraestrutura da IA. Segundo o especialista, esse modelo pode acelerar o desenvolvimento do setor, mas também favorecer a formação de bolhas, exigindo ajustes periódicos nas expectativas do mercado. Apesar das recentes perdas nas bolsas, Marcelo avalia que ainda é cedo para afirmar que a bolha da inteligência artificial começou a estourar. "Tecnologias disruptivas enfrentam momentos de euforia e de depressão. Ainda que haja uma bolha, o setor se reestruturaria em bases mais realistas e não ao fim da IA", diz. O economista compara o cenário ao das empresas "pontocom", destacando que períodos de forte correção costumam fazer parte do amadurecimento de novas tecnologias.

Mais rigor e pragmatismo

Arthur Igreja, especialista em Tecnologia e Inovação e cofundador da plataforma AAA Inovação, avalia que o mercado de inteligência artificial atravessa um momento de maior rigor na avaliação das empresas da área. Segundo ele, o comportamento dos CEOs, que costumam fazer projeções otimistas sobre o futuro das companhias, faz parte da dinâmica do setor, mas os investidores passaram a exigir resultados concretos. "Os CEOs serem marqueteiros faz parte do trabalho deles. O que mudou é que o mercado está mais pragmático. 

Para o especialista, empresas que fornecem infraestrutura para a IA, como fabricantes de chips e memória, continuam apresentando forte desempenho, enquanto aquelas que investiram bilhões na tecnologia ainda enfrentam dificuldades para transformar esse investimento em lucro. "As promessas, essas sim, me parecem infladas, exageradas. Existia muita expectativa de que teríamos um crescimento econômico puxado pela inteligência artificial, mas não é exatamente isso que está acontecendo. Os resultados têm sido mais discretos", diz.

O especialista também acredita que a IA ainda está no início de sua trajetória e possui amplo espaço para crescer, embora o ritmo possa desacelerar caso o mercado reduza o fluxo de investimentos. "Não existe um limite. A inteligência artificial ainda vai crescer absurdamente. Estamos apenas no começo dessa trajetória", afirma. "Quando o mercado fica mal-humorado, reduz os investimentos. Ao reduzir os recursos, a evolução desacelera, e então surge o argumento de que a tecnologia não está avançando tão rapidamente quanto se esperava. É uma espécie de profecia autorrealizável. Esses ciclos são bastante naturais", conclui.

*Estagiários sob a supervisão de Nahima Maciel

 

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CY
postado em 28/06/2026 00:01 / atualizado em 29/06/2026 09:45
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