
O segundo dia de reuniões do governo federal com representantes de setores atingidos pela tarifa adicional de 25% para determinados produtos brasileiros importados pelos EUA contou com a participação de segmentos estratégicos para a relação comercial entre os dois países, como dispositivos médicos, madeira, químicos, papel e celulose e mobiliário.
As reuniões desta quarta-feira (22/7) começaram por volta das 11h e se encerraram no começo da tarde. Os encontros foram mediados pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), Márcio Elias Rosa, que no dia anterior já havia se encontrado com outros segmentos da indústria nacional, como eletrônicos, calçados, máquinas e equipamentos.
O presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), André Passos Cordeiro, disse que a reunião foi tratada como um “primeiro contato” para entender a dimensão real do impacto para cada setor. Segundo ele, já no primeiro ano de tarifaço, em 2025, houve uma redução de US$ 2,2 bilhões para US$ 1,8 bilhão nas exportações do setor para os EUA. A expectativa com a nova tarifa é de um novo impacto de até US$ 150 milhões.
“Ocorre que o setor químico, assim como outros, como aço, por exemplo, plásticos e outros produtos da indústria de transformação, também servem para fazer produtos que são exportados. Então, existem químicos embarcados em sapatos, em automóveis, em textos, roupas e outros utensílios. Então, o impacto é grande para o nosso setor, direto e indireto”, ponderou Cordeiro.
Assim como outros setores presentes na reunião, a Abiquim defendeu a manutenção da mesa de diálogo com os Estados Unidos, para defender a parcela destinada ao mercado norte-americano, que responde a uma parte relevante das exportações de químicos brasileiros. Além disso, o setor também defende que uma parte maior da produção nacional seja destinada ao abastecimento do mercado interno.
“Químicos básicos, resinas que são marginalmente exportadas para o mercado americano podem atender o mercado brasileiro. Então, ceder mais espaço para produtos químicos norte-americanos que, em determinados setores, chegam a ser responsáveis por 20%, 30% do consumo brasileiro, pode levar aí sim a uma situação crítica para essas empresas em território nacional”, acrescentou o presidente executivo.
Dispositivos médicos
Outro setor que depende em grande parte do comércio com os Estados Unidos é o de dispositivos médicos. Em 2025, os EUA responderam por US$ 289,68 milhões das exportações brasileiras desses produtos, o que indica um resultado 4,61% superior ao registrado no ano anterior. Apenas entre janeiro e maio de 2026, as vendas para o mercado norte-americano somaram US$ 96,5 milhões, o que manteve o país como o principal destino das exportações brasileiras do setor.
O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (Abimo), Jamir Dagir Jr., que participou da reunião com o Mdic, explica que algumas empresas no setor avaliam absorver parte do custo adicional com as tarifas para preservar sua presença no mercado norte-americano, reduzindo suas margens de lucro, enquanto outras estudam ampliar sua atuação em mercados alternativos.
“E há empresas que já analisam medidas de contenção de custos, incluindo a revisão de investimentos e, em alguns casos, da estrutura de pessoal, caso esse cenário se prolongue. Ainda é cedo para mensurar os impactos para todo o setor, mas os relatos mostram que a medida já começa a produzir efeitos nas decisões das empresas”, comenta.
Dagir Jr. acredita que a diversificação das exportações é um caminho importante, mas que, no setor de dispositivos médicos, esse processo depende de certificações e aprovações regulatórias específicas de cada país. "As empresas brasileiras já trabalham para ampliar sua presença internacional, mas abrir novos mercados exige investimentos e tempo”, analisa.
“Cada país possui processos regulatórios próprios que podem levar meses ou até anos. Por isso, além de estimular a internacionalização, é fundamental preservar a competitividade das empresas nos mercados onde elas já estão consolidadas”, complementa o presidente.
Reciclagem animal
Apesar de não representar uma parcela considerável das exportações brasileiras para os Estados Unidos, o mercado de reciclagem animal é altamente dependente dos norte-americanos. Cerca de 42% de todas as vendas para o exterior de produtos ligados a esse setor tiveram como destino os Estados Unidos em 2025. Com a tarifa de 25%, o setor teme impactos não apenas para as empresas do Brasil, mas também para os EUA, que dependem em grande parte do parceiro comercial.
“Penalizar esse fluxo comercial significa criar barreiras para uma cadeia estratégica dos dois países. A Abra (Associação Brasileira de Reciclagem Animal) continuará empregando todos os esforços institucionais e técnicos para que a reciclagem animal seja retirada do escopo dessas tarifas e possa competir em igualdade de condições no mercado internacional", afirma o presidente do Conselho Diretivo da Abra, Pedro Bittar.
O ministro Márcio Elias Rosa disse, na chegada à sede da pasta, que o governo já conseguiu conversar com todos os setores afetados pela tarifa adicional e que deve marcar novas reuniões com as centrais sindicais, ainda sem data definida. Ele não deu, porém, previsão para um novo encontro com o Representante Comercial dos EUA (USTR, na sigla em inglês).

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