
Embora o governo tenha endurecido o tom ao "rechaçar" a taxação de 12,5% anunciada ontem pelos Estados Unidos, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), Márcio Elias Rosa, ponderou que o governo deve seguir em negociações com os americanos. O novo tarifaço foi aplicado sob o argumento de que o Brasil importa de países que praticam o trabalho forçado.
O ministro acrescentou que as empresas atingidas somente pela tarifa anunciada ontem também terão direito às medidas de socorro previstas no Plano Brasil Soberano 3, que incluem um crédito diferenciado com juros mais atrativos para esses setores. A terceira fase no plano foi anunciada na quarta-feira, com um total de R$ 18,5 bilhões em crédito para os segmentos afetados diretamente pelo tarifaço.
"O presidente orienta nesse sentido: continuar negociando, negociando, negociando para que afaste a imposição dos 25% que já foram decididos naquela sessão própria do Brasil e a gente possa ter, nessa decisão de hoje, a ampliação da lista de exceções", disse Elias Rosa a jornalistas na noite de ontem.
Segundo o Mdic, setores como calçados, máquinas, equipamentos, peças, componentes, confecções, químicos, desde que não sejam farmacêuticos, passam a ser tributados em 37,5%, em razão da cumulatividade com a outra taxa de 25% já aplicada sobre esses produtos. Cerca de 18,5% das exportações brasileiras para os EUA estão sob efeito de tarifas adicionais superiores a 12,5%.
"Ele (O Brasil Soberano) já está pronto para acolher quem for alcançado por essa decisão de hoje, porque a lei sancionada pelo presidente Lula permite que a regulamentação inclua ou exclua setores. Então, os setores que vierem que foram hoje atingidos por essa decisão dos Estados Unidos podem ser acolhidos", destacou o chefe da pasta. Elias Rosa ressaltou, ainda, que o foco do governo no primeiro momento é socorrer as empresas e setores impactados com a medida e que somente em agosto o governo deve voltar a tentar conversar com os representantes norte-americanos para reverter as tarifas e chegar a um acordo favorável para os dois países.
Elias Rosa não descartou, no entanto, a adoção de mecanismos previstos na Lei de Reciprocidade Econômica, aprovada em 2025 pelo Congresso Nacional. A legislação brasileira estabelece meios de retaliação a outros países, em caso de adoção de medidas unilaterais sem fundamento e que prejudicam o comércio nacional. De acordo com o chefe da pasta, a medida implementada pelos norte-americanos contra o Brasil e outros 59 países, além da União Europeia, é considerada pelo governo como "indevida, ilegítima, descabida e ilegal".
"O Brasil, no momento certo, a partir da orientação do presidente Lula, vai fazer valer esse instrumento legal de proteção da sociedade brasileira e de proteção do Brasil", ressaltou. Ele manifestou que o governo brasileiro não poderia renunciar à possibilidade de utilizar a lei de reciprocidade e que o Executivo deve pensar nos "meios" em que as medidas devem ser aplicadas.
Mais cedo, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, refutou a ideia de o Brasil utilizar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade Econômica para retaliar os Estados Unidos. Assim como ele, outras associações do setor produtivo já manifestaram contrariedade à aplicação da legislação e defendem insistir na negociação tradicional. "O que nós não queremos criar é decisões precipitadas que propiciem mais problemas do que soluções", disse o presidente da CNI.
Alban entende que acionar a lei não significaria, propriamente, agir com base nela. "É essa a minha leitura. Não estou dizendo que é isso ou aquilo, mas minha leitura é essa mesmo", ressaltou o presidente da entidade, que defendeu manter um diálogo "construtivo", inclusive, com as empresas norte-americanas, que possuem interesse em temas brasileiros, como data centers e minerais críticos.
"Nós não podemos deixar que esse tom eleve e que as coisas comecem a tomar derivações que não são pertinentes para nenhuma economia, nem para o outro. É óbvio que essas exceções foram feitas à luz do interesse americano, mas têm muitos outros interesses americanos que podem convergir com nossos interesses", avalia Alban.
No mesmo tom, a Federação das Indústrias do Esta.do de Minas Gerais (Fiemg) defendeu a "intensificação imediata" das negociações diplomáticas e comerciais entre os dois países como o caminho ideal para reduzir ou modular a nova tarifa. "O Brasil precisa agir com firmeza, rapidez e capacidade técnica para evitar que essa nova tarifa comprometa ainda mais a competitividade da indústria nacional. A prioridade deve ser ampliar as exceções, garantir previsibilidade às empresas e construir uma solução negociada que preserve contratos, investimentos e empregos", disse a coordenadora de Negócios Internacionais da Fiemg, Verônica Winter.

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