
Com a entrada em vigor das sobretaxas dos EUA de 25% e de 12,5%, anunciadas nesta semana, as estimativas do governo e de consultorias especializadas sobre o impacto da medida na pauta exportadora variam de 23,1% a 32% em relação ao volume de vendas para o mercado norte-americano. Além disso, analistas reconhecem que esse novo tarifaço não afeta apenas as empresas exportadoras, mas a economia como um todo, pois influencia o câmbio e a inflação, sem contar que também deve impactar na corrida eleitoral.
A sobretaxa de 12,5%, que entrou em vigor ontem, faz parte de uma ação comercial do gabinete do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) contra 60 parceiros comerciais que não adotaram ou não aplicaram, de forma efetiva, mecanismos para barrar a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. O Brasil foi taxado pela maior tarifa, de 12,5%, junto com outras 40 economias. Outras 19 receberam uma taxação menor, de 10%, como é o caso da Argentina.
As justificativas do USTR, contudo, estão sendo consideradas "arbitrárias" e "sem fundamentos" não apenas pelo governo brasileiro, como também por autoridades de vários blocos e países, como é o caso da União Europeia e da China - o mais tarifado pelos EUA e principal alvo dessa ofensiva comercial de Donald Trump.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) estima que 23,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos estejam sujeitas às novas sobretaxas decorrentes das investigações conduzidas com fundamento na Seção 301, sendo que 16,5% das exportações são alcançadas simultaneamente pelas duas medidas, e, portanto, sujeitam-se à sobretaxa acumulada de 37,5%, que é o caso de produtos como máquinas e equipamentos; vários tipos de madeira; gorduras e óleos; calçados; móveis; confecções. Por outro lado, o órgão informou que 52,7% das exportações brasileiras para os EUA não serão alcançadas pelas sobretaxas adicionais dos EUA como é o caso de produtos como café, carnes, ferro fundido, aeronaves, suco de laranja, frutas, vários produtos químicos e a maior parte das exportações de celulose.
Com base nos dados do comércio bilateral entre o Brasil e os Estados Unidos de 2024, o economista-chefe da MB Associados elaborou uma tabela sobre os impactos das novas tarifas dos EUA e tem um dado mais impactante, pois prevê que 27,7% das exportações brasileiras, ou US$ 12,4 bilhões, devem ser atingidas pela tarifa de 37,5% e, somando com os impactos individuais das tarifas de 25% e de 12,5%, esse percentual passa para 32%, totalizando US$ 14,3 bilhões (ver quadro).
Os cálculos de Sergio Vale mostram ainda que R$ 19,3 bilhões da pauta exportadora do país ainda seguem isentos. Contudo, ele alertou para a queda do volume exportado, que, neste ano, já encolheu 13% no primeiro semestre na comparação com 2025, conforme dados do próprio Mdic.
De acordo com dados da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), a nova tarifa de 12,5% deve atingir um volume de US$ 12,5 bilhões em exportações anuais de produtos brasileiro para os Estados Unidos, sendo que 85,3% dessas vendas, equivalentes a US$ 10,7 bilhões, devem ter efeitos cumulativos com as tarifas de 25% que entrou em vigor na quarta-feira, resultando em sobretaxas de 37,5% — um dos níveis mais elevados aplicados pelos Estados Unidos a seus parceiros comerciais. A entidade reconheceu que o Brasil passa a ser um dos países mais tarifados pelos Estados Unidos, e ainda reforçou a necessidade de manutenção do diálogo bilateral apesar do endurecimento das tarifas por parte dos EUA. A Amcham, inclusive, reiterou que "medidas de reciprocidade não contribuem para superar as divergências atuais e apresentam elevado risco de provocar uma escalada política e comercial, agravando os impactos econômicos para empresas, trabalhadores e consumidores brasileiros".
Reciprocidade
Apesar de o governo ter sinalizado que pretende acionar a Lei da Reciprocidade, Sergio Vale, da MB Associados, também fez alerta para os riscos de uma medida mais drástica. Para ele, o melhor caminho a ser trilhado pelo governo é a busca por novos mercados. "A retaliação, em geral, não é o caminho. Acho que o melhor caminho é, de fato, gradativamente buscar novos mercados. Esse deveria ser o objetivo central do governo", aconselhou. Na avaliação de Vale, o governo Trump deve continuar elevando tarifas ao longo dos próximos anos. "Certamente ele tem um fetiche tarifário muito claro, muito evidente, especialmente com máquinas, equipamentos industriais, com indústria tradicional. Ele acha que os Estados Unidos podem produzir isso tudo lá. Ele sempre pensou em tarifa dessa forma, então tudo que tem sido usado como argumento de Pix, trabalho forçado, tudo isso é subterfúgio para uma decisão que a priori já estava sendo tomada desde o ano passado", explicou.
Para o especialista, não deverá haver uma mudança de pensamento do governo Trump para diminuir as tarifas. Pelo contrário. "Essas novas tarifas vieram para ficar e, quanto mais tempo ficar, de fato, a percepção dessas tarifas de que elas não vão mudar, mais vai haver queda de exportação para os Estados Unidos, especialmente de volume, porque essa nova tarifa, de 37,5% é extremamente elevada, então, o choque a longo prazo vai ser de perda de mercado dos EUA", alertou.
O professor emérito de história do Brasil da Brown University, James Green, também alertou sobre o risco de uma retaliação aumentar o atrito entre Brasil e Estados Unidos, mas reconheceu que o Brasil tem todo o direito de defender a soberania nacional, e, se for necessário também aumentar tarifas. "O que Trump está fazendo é totalmente injusto. Não tem nada a ver com a realidade econômica e é uma punição ao Brasil. É uma interferência nas eleições de 2026, porque vai criar uma situação de inflação e isso vai acabar prejudicando o governo atual e favorecendo a oposição", pontuou.
Entidades seguiram criticando a medida dos EUA. A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), por meio de nota, ontem, repudiou a imposição de nova sobretaxa de 12,5% sobre produtos brasileiros, sob o argumento de combate ao comércio de bens produzidos com trabalho forçado. A entidade ainda reforçou que a justificativa apresentada pelos EUA não corresponde com a realidade brasileira. "Vale ressaltar, ainda, que o Brasil é reconhecido há décadas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) pelos fortes compromissos assumidos no combate ao trabalho forçado", acrescentou. Além de elogiar o pacote de financiamento de R$ 18,5 bilhões para os exportadores afetados pelo tarifaço, ontem, a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) também defendeu a manutenção do diálogo. "Nós entendemos que a negociação continua o caminho correto neste momento em que é necessário retomar diálogos pela ampliação das exclusões e pelo auxílio financeiro ao exportador impactado", afirmou, em nota enviada ao Correio.

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