
Após 10 anos da assinatura, o Acordo para o Reconhecimento Mútuo da Tequila e da Cachaça como Indicações Geográficas e Produtos Distintivos do México e do Brasil foi renovado e é considerado um marco na cooperação bilateral em matéria de propriedade intelectual e de proteção das indicações geográficas.
A expectativa do presidente do Conselho Regulador de Tequila (CRT), Aurelio López Rocha, é de que essa parceria reafirmada entre os dois países avance e o volume de tequila exportada ao Brasil supere o pico de 2022, além de ampliar o comércio bilateral que já vem apresentando crescimento de dois dígitos neste ano, tanto nas importações quanto nas exportações.
“Existe um potencial muito grande entre os dois países não apenas no consumo da tequila e da cachaça, pois há muita similaridade entre as duas culturas”, destacou Rocha, em entrevista ao Correio, na Embaixada do México em Brasília. Ele esteve na capital federal, na semana passada, quando participou de vários eventos relacionados à comemoração dos 10 anos do acordo de reconhecimento mútuo da tequila e da cachaça, firmado no governo Michel Temer, em julho de 2016.
O tratado entrou em vigor após a promulgação do decreto presidencial nº 9.658, em 28 de dezembro de 2018, e assegura o reconhecimento recíproco da tequila como indicação geográfica exclusiva dos estados mexicanos e da cachaça como indicação geográfica brasileira, “em conformidade com os princípios estabelecidos no Acordo sobre os Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio (Acordo Trips)”. Desde então, os dois países protegem a autenticidade de seus respectivos produtos, combatem o uso indevido de suas denominações de origem, preservam o patrimônio cultural e fortalecem a segurança jurídica para produtores, consumidores e autoridades competentes das duas nações.
Na entrevista, Rocha e o embaixador mexicano no Brasil Carlos Eugenio García de Alba Zepeda, defenderam a importância da diversificação dos mercados entre os dois países como forma de enfrentamento do novo tarifaço do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que que aumentou as tarifas sobre os produtos brasileiros em até 37,5%, desde 24 de julho, assim como para reduzir a predominância do mercado norte-americano para as exportações mexicanas.
“Essa é a mensagem: temos que diversificar os mercados. Sabemos que estamos em um momento internacional muito difícil. Veja o cenário comercial: o governo dos EUA tem o poder de aplicar tarifas e, certamente, Brasil e México, precisam aproveitar as oportunidades para aumentar o comércio bilateral. O chamado Sul Global precisa se aproximar mais”, destacou o diplomata mexicano.
Aurélio Rocha também demonstrou preocupação com o aumento das incertezas no cenário internacional, e ainda demonstrou otimismo em relação ao avanço das relações comerciais entre México e Brasil. “Acredito que a cachaça, se me permitem acrescentar, tem um enorme potencial e um grande desafio em termos de crescimento das exportações, porque as exportações brasileiras para o México também são muito marginais”, afirmou.
O persidente do CRT contou que 81% a 83% das exportações de tequila ainda são destinadas aos Estados Unidos e, depois, os principais mercados são: Canadá, Alemanha, Espanha, Inglaterra e França. “O Japão está crescendo cada vez mais”, disse ele, acrescentando que a Colômbia também está dando sinais de que já representa 40% do mercado brasileiro.
Aliás, em busca dessa diversificação, o governo brasileiro, vem buscando novas parcerias e acordos bilaterais, como a retomada do diálogo com a Coreia do Sul, marcada com a vinda a Brasília do presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-Myung, na semana passada. Para esta semana, o Ministério das Relações Exteriores pretende realizar um encontro com representantes da Embaixada do México em Brasília para buscar identificar oportunidades para o comércio bilateral.
A informação foi dada, na noite de sexta-feira (31), pela secretária de América Latina e Caribe do Itamaraty, Gisela Padovan, em evento na Embaixada do México em homenagem aos 10 anos do acordo do reconhecimento mútuo da cachaça e da tequila.
A diplomata contou que o Itamaraty convocou uma reunião com representantes com representantes da chancelaria mexicana para buscar uma “ampla agenda comum”, a fim de melhorar as relações e a integração bilateral nesse mundo tão complexo. “Ainda não chegamos aonde queremos chegar na nossa relação”, disse ela, em seu discurso após uma degustação de tequilas na Embaixada.
Comércio bilateral
Neste ano, enquanto os Estados Unidos retomam o tarifaço contra o Brasil e os principais parceiros comerciais, Brasil e México tentam ampliar o comércio bilateral. De janeiro a junho, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), as exportações para o país latino-americano somaram US$ 7,7 bilhões em 2025, apresentando queda de 0,9%. Mas, neste ano, as trocas comerciais estão melhorando.
Apenas no primeiro semestre do ano, os embarques de produtos brasileiros para o México cresceram 19,2%, em relação ao mesmo período do ano passado, para US$ 4,1 bilhões, fazendo com que o país respondesse pelo sétimo lugar entre os principais parceiros comerciais do Brasil.
As importações cresceram 23% no mesmo período, somando US$ 3,6 bilhões, o que resultou em um saldo positivo na balança comercial de US$ 429,5 milhões na primeira metade de 2026. Entre os principais produtos brasileiros exportados para o México são soja, que responde por 12,7% dos embarques no primeiro semestre, carne de frango (7,3%), veículos de passageiros (6,5%), carne bovina (6,2%), e veículos comerciais (6,3%), conforme os dados do Mdic.
Certificação da tequila
O CRT é uma associação civil sem fins lucrativos e, desde 1994, supervisiona o cumprimento de sua Norma Oficial Mexicana por meio de atividades de inspeção, análises laboratoriais, certificação e rastreabilidade ao longo de toda a cadeia produtiva. Uma das principais funções do Conselho é salvaguardar a Denominação de Origem da Tequila (DOT), tanto em âmbito nacional quanto internacional, a fim de garantir ao consumidor a autenticidade do produto que teve a primeira DOT em 1974.
O sistema de certificação garante o registro das plantações de agave, o acompanhamento dos processos de produção, a revisão das informações comerciais e a certificação de cada lote elaborado da tequila, que é uma das bebidas mais regulamentadas do mundo.
Além de certificações de novos distribuidores pelo país, a ideia é disseminar a cultura da tequila, que é um patrimônio mundial reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Em 2006, a entidade considerou a Paisagem de Agave e as Antigas Instalações Industriais de Tequila do México como Patrimônio Mundial da Humanidade.
Atualmente, só recebem o selo a tequila produzida com agave azul em 181 municípios de cinco estados da República Mexicana: Jalisco, Nayarit, Michoacán, Guanajuato e Tamaulipas. A tequila original utiliza como matéria-prima vegetal o agave weber da variedade azul. O processo de fabricação é via destilação, que separa e purifica por meio do calor, os diferentes componentes líquidos da mistura do álcool presente nos mostos fermentados, eliminando os componentes indesejados.
De acordo com Rocha, o papel do Conselho é garantir que a tequila seja autêntica desde o começo da produção, ou seja, em relação ao cultivo da matéria-prima, o agave nos municípios que compõem a região de denominação de origem e essa planta seja transformada em bebida até engarrafada, inspecionada, até chegar ao consumidor. O executivo destacou que, basicamente, existem duas classificações principais de tequila: 100% agave e tequila 51% agave azul e 49% de outros açúcares, que é o padrão, divididas nas seguintes classes: silver (engarrafado na origem), gold ou young aged/reposado (mínimo de dois meses em barril), extra aged (mínimo de um ano em barril) e ultra aged (mínimo de três anos em barril).
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Conforme dados do presidente do CRT, em 2025, o México produziu mais de 400 milhões de litros de tequila e cerca de 70% a 75% da produção local é exportada. Ele contou que o Brasil já importou mais de 1 milhão de litros por ano, em 2022, mas, atualmente, houve queda nesse volume, para algo em torno de 500 mil litros. A expectativa é de é voltar a superar essa marca, segundo o empresário que foi secretário de Turismo do Estado de Jalisco, entre 2007 e 2013, estado que é o maior produtor mexicano de tequila.
Destaques da balança comercial entre Brasil e México
As exportações do Brasil para o México voltaram a crescer neste ano e chegaram a crescer acima de dois dígitos
2025 - Jan-Dez
Valores //Variação em relação a 2024
Exportações US$ 7,7 bilhões// -0,9%
Importações US$ 6,2 bilhões// + 7,9%
Saldo comercial US$ 1,5 bilhão
2026 - Jan-Jun
Valores// Variação em relação a 2025
Exportações US$ 4,1 bilhões// +19,2%
Importações US$ 3,6 bilhões// +28,0%
Saldo comercial US$ 492,5 milhões
Fonte: Secex/Mdic.

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