
A conversa por ligação entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT), do Brasil, e Vladimir Putin, da Rússia, pode ser vista como um movimento além de uma simples troca de informações. Economistas consultados pelo Correio acreditam que o movimento apresenta certos simbolismos que denotam uma aproximação entre os dois líderes em temas como o comércio exterior e a defesa militar.
Lula e Putin conversaram por uma hora, aproximadamente, de acordo com a Secretaria de Comunicação Social (Secom) do Palácio do Planalto. Segundo a assessoria do presidente, temas como a cooperação em ciência, tecnologia e área naval estiveram no centro do diálogo, além da visão semelhante sobre a Organização das Nações Unidas (ONU), já que ambos consideram que a entidade perdeu força e capacidade de buscar consensos para a paz.
Na visão do professor de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) Másimo Della Justina, Lula aproveita a oportunidade de tensão com os Estados Unidos na área comercial e diplomática para mostrar que o Brasil está de olho em outros mercados.
“Uma ligação telefônica tem esse simbolismo, porque os grandes jornais vão falar sobre isso, então é um momento de posição que reforça todos esses esforços dos Brics, que estão de olho nesse comércio sul-a-sul, para sair da estrutura um pouco de Europa, Japão e EUA”, avalia o professor.
Oportunidades para crescer
O Brasil ainda é altamente dependente dos fertilizantes russos, enquanto o país europeu compra, principalmente, produtos do agronegócio brasileiro, como carne, café e açúcar, em um volume bem inferior ao inverso.
Na visão do especialista, há espaço para um aumento da exportação de produtos vendidos para os EUA, com calçados, têxteis e suco de laranja, mas, sobretudo, há oportunidades no campo do frete marítimo, já que uma parceria entre os dois países pode contribuir para o desenvolvimento da frota mercante brasileira, bastante aquém de outras concorrentes.
“Não necessariamente a Rússia vai consumir nossa carne, nosso grão, nosso café, mas a Rússia entra como parceira justamente para fazer a parte de logística, de transporte e tudo mais. Em termos de logística marítima e de comércio, existe toda uma gama de oportunidades”, considera Della Justina.
Aproximação difícil
Já o economista e gestor de riscos Rodrigo Provazzi pondera que há entraves para uma aproximação entre os dois países, a começar pela distância e a dificuldade em relação aos custos logísticos com o frete ainda elevado.
“E, inclusive, com as guerras que estão acontecendo, a Rússia é a protagonista de uma delas, e talvez a mais relevante e a mais longeva dos grandes países, eles aumentam os custos logísticos, principalmente com a questão de seguros, que essa própria posição russa no cenário macropolítico global também é um dificultador”, sustenta o economista.
Provazzi, no entanto, acredita que, apesar das sanções internacionais e desses dificultadores, uma ampliação do comércio com a Rússia é um risco que o Brasil precisa “tentar”. “Historicamente, o Brasil é muito pragmático nesse sentido, ele evita ao máximo vincular questões comerciais com questões ideológicas. Mas o mundo de hoje é um mundo em que fica cada vez mais difícil você estabelecer esse essa desassociação entre os temas”, comenta.

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