Agro

Recuperações judiciais no agronegócio avançam 21,9% no primeiro trimestre

Alta ocorre em meio a crédito mais restrito, custos elevados e maior endividamento, apesar da expectativa de safra recorde

No recorte por atividade, o cultivo de soja concentrou 137 solicitações -  (crédito: Divulgação)
No recorte por atividade, o cultivo de soja concentrou 137 solicitações - (crédito: Divulgação)

Os pedidos de recuperação judicial no agronegócio chegaram a 474 no primeiro trimestre de 2026, alta de 21,9% em relação ao mesmo período de 2025, segundo levantamento da Serasa Experian divulgado nesta quarta-feira (12/8). O número também supera os 408 pedidos registrados no quarto trimestre do ano passado, embora permaneça abaixo do pico de 628 solicitações observado no terceiro trimestre de 2025.

O avanço ocorre em um cenário de crédito mais restrito, custos elevados e maior endividamento, apesar das perspectivas de uma nova safra recorde. Em 2025, produtores rurais e empresas ligadas ao agronegócio haviam registrado 1.990 pedidos de recuperação judicial, recorde da série histórica iniciada pela Serasa Experian em 2021.

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“O ambiente de crédito mais seletivo, combinado à manutenção de custos elevados de produção e ao maior nível de alavancagem dos produtores, continuou afetando o fluxo de caixa no campo”, afirmou Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian.

Segundo ele, a evolução do cenário dependerá da geração de receita, das margens e das condições de renegociação das dívidas. “Por isso, reforçamos que renegociar e manter um planejamento financeiro deve ser prioridade enquanto a recuperação judicial precisa permanecer como o último recurso”, disse.

PJ

Os produtores rurais que atuam como pessoa jurídica responderam por 196 pedidos no primeiro trimestre, alta de 73,5% em um ano e maior crescimento entre os perfis analisados. Já os produtores pessoa física somaram 182 solicitações, queda de 6,7%. Outros 60 pedidos foram feitos por produtores classificados como pessoa física “sem propriedades”, categoria que pode incluir arrendatários.

Entre os estados, Mato Grosso liderou, com 135 pedidos, seguido por Goiás, com 73, Paraná, com 50, e Mato Grosso do Sul, com 38. No recorte por atividade, o cultivo de soja concentrou 137 solicitações, enquanto a criação de bovinos respondeu por 42.

Para Denis Barroso, sócio da Barroso Advogados Associados e especialista em recuperação empresarial, o aumento das recuperações está mais relacionado à estrutura financeira dos negócios do que à capacidade produtiva.

“O produtor não está necessariamente produzindo menos. Em muitos casos, a produtividade continua elevada. O problema é que ele recebe menos por sua produção enquanto os custos para plantar, financiar e operar cresceram significativamente”, afirmou.

Barroso destaca que juros elevados e maior seletividade dos bancos mudaram a dinâmica de financiamento do setor. “Hoje o custo do dinheiro se tornou um dos maiores desafios para o agronegócio”, disse. Segundo ele, a combinação de crédito mais caro, menor liquidez e preços voláteis das commodities tem comprimido as margens e dificultado a manutenção do capital de giro.

A pressão financeira também se reflete na inadimplência. De acordo com a Serasa Experian, 8,2% dos produtores rurais apresentavam atrasos superiores a 180 dias em seus compromissos financeiros.

Produção recorde

A expectativa de uma safra de grãos próxima de 360 milhões de toneladas em 2025/26 evidencia o contraste entre produtividade e saúde financeira. Para Barroso, “eficiência operacional não garante sustentabilidade financeira quando o custo do capital cresce de forma significativa”.

O especialista avalia que a recuperação judicial deve ser utilizada apenas depois de outras alternativas, como renegociação de dívidas, revisão da operação, venda de ativos e busca por investidores. “O erro mais frequente é esperar que a crise se torne praticamente insolúvel”, apontou.

O cenário não é exclusivo do agronegócio. Em 2025, 2.273 empresas de diferentes setores recorreram à recuperação judicial, segundo a Serasa Experian, também o maior número da série histórica.

Para Benito Pedro, sócio da Avante Assessoria Empresarial e especialista em reestruturação, o ambiente exige maior controle sobre caixa e endividamento. “O desafio deixou de ser apenas crescer; passou a ser crescer de forma sustentável, preservando liquidez e capacidade de investimento.”

Com juros, crédito e preços das commodities ainda determinantes para o desempenho do setor, a avaliação dos especialistas é que a gestão financeira e a renegociação preventiva serão decisivas para evitar que dificuldades de caixa evoluam para insolvência ao longo de 2026.


 

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postado em 12/08/2026 11:23 / atualizado em 12/08/2026 11:23
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